Oferta Relâmpago: Super por 7,99

Pesquisadores da Unicamp criam modelo que detecta deepfakes inéditos

O detector combina padrões de imagens reais e manipuladas para reconhecer vídeos falsos feitos com técnicas nunca vistas antes.

Por Juliana Vicentini 25 jun 2026, 16h00
Pesquisadores da Unicamp criam modelo que detecta deepfakes inéditos Priorizar nos meus resultados Google

Imagens e vídeos já foram considerados provas praticamente incontestáveis da realidade, mas a Inteligência Artificial (IA) abalou essa certeza. Hoje, é possível substituir a face de uma pessoa pela de outra, alterar expressões faciais, modificar a voz, simular falas e sincronizar lábios de maneira realista. Esse conteúdo é conhecido como deepfakes.

Os custos de produção de conteúdos manipulados caíram, os programas se popularizaram e muitas ferramentas ficaram gratuitas. Elas podem ser usadas para falsificação de identidade, difamação, violação de privacidade, golpes digitais, manipulação política, quebra de confiança nas produções digitais e disseminação de desinformação em escala global. 

Graças ao realismo dos deepfakes, é cada vez mais difícil diferenciar mídias reais e falsas à olho nu. Por isso, é necessário usar ferramentas digitais para identificar o conteúdo manipulado. Os detectores funcionam como caçadores de pistas que operam a partir de fraudes que já existem. Mas tem um problema: quando surge uma nova técnica de manipulação, o desempenho dos detectores cai – e conteúdos falsos podem passar despercebidos. 

Como diminuir o seu tempo de tela

Com essa questão em mente, pesquisadores do laboratório de IA Recod.ai, que atuam no Brasil, China e Singapura, criaram o OSDFD (Open-Set DeepFake Detection). Esse modelo é capaz de reconhecer deepfakes produzidos por técnicas inéditas, com as quais ele não foi treinado. Em outras palavras, o modelo não se limita a identificar exemplos de métodos de falsificação específicos. O OSDFD aprende padrões gerais que diferenciam imagens autênticas de manipuladas – independentemente da técnica utilizada. 

Continua após a publicidade

“Com a explosão de técnicas de criação de conteúdo, fica impossível conseguir exemplos de ataques de todos os geradores. Dessa forma, procuramos pensar o problema por outro ângulo: se é difícil modelar os ataques, devido à sua variabilidade e nuances, seria possível modelar o que chamamos de normal ou no jargão técnico, bonafide?”, diz Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Recod.ai.

A partir dessa lógica, o modelo combina várias estratégias. Uma das principais inovações é o aprendizado de atributos naturais típicos de imagens autênticas, como textura e iluminação. Como as falsificações frequentemente violam esses padrões sutis, o modelo usa essa base como uma referência para identificar o que é real, mesmo diante de manipulações nunca vistas antes.

O OSDFD também analisa sinais de inconsistências globais e locais da face, focando em pistas de alta frequência e irregularidades. Em seguida, integra características de diferentes tipos de deepfakes para ampliar a capacidade de reconhecimento de manipulações. A junção dessas técnicas constrói uma fronteira que separa imagens de rostos reais e sintéticos. A detecção final ocorre quando a IA identifica desvios que mostram que a imagem não se enquadra no grupo das autênticas.

Continua após a publicidade

“Procuramos modelar a classe de imagens chamadas ‘naturais’, de pessoas reais, de modo que consigamos entender as propriedades físicas da geração da imagem, bem como as nuances de uma pessoa de verdade fotografada e não gerada por IA. Dessa forma, precisamos adicionar apenas imagens naturais de tempos em tempos para ele capturar características recentes e atualizadas de fotografia, e não de ataques. É muito mais fácil conseguir imagens de situações normais”, explica Anderson.

O funcionamento do OSDFD pode ser comparado ao trabalho de um perito em documentos. Ao examinar exemplares autênticos e falsificações conhecidas, ele aprende os padrões que os distinguem. Com esse conhecimento, ele identifica sinais de fraude mesmo quando se depara com uma falsificação produzida por uma técnica inédita.

O desafio não é apenas identificar falsificações, mas compreender o que caracteriza uma imagem natural. “O problema é que, historicamente, é mais fácil treinar um modelo para separar uma classe de outra do que ensiná-lo o que é normal. Tanto para humanos quanto para máquinas, é mais simples separar gato de cachorro do que gato de tudo quanto é coisa restante no mundo”, diz Rocha.

Continua após a publicidade

Esse detector busca superar limitações de seus antecessores. Ele requer ajustes em pequenos módulos do sistema, o que permite atualizações rápidas e contínuas e facilita a adaptação para novos cenários. Por isso, ele tem um consumo de memória e de processamento menores, além de manter bom desempenho mesmo em imagens comprimidas ou de baixa qualidade.

A lógica do sistema lembra uma literatura famosa. “Leo Tolstoy, em sua obra Anna Karenina escreveu: ´Todas as famílias felizes se parecem. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira´. Em biometria, dizemos que imagens naturais se parecem, pois vêm de um processo físico de transformar a luz em informação, pixels. Já as imagens geradas por IA, cada uma é gerada de uma forma, por um gerador, com características específicas daquele gerador”, completa Anderson. 

A novidade publicada no periódico TCSVT está em fase experimental, mas tem potencial para ser implementada fora do laboratório. Os resultados indicam que a abordagem pode funcionar em contextos que exigem a identificação rápida de deepfakes, como plataformas digitais, ferramentas de checagem de conteúdo, sistemas de autenticação facial e soluções de forense digital. 

Continua após a publicidade

A disputa entre geradores e detectores de deepfake é uma corrida. Cada nova técnica de manipulação cria desafios para os sistemas de verificação. A aposta dos pesquisadores com o OSDFD é que a perseguição deixe de seguir cada fraude individualmente e fique mais eficaz ao compreender o que torna uma imagem genuína.

Juliana Vicentini tem Pós-doutorado em Comunicação (USP) e é Especialista em Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp).

Material produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil (Processo nº 2025/26523-7), vinculado ao Projeto Horus do Recod.ai (Processo nº 23/12865-8).

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner laranja com ícone de árvore e raio, texto OFERTA RELÂMPAGO Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas Superinteressante e Veja, e um celular com aplicativo de notíciasBanner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em destaque, acompanhado de um ícone de raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: Super, Veja e uma menor, Guia Quatro Rodas. No canto superior direito, um ícone de árvore estilizada
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Premium

Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 2,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 63% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$2,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).