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Apple: os primeiros 50 anos

A origem hacker. A explosão nos anos 1970. A guerra contra IBM e Microsoft. O declínio, o exílio – e a volta triunfal – de Steve Jobs. Os bastidores da criação do iPod e do iPhone. As mudanças na era Tim Cook. Passado, presente e futuro da empresa de tecnologia mais influente do mundo.

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 abr 2026, 10h00 | Atualizado em 20 abr 2026, 19h35
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“O Steve saiu da sala, veio e me abraçou – chorando, chorando, chorando. Ele estava destruído”, conta Del Yocam, então executivo da Apple Computer. O dia era 10 de abril de 1985, e Steve Jobs estava, na prática, sendo expulso da empresa que fundara nove anos antes. O Macintosh, lançado em 1984, era revolucionário. Mas não estava vendendo, o que mergulhou Jobs numa forte depressão. “Eu nunca tinha visto o Steve daquele jeito. Ele havia perdido a confiança”, diz Bob Belleville, diretor de engenharia da Apple na época.

Esses são dois dos relatos presentes no livro Apple: The First 50 Years (“Apple: os primeiros 50 anos”, ainda sem versão em português), lançado em março pelo jornalista David Pogue, ex-colunista do New York Times. A obra contém depoimentos de mais de 150 pessoas que trabalham ou trabalharam na Apple – e traz revelações históricas sobre os momentos mais dramáticos da empresa.

Hoje, ao completar 50 anos, ela é a segunda companhia mais valiosa do mundo: suas ações somam US$ 3,8 trilhões. Vende 243 milhões de iPhones por ano, que se somam aos 2,2 bilhões de dispositivos da marca em uso no mundo. É um titã, que aniquilou e recriou indústrias inteiras – e, ao inventar o smartphone moderno, redesenhou a sociedade.

Mas, naquele fatídico 10 de abril, a Apple não poderia estar mais longe disso. Acabara de registrar seu primeiro prejuízo, logo anunciaria a demissão de 1.200 pessoas (20% de toda a força de trabalho) e o fechamento de três fábricas. Seu CEO era o executivo John Sculley, que Steve Jobs trouxera da Pepsi em 1983 (“Você quer passar o resto da vida vendendo água com açúcar, ou quer uma chance de mudar o mundo?”, questionara o fundador da Apple).

Os dois começaram a se estranhar conforme a crise interna piorava, e viraram inimigos. Jobs queria cortar investimentos no Apple II, computador já bem antigo (estava no mercado desde 1977), mas ainda principal fonte de renda da empresa, e reforçar o marketing do Mac. Sculley discordava, e chamou uma reunião com o Conselho da empresa, formado por sete executivos, para resolver o impasse.

Eles votaram, e Jobs levou a pior: perdeu todo o poder, os projetos e os subordinados e foi transferido para um prédio isolado, que apelidou de Sibéria. “Eu chegava lá, tinha um ou dois telefonemas para fazer, um pouco de correspondência para olhar, e voltava pra casa três ou quatro horas depois. Fiz isso algumas vezes e vi que não era mentalmente saudável. Então simplesmente parei de ir”, contaria muito tempo depois.

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Jobs deixou a empresa em setembro. E isso desencadeou uma sequência de eventos que, uma década mais tarde, colocaria a Apple muito perto da falência. Em 1995, sangrando dinheiro e enterrada em dívidas, ela chegou ao limite: só tinha grana para sobreviver por mais 45 dias. Foi colocada à venda e oferecida às rivais IBM, HP e Compaq, bem como Sony, Toshiba e Philips. Ninguém quis. A Apple acabaria salva pelo próprio Jobs, e se tornaria uma força tecnológica e cultural sem precedentes. Mas, no início de tudo, a ideia era só telefonar sem pagar.

Imagem de um Gadget Blue Box construído por Steve Jobs e Steve Wozniak para telefona rde graça.
Gadget construído por Steve Jobs e Steve Wozniak para telefonar de graça. (Wikimedia Commons/Reprodução)

A caixa mágica
Aos 13 anos, Steve Jobs mudou de escola. Não aguentava mais o bullying na anterior, onde sofria por ser mais novo (pulara a quinta série) e não muito atlético. Seus pais adotivos, a dona de casa Clara e o carpinteiro e mecânico Paul Jobs, conseguiram matriculá-lo na Homestead High School em Cupertino, cidade de 60 mil habitantes onde a família morava, a uma hora de São Francisco. Com o tempo, Cupertino se tornaria um dos eixos do Vale do Silício.

Naquela época ainda não era assim, mas o processo já estava em curso. Jobs passou a frequentar o Explorers Club, um encontro semanal organizado pela Hewlett-Packard (HP) para alunos do ensino médio, e começou a brincar de montar circuitos eletrônicos. Um dia pegou o telefone e ligou direto para Bill Hewlett, CEO da HP, para pedir componentes; conseguiu, além deles, um emprego na fábrica da empresa durante as férias escolares.

Em 1971, quando Jobs tinha 16 anos, um amigo o apresentou a outro Steve: Wozniak, rapaz cinco anos mais velho com fama de gênio da eletrônica. E os dois, que além de tecnologia adoravam Bob Dylan, se tornaram inseparáveis. Numa noite, tiveram a ideia de montar algo conhecido na época como blue box (“caixa azul”): um gadget que permitia hackear a linha telefônica e fazer chamadas de longa distância sem pagar (ele simulava os tons sonoros que controlavam as redes de telefonia da época).

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Woz saiu usando o aparelho para fazer ligações internacionais (em especial os serviços de disque-piada, que adorava), mas Jobs teve outra ideia: eles podiam comercializar aquilo. Os dois fizeram e venderam cerca de 100 caixinhas – que, na versão deles, eram pretas [veja imagem acima].

A empreitada terminou quando, alguns meses depois, Jobs foi fazer faculdade em Portland. Deixou o cabelo crescer, vestia roupas esfarrapadas e não usava desodorante. Era um hippie. Só via as aulas que o interessavam, não gostou de nenhuma (com exceção de caligrafia), e acabou largando a faculdade.

Voltou para casa, na Califórnia, e arrumou emprego numa empresa de games: a Atari. Ficou pouco, e resolveu fazer um retiro espiritual na Índia em 1974. A viagem não saiu como esperado (o guru que ele queria encontrar já tinha morrido), mas teve um forte efeito sobre Jobs – que, nessa época, também tomou LSD algumas vezes. Woz, mais careta, arrumou um emprego na HP, projetando calculadoras científicas.

Em 1975, a empresa americana MITS lançou o Altair 8800, o primeiro computador “pessoal”. Custava US$ 400 (US$ 2.400 atuais) e vinha desmontado: você mesmo soldava as peças na placa-mãe. Nada simples. Mas era a primeira máquina que dava para ter em casa ou num pequeno negócio (até então só existiam computadores de grande porte, em empresas e universidades).

O Altair era menor e mais acessível porque, em vez de vários processadores, usava uma única CPU: o chip 8080, produzido por uma empresa relativamente nova chamada Intel – e vendido separadamente por US$ 300.

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Imagem, em fundo branco, do Apple I (1976), primeiro produto da Apple.
Apple I (1976), primeiro produto da empresa. Repare no toca-fitas à direita (os softwares vinham gravados em cassete). (AAPL Collection/Reprodução)

Ainda era muita grana para Woz. Então ele resolveu criar seu próprio computador. Descolou uma CPU bem mais barata (a MOS 6502, de US$ 25), pegou alguns componentes na HP e ficou seis meses desenhando a placa-mãe. Quando terminou, em novembro de 1975, Jobs sugeriu que transformassem aquilo num produto. Woz hesitou, mas acabou topando.

O negócio precisava de um nome. Os dois cogitaram opções como Executex, Matrix e Personal Computers Inc. Até que em março de 1976, após visitar uma fazenda nos arredores de Portland, Jobs voltou dizendo: “Eu tenho um ótimo nome: Apple Computer!” Era uma referência ao físico Isaac Newton, que concebeu a lei da gravitação universal, em 1666, observando uma maçã cair da árvore. O computador, assim como a maçã, seria um meio para grandes descobertas. Newton aparece, inclusive, no primeiro logotipo da Apple [veja acima].

Esse logo foi desenhado por Ron Wayne – um ex-funcionário da Atari que, junto com Jobs e Wozniak, fundou a Apple Computer em primeiro de abril de 1976. Wayne ficou pouquíssimo tempo. Achava que o negócio não daria certo e teve medo de se endividar. Duas semanas depois, cedeu sua participação, de 10% da empresa, aos outros dois fundadores, por US$ 2.400 (se tivesse ficado e mantido as ações, hoje teria incríveis US$ 380 bilhões).

Jobs conseguiu convencer fornecedores de peças a vender fiado, e começou a fabricar na própria casa, junto com Woz, o computador Apple I. Era mais amigável do que os outros modelos da época, porque já vinha parcialmente montado. Apesar disso, não foi longe: a máquina, que custava US$ 600 (US$ 3.400 atuais), vendeu apenas 175 unidades. Mas Wozniak tinha uma carta na manga.

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Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos e logotipos da Apple. No alto, vê-se uma foto de Steve Jobs e Steve Wozniak.
1. Primeiro logotipo da Apple, com o físico Isaac Newton e uma maçã caindo da árvore. 2. O segundo logo da empresa, adotado a partir de 1977. As faixas representam as seis cores geradas pelo Apple II. 3. O Apple II, que foi lançado em 1977 e se tornou o computador mais vendido da História até então. 4. Steve Jobs e Steve Wozniak na apresentação do Apple II, em 1977. 5. Lisa (1983), o primeiro Apple com mouse e interface gráfica – que Jobs havia visto na Xerox. 6. A interface gráfica era algo tão novo que a Apple publicou anúncios, em revistas da época, ensinando o público a usá-la. (Tom Munnecke e SSPL/Getty Images; Wikimedia Commons; Steve Jobs Archive./Montagem sobre reprodução)

 

O advento da cor
Graças a Woz e sua engenhosidade técnica, o Apple II usava metade dos chips presentes no Apple I. Era o primeiro computador a vir 100% pronto para uso (bastava ligar na tomada), e o primeiro a ter alguma preocupação com design: o gabinete era de plástico, que Steve Jobs considerava mais amigável que o metal usado nas outras máquinas. Mas seu aspecto mais genial estava nos circuitos de vídeo.

O Apple II usava um chip gráfico preto e branco, mas exibia caracteres coloridos na tela – foi o primeiro computador pessoal a fazer isso. Woz percebeu que, se manipulasse o ritmo dos sinais enviados para a tela, o Apple II conseguia produzir seis cores, mesmo com o chip preto e branco.

Uma sacada incrível, que entraria para a história e para o logotipo da Apple – em 1977, ele deixou de ser a gravura de Newton e passou a ser uma maçã, com os seis tons e um pedacinho mordido. Há quem diga que simboliza o pecado original, no qual Adão e Eva degustam uma maçã.

O designer Rob Janoff, criador do logo, confirma em parte essa interpretação. “Metaforicamente, a mordida indica todo o conhecimento que os usuários obteriam com o computador”, afirma no livro Apple: The First 50 Years. Mas também houve outro motivo, mais prosaico. Segundo Janoff, era um jeito de fazer a imagem realmente parecer uma maçã, não uma cereja ou outra fruta.

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Jobs queria que o Apple II fosse o mais simples possível, com apenas dois slots de expansão, para ligar uma impressora e um modem. Woz queria oito slots, e acabou prevalecendo. Mas o assunto causou a primeira briga feia entre os dois. Segundo o engenheiro e investidor Mike Markkula, que se juntou aos dois Steves no projeto do Apple II, Jobs estava se tornando “crescentemente tirânico”.

Por isso, e para ter alguém mais experiente no comando, Markkula propôs trazer um executivo de fora para ser o primeiro CEO da empresa. O escolhido foi Mike Scott, 31 anos, vindo da fabricante de chips National Semiconductor.

Jobs logo começou a se estranhar com o novo “chefe”. Ele queria, por exemplo, que o Apple II fosse cromado por dentro, para ficar mais bonito – o tipo de coisa que Scott, pragmático, não apreciava. “Um bom marceneiro não vai usar madeira ruim na parte de trás de um móvel, mesmo que as pessoas não vejam”, Jobs costumava dizer.

O Apple II acabou não tendo a pintura interna, mas tudo bem: a máquina, apresentada em abril de 1977 (custava US$ 1.300, ou US$ 7 mil atuais), foi um megassucesso. Logo se tornou o computador mais vendido da História até aquele momento – era o primeiro que pessoas físicas, escolas e pequenas empresas podiam e queriam ter. O Apple II inaugurou para valer a era do computador pessoal, e deu origem a uma constelação de software houses: empresas criadas com o objetivo de desenvolver programas para a máquina.

Tudo isso atraiu a atenção da Apple Corps, a gravadora dos Beatles, que em 1978 processou a Apple Computer pelo uso do nome. As duas acabaram fazendo um acordo (que seria revalidado em 1991, e novamente em 2007).

Em pouco tempo, a Apple já tinha cinco fábricas, e subia como um foguete – em 1980, seu faturamento disparou para US$ 118 milhões (US$ 467 milhões atuais), e ela abriu o capital na bolsa. Todas as ações oferecidas foram vendidas em poucos minutos, dando à Apple o valor de mercado de US$ 1,8 bilhão (US$ 7,1 bilhões de hoje). Foi a abertura de capital mais bem-sucedida desde a realizada pela Ford, em 1956.

Então ela lançou sua próxima cartada: o Apple III. Tinha um chip mais potente, que gerava mais calor. Mas Steve Jobs proibiu que a máquina tivesse um cooler (ventilador interno), cujo ruído detestava. “A gente acendia um incenso, colocava na placa-mãe, e ficava olhando”, conta no livro o projetista Jerry Manock. O objetivo era entender o fluxo de calor dentro da máquina.

Mas assim que ela chegou ao mercado, em novembro de 1980, o problema ficou evidente: o Apple III superaquecia e travava. A empresa rapidamente redesenhou o computador e trocou gratuitamente todas as unidades já vendidas, mas o estrago estava feito. O modelo ganhou má fama, e flopou.

Foi o primeiro grande revés da Apple. E logo haveria algo bem pior.

 

 

 

Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos da Apple, cenas de propaganda e de Bill Gates.
1. Bandeira pirata feita pela equipe que criou o Macintosh – e se considerava renegada dentro da Apple. 2. O primeiro Macintosh, de 1984. O nome veio de uma variedade de maçã. 3. Cenas do vídeo de apresentação do Mac, em 1984 – inspirado no romance “1984”, de George Orwell. 4. O NeXT Computer, criado por Steve Jobs durante seu exílio da Apple. 5. Bill Gates em 1985, ano de nascimento do Windows – que levou a interface gráfica aos PCs. (Apic e Deborah Feingold/Corbis/Getty Images; Susan Kare; NeXT./Montagem sobre reprodução)

 

O Grande Irmão
Em 1981, a IBM tinha 350 mil funcionários e faturamento anual de US$ 29 bilhões (US$ 104 bilhões atuais). Um colosso jamais visto, com 150 vezes o tamanho da Apple. A “Big Blue”, como era conhecida, desprezou a ascensão do Apple II. Mas finalmente mudara de ideia. Em 12 de agosto de 1981, revelou ao mundo o IBM Personal Computer, ou PC.

A máquina, que rodava o sistema operacional MS-DOS (feito por uma empresa chamada Microsoft), era bem mais potente que o Apple II. E, acima de tudo, tinha credibilidade: o mercado confiava cegamente na IBM.

Para acelerar o desenvolvimento da máquina, a IBM adotou padrões técnicos e peças livremente disponíveis no mercado. Graças a isso, logo começaram a surgir os “clones”: PCs montados por outros fabricantes, bem mais baratos e 100% compatíveis com a máquina da Big Blue. Essa combinação de fatores impulsionou o PC, que logo começou a dominar o mundo – e tomar o espaço da Apple.

Mas ela tinha uma arma secreta. Em 1979, Steve Jobs havia visitado o Palo Alto Research Center (PARC), laboratório de pesquisas da norte–americana Xerox, onde viu algo incrível: um computador com interface gráfica, ou seja, com mouse, ícones, arquivos, janelas e coisas clicáveis. Era um salto enorme em relação às máquinas da época (nas quais tudo era feito digitando comandos escritos), e o primeiro computador realmente fácil de usar.

Só que a Xerox estava mais preocupada com seu negócio de copiadoras, e não deu muita bola para a própria criação. Quando o Xerox Alto finalmente foi lançado, em 1981, era tão revolucionário quanto inacessível: custava US$ 16 mil (US$ 60 mil atuais). Não vendeu nada.

Mas Jobs enxergou o potencial daquilo. Montou uma grande equipe, incluindo 16 cientistas trazidos do PARC, para desenvolver um Apple com interface gráfica. Foi um trabalho exaustivo, que incluiu a criação de 150 protótipos do mouse, e levou quatro anos. A máquina foi batizada de Lisa – sigla para “arquitetura de software local integrada”, em inglês. Era também o nome da primeira filha de Steve Jobs, nascida em 1978.

O Apple Lisa chegou ao mercado em janeiro de 1983, e não fez sucesso. Era muito avançado, mas lento, e custava US$ 10 mil (US$ 32 mil atuais). Teve um desenvolvimento conturbado – tanto que, em setembro de 1980, Jobs fora afastado do projeto.

Mas ele descobriu que uma pequena equipe da Apple estava desenvolvendo outro computador com interface gráfica, e assumiu o comando da empreitada em janeiro de 1981. Ele fomentou a rivalidade entre o Lisa e esse outro projeto, cujos membros se consideravam renegados – chegaram a fazer uma bandeira pirata com o símbolo da Apple. “É melhor ser um pirata do que se alistar na Marinha”, disse Jobs na época.

A nova máquina, batizada de Macintosh (nome de uma variedade de maçã), prometia ser o que o Lisa não conseguira: um computador com interface gráfica e preço acessível. A Apple contratou o cineasta inglês Ridley Scott, de Alien (1979) e Blade Runner (1982), para fazer o comercial de lançamento, que seria exibido no intervalo do Super Bowl em 22 de janeiro de 1984. Na propaganda, inspirada no romance 1984, de George Orwell, a IBM é retratada como o Grande Irmão, uma força totalitária e má, e o Mac representa a salvação.

Jobs amou. Mas o CEO da Apple, John Sculley, detestou – tanto que tentou devolver o espaço publicitário comprado no Super Bowl. Não conseguiu, e o anúncio foi ao ar. Teve um impacto fortíssimo e ganhou 35 prêmios de publicidade, inclusive o Grand Prix (honraria máxima, acima do Leão de Ouro) em Cannes. A tradição de fazer comerciais megaproduzidos para o Super Bowl nasceu ali, pelas mãos da Apple.

O Mac teve um lançamento estrondoso, com filas nas lojas, e o faturamento da Apple subiu 50% em 1984. Mas aí, em 1985, a euforia cessou – e as vendas despencaram. Quem queria e podia comprar um Mac (que custava US$ 7.700 atuais) já fizera isso. As pessoas comuns foram percebendo que os computadores da época não eram lá tão úteis quanto se dizia. E as empresas preferiam PCs, que agora também tinham interface gráfica – graças ao Windows, lançado pela Microsoft em 1985. A Apple processou a rival, alegando plágio (o processo terminaria em 1994, com vitória da Microsoft).

Descontente com os rumos da empresa, Steve Wozniak foi embora em fevereiro daquele ano. Dedicou-se a projetos diversos (em 1987, criou o primeiro controle remoto programável). Jobs foi exilado (no episódio narrado no início deste texto), vendeu suas ações da Apple e também saiu pouco depois.

Comprou a Pixar, empresa de computação gráfica nascida da Lucasfilm, e fundou a NeXT, na qual passou três anos desenvolvendo um novo produto. O NeXT Computer, lançado em outubro de 1988, era um cubo preto feito de magnésio que parecia vindo do futuro. Custava muito caro (US$ 17 mil atuais), e não foi longe. Mas tinha um trunfo – que se revelaria crucial algum tempo depois.

Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos da Apple, um outdoor e uma linha de produção de iMacs.
1. Computador de mão Apple Newton MessagePad 100, lançado em 1993. 2. Câmera digital QuickTake, lançada pela Apple em 1994. 3. Pippin (1996), console de games criado pela Apple e fabricado pela japonesa Bandai. 4. Apresentação conjunta de Steve Jobs e Bill Gates, em 1997. 5. Outdoor da campanha “Pense diferente”, de 1997, que marcou a volta de Jobs à Apple. 6. Visão interna do PowerMac G4 Cube (2000). 7. Linha de montagem do primeiro iMac – cujo sucesso salvou a Apple. (Brooks Kraft LLC/Sygma e Gilles Mingasson/Liaison/Getty Images; Apple; Wikimedia Commons./Montagem sobre reprodução)

 

Nos anos seguintes, a Apple foi perdendo mercado e relevância. Tentou reagir em 1993 ao lançar o Newton, o primeiro palmtop (computador de mão). Mas ele tinha um problema: sua grande inovação, o sistema de reconhecimento de escrita, errava muito – a ponto de virar piada no desenho The Simpsons.

A Apple acabou conseguindo corrigir o problema (e os computadores de mão fariam sucesso mais tarde, com o surgimento da empresa americana Palm), mas o Newton fracassou. Em abril de 1996 ela criou um console de games, o Pippin, baseado na tecnologia do Mac. Foi fabricado e vendido pela empresa japonesa Bandai – e, adivinhe, também não deu certo.

Nos computadores, o PC já detinha 92% do mercado e ameaçava tomar o resto. Os Macs envelheciam com um sistema operacional obsoleto, que ainda derivava da primeira versão, de 1984. A Apple gastou US$ 500 milhões para desenvolver um novo, mas o projeto não andava. A única saída seria comprar um sistema operacional.

Ela conversou com a Microsoft sobre a possibilidade de usar o Windows NT como base para o sistema do Mac, mas a ideia não avançou. Pensou em comprar o BeOS, desenvolvido por Jean–Louis Gassée, ex-executivo da Apple – mas o francês exigiu 15% das ações da empresa, que não topou. Sobrou o sistema operacional NeXTStep, que Steve Jobs criara para o computador NeXT.

Assim foi. Em janeiro de 1997, a Apple comprou a NeXT por US$ 378 milhões (US$ 800 milhões atuais). Com ela veio o software e, após 11 anos de exílio, Steve Jobs – inicialmente, no cargo de “consultor”. Em agosto, ele comandou sua primeira apresentação, na qual anunciou um acordo com a Microsoft, que iria investir US$ 150 milhões na Apple e fornecer versões do navegador Internet Explorer e do pacote Office (sem os quais o Mac estaria morto). Foi vaiado pela plateia.

Jobs trouxe de volta Phil Schiller, um gênio do marketing que havia deixado a empresa, e começou a reestruturá-la. Afastou dois terços do Conselho, proibiu PowerPoint nas reuniões, reduziu drasticamente as linhas de produto da Apple – que caíram de 15 para 4. Acabou até com o Newton, o que levou dezenas de fãs do gadget a fazer um protesto na porta da empresa (Jobs mandou entregar café e donuts para os manifestantes, e dizer que a Apple sentia muito).

“Eu tive que atravessar um piquete para entrar no prédio – eles seguravam cartazes, gritando”, conta no livro Tim Cook, que estava em seu primeiro dia de trabalho na Apple (ele havia sido trazido da gigante de PCs Compaq, onde era vice-presidente, para assumir o cargo de diretor global de operações da maçã).

Jobs chamou os publicitários que haviam feito o anúncio de lançamento do Mac, em 1984. Eles criaram uma campanha para sinalizar o renascimento da Apple: Think different (“Pense diferente”), com imagens de Einstein, Gandhi, JFK, Muhammad Ali, Bob Dylan e John Lennon, entre outros ídolos de Jobs – que chorou, desta vez de emoção, ao ouvir a ideia.

Mas o primeiro ano do seu novo reinado foi tétrico. A Apple teve que demitir 4 mil pessoas, e mesmo assim fechou 1997 com um prejuízo bilionário. Jobs se matava de trabalhar, 14 horas por dia, e teve pedras nos rins. Em setembro de 1997, foi ao escritório de um tal Jony Ive, então vice-presidente de design da Apple, com a intenção de demiti-lo.

Mas os dois se deram muito bem – e, juntos, começaram a desenhar um computador. Jobs queria que o nome fosse MacMan, mas acabou sendo convencido a aceitar iMac. Foi um estouro. O iMac era colorido, bonito e amigável, diferente dos PCs bege e intimidadores da época. Vendeu 2 milhões de unidades só no primeiro ano, 1998, e salvou a Apple.

Imagem, em fundo cinza, do iPod produzido pela Apple.
À esquerda, modelo de espuma feito para mostrar a Steve Jobs o conceito do iPod, ao lado da primeira versão do aparelho, de 2001. À direita, protótipo do iPod (caixa bege), com o aparelho final colocado por cima para comparação. (Tony Faddell; Apple; Wikimedia Commons; Ken Kocienda./Montagem sobre reprodução)

Ela continuava tendo uma fatia pequena, de 5%, do mercado de computadores. A saída era buscar novos setores – como o dos toca-MP3, novidade na época. Eles tinham pouca memória, e o iPod também iria ser assim (a Apple pretendia usar o IBM Microdrive, um componente de 340 MB, suficiente para 70 músicas). Mas um golpe de sorte mudou tudo.

Duas pessoas da Apple estavam visitando a Toshiba, no Japão. “No fim da reunião, eles [os japoneses] disseram: nós temos uma coisa, e não sabemos o que fazer com ela”, diz no livro o executivo Jon Rubinstein. Era um disco rígido do tamanho de um baralho, com a incrível capacidade de 5 GB. Virou o coração do iPod – que, graças a isso, comportava 1.000 músicas.

Com o lançamento do primeiro iPod, em 2001 (e da versão compatível com o Windows, em 2002), a Apple mudou de patamar. Ao longo dos anos, vendeu 450 milhões de iPods, que se tornaram o gadget mais popular do mundo. Ela não era mais um ator coadjuvante no mercado de computadores; agora dominava uma indústria inteira, a da música.

As pessoas alimentavam seus iPods “ripando” CDs ou baixando arquivos piratas. Jobs queria oferecer uma opção melhor, mas as grandes gravadoras resistiam. “Elas mandavam a gente ir se catar”, conta o executivo Eddy Cue. Em 2003, com a pirataria já arrasando a indústria, finalmente cederam – e nasceu a iTunes Music Store, que permitia baixar músicas a US$ 1 cada. Controlaria o mercado por uma década, rendendo dezenas de bilhões de dólares à Apple.

E esses bilhões virariam trilhões.

Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos da Apple.
1. iMac de segunda geração (2002). 2. Girassol, que inspirou o design do iMac. 3. Primeiro tocador Apple TV, de 2007. 4. Primeiro Mac mini, lançado em 2005. 5. Protótipo do iPhone, que só funcionava conectado a um Mac. 6. Primeiros estudos para o teclado do iPhone. Cada tecla reunia três letras, como na era pré-smartphones. (Tony Faddell; Apple; Wikimedia Commons; Ken Kocienda./Montagem sobre reprodução)

 

Insanely great
Ao revelar o Macintosh, em 1984, Steve Jobs usou várias vezes a expressão insanely great (algo como “insanamente bom”). Mas o termo se aplica melhor a outra criação da empresa. O iPhone realmente reescreveu a História, da Apple e da humanidade – o mundo moderno, com diversos aspectos da vida mediados por apps, só existe graças a ele.

Sua apresentação, em 9 de janeiro de 2007, foi tensa. Jobs ensaiou a demo cinco vezes, e o aparelho deu problema em todas. Os engenheiros da Apple ficaram apavorados com a possibilidade de o iPhone travar diante da plateia de 4 mil pessoas. Acabou dando tudo certo, com um porém: no dia seguinte, ao tirar o aparelho do bolso, Jobs viu que a tela (de plástico) estava arranhada.

Então ele resolveu, ali, que o iPhone deveria ter tela de vidro. A Apple já cogitara isso, mas desistira, porque o vidro quebrava muito fácil. Jobs ligou para o CEO da Corning, multinacional de vidros, pedindo ajuda. Ela até tinha um vidro que serviria (o Chemcor, usado em para-brisas de carros de corrida), mas ele não era mais fabricado.

Não daria tempo de construir uma nova fábrica em tempo para o lançamento do iPhone, em junho. Jobs convenceu a Corning a improvisar, adaptando uma linha de produção existente – e o iPhone chegou ao mercado já com tela de vidro.

Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos da Apple, fotos de Steve Jobs e Tim Cook.
1. Steve Jobs apresenta o iPhone, em 9 de janeiro de 2007. 2. Primeiro iMac de alumínio, de 2007. O design seria mantido, com pequenos ajustes, por 14 anos. 3. Primeira versão do iPad (2010). 4. Primeiro MacBook Air, com apenas 1,9 cm de espessura. 5. Jobs mostra um envelope contendo o MacBook Air (2008). 6. Tim Cook em 2011, ano em que assumiu o cargo de CEO da Apple. (David Paul Morris, Daniel Acker/Bloomberg, Neil Godwin/MacFormat Magazine, Paul Chinn/The San Francisco Chronicle e Chris Hondros/Getty Images; Wikimedia Commons./Montagem sobre reprodução)

 

Ele gerou uma expectativa absurda: só nos EUA, a imprensa publicou 11 mil textos sobre o aparelho, que alguns apelidaram de Jesus phone. Mas, no começo, o iPhone não vendeu como esperado – tanto que, três meses após o lançamento, a Apple reduziu o preço da versão de 8 GB, de US$ 599 para US$ 399.

O iPhone vinha com 16 aplicativos, e não havia como instalar mais. Jobs não queria apps de terceiros no aparelho. Mas os usuários descobriram como fazer isso de maneira não oficial, destravando o iPhone, e Steve acabou cedendo. Em março de 2008, entrou no ar a App Store, com 500 aplicativos – que, só nos primeiros três dias, foram baixados 10 milhões de vezes. Hoje, a loja da Apple movimenta US$ 1,3 trilhão por ano (mais da metade do PIB brasileiro).

Nos anos seguintes ao lançamento, o iPhone ganhou um rival, o Android. Steve Jobs ficou furioso, e processou a Samsung por plágio (mas não o Google, dono do Android, que até hoje paga à Apple bilhões de dólares por ano pelo direito de ser o buscador padrão do navegador Safari). As duas empresas acabaram fazendo um acordo em 2018.

E o iPhone, mesmo tendo de lutar contra uma armada de smartphones Android, não foi empurrado para uma posição pequena, como ocorrera com o Mac nos anos 1980. A Apple mantém 20% do mercado global de smartphones (nos EUA, 60%).

Ao apresentar o iPhone, Jobs já lutava contra um câncer de pâncreas, descoberto durante exames de rotina em 2002. Ele passou um ano tentando curas alternativas, como dieta e acupuntura. Em 2004, aceitou se submeter a cirurgia e quimioterapia. Em janeiro de 2010, ao apresentar o iPad, Jobs tinha passado por um transplante de fígado, e já estava bem magro. Seu último projeto foi o Apple Park, a nova sede da empresa em Cupertino, inaugurada em abril de 2017.

Imagem, em fundo cinza, com um mosaico de produtos da Apple.
1. Primeiro modelo de AirPods (2016). 2. Apple Park, a sede da empresa em Cupertino, inaugurada em 2017. 3. Nova geração do iMac, com chips Apple Silicon, iniciada em 2021. 4. O headset Vision Pro (2023), de realidade virtual e aumentada. 5. O MacBook Neo (2026), de US$ 600, que deve tomar espaço dos laptops Windows. 6. Última versão do iPhone. A Apple vendeu 3 bilhões de unidades do aparelho desde 2007. (Apple; Wikimedia Commons./Montagem sobre reprodução)

 

Não viveria para vê-la pronta. Steve Jobs morreu em 5 de outubro de 2011, aos 56 anos. Numa das últimas conversas com Tim Cook, ele citou o caso da Disney, que ficou paralisada após a morte de seu fundador, em 1966. “Não quero que você se pergunte o que eu faria. Simplesmente faça o que é certo”, disse.

A empresa lançou produtos de sucesso na era pós-Jobs, como o Apple Watch (2015), os AirPods (2016) e o localizador AirTag (2021). Tornou-se autossuficiente em CPUs, criando a linha Apple Silicon, e cresceu muito em serviços: Apple Music, Apple News, Apple Arcade, Apple TV e Apple Pay geram mais de US$ 100 bilhões por ano somados (são o segundo maior negócio da Apple, só atrás do iPhone). Desde 2011, quando Tim Cook assumiu o comando, até hoje, o valor de mercado da Apple se multiplicou por dez.

O Vision Pro, apresentado em 2023, foi um enorme salto tecnológico – mas o preço, US$ 3.499, e a escassez de conteúdo criado para ele impediram seu sucesso comercial. O sigiloso Project Titan, no qual a Apple teria criado um carro autônomo, foi encerrado em 2024, após dez anos de tentativas. E ela está atrás das outras big techs em inteligência artificial. Em 2024, anunciou a plataforma Apple Intelligence, com um conjunto de recursos para o Mac e o iPhone, mas até hoje não conseguiu entregar as funções mais avançadas.

Em janeiro deste ano, a maçã fez um acordo com o Google, cuja tecnologia de IA usará como base para a Apple Intelligence. Em março, lançou o MacBook Neo, de US$ 599. É quase 50% mais barato do que os outros MacBooks, e pode ampliar radicalmente a fatia de mercado da Apple. Especula-se que ela esteja desenvolvendo óculos de realidade aumentada, cujas lentes projetam informações sobre o que você está vendo.

Ao pedir ajuda ao Google, a Apple agiu com humildade – a mesma que teve, em 1997, ao trazer Steve Jobs de volta e assinar a paz com a Microsoft. Por outro lado, sua entrada no mercado de laptops baratos pode reacender a guerra entre Mac e PC, reeditando a maior disputa dos anos 1980. Os óculos de realidade aumentada podem ser tão transformadores quanto o iPhone, ou mais.

Há várias pontes entre o passado e o futuro da Apple. Por elas será escrita a história dos próximos 50 anos.

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Atualização 20/4: Tim Cook anunciou que deixará o cargo de CEO da Apple em setembro, passando a ser chairman do Conselho da empresa. O novo CEO será John Ternus, atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware.

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