O único estado dos EUA onde a poligamia não é crime
Em Utah, manter um casamento com mais de duas pessoas é uma infração tão grave quanto uma multa por excesso de velocidade. Entenda por quê.
Em 2019, um levantamento do Pew Research Center estimou que 2% da população mundial vive em casamentos poligâmicos (ou seja, com mais de duas pessoas). 58 países permitem a prática, que é mais comum na África Subsaariana, onde 11% das pessoas são poligâmicas.
As leis variam. Em alguns países, apenas muçulmanos podem praticar a poliginia (tipo de poligamia em que apenas o marido pode ter mais de uma esposa) – uma passagem do Alcorão diz que homens podem ter até quatro mulheres. Algumas sociedades poligâmicas permitem ainda a poliandria: uma esposa e mais de um marido. Mas esse é um arranjo extremamente raro.
Nos Estados Unidos, a poligamia é crime desde 1882, e a pena pode chegar a cinco anos de prisão. Mas os casos não costumam chegar a nível federal – cada estado possui suas próprias leis e processos judiciais. E foi graças a essa autonomia que, em 2020, o senado de Utah descriminalizou a poligamia. Desde então, a prática é uma infração, no mesmo nível que uma multa por excesso de velocidade.
A decisão não veio do nada, claro. Tem a ver com a história e a composição demográfica do estado.
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Em meados dos anos 1850, mais de 70 mil membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se mudaram para Utah. Você talvez os conheça por outro nome: mórmons, que acreditam que Jesus ressuscitou também nos EUA.
O primeiro líder desse grupo religioso foi Joseph Smith. Mas o missionário e seu grupo de fiéis nunca se deram bem com o governo americano, por uma série de motivos.
O primeiro, claro, foi religioso: mórmons se diziam donos da verdadeira palavra de Jesus, o que incomodava os protestantes. Havia disputas políticas também, já que Smith, um cara bastante carismático, queria ser presidente dos EUA.
Outro fator que despertava a antipatia em relação aos mórmons foi a poligamia. Smith e seu sucessor, Brigham Young, eram simpáticos à ideia e tentaram transformar isso em regra na Igreja. A sociedade americana, formada em grande parte por puritanos, desaprovava esse arranjo. Por conta disso, os mórmons passaram décadas sofrendo preconceito e perseguição.
Em 1844, o grupo religioso decidiu que seria mais seguro reunir seus fiéis em um lugar longe da alçada do governo americano. Optaram por se fixar em Utah, no meio-oeste da América do Norte (e que, naquela época, ainda era um território do México). Em 1847, os primeiros mórmons se mudaram para lá. E a tradição se manteve: hoje, quase metade dos 3,2 milhões de habitantes de Utah é mórmon.
A poligamia não era totalmente aceita entre os mórmons do século 19, diga-se. Tanto que, em 1890, Utah (que aquela altura já estava anexado aos EUA) baniu a prática. Mas a decisão gerou dissidentes entre os fiéis que não queriam abrir mão desse estilo vida. A cisão gerou, inclusive, outros grupos, como a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Nas décadas seguintes, mesmo com a proibição, diversos mórmons mantiveram o que eles chamam de “famílias plurais”. Tudo em segredo, claro. E uma dessas famílias foi decisiva para a descriminalização da poligamia.
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Joe, Vicki, Valerie e Alina Darger são uma família fundamentalista mórmon de Utah. Joe se casou primeiro com Vicki e Alina (que são primas). Valerie, que é irmã gêmea de Vicki, juntou-se depois. Eles têm ao todo 25 filhos e 17 netos.
Os Darger viveram discretamente até o começo dos anos 2000, quando uma das filhas de Joe e Alina morreu com apenas cinco meses de idade. Ela nasceu com um problema no coração. Mas, até que isso fosse descoberto, os Darger foram investigados por maus tratos – uma suspeita que surgiu do fato de serem poligâmicos.
Depois desse episódio, a família decidiu vir a público para tentar mudar a visão da sociedade sobre sua estrutura familiar. Lançaram um livro contando sua história, foram a vários programas de TV e se encontraram com políticos de Utah. O principal argumento deles era de que a poligamia não era exatamente uma garantia de liberdade religiosa, mas sim de algo mais abrangente: liberdade de expressão.
Os Darger se tornaram ativistas da poligamia e inspiraram outras famílias que viviam em arranjos similares. Em 2021, a revista New Yorker produziu um mini-documentário sobre a história deles. Você pode assisti-lo neste link (ative as legendas).
Apesar da mudança legislativa, o debate ainda está longe de acabar. Em Utah, defensores da medida dizem que ela deu liberdade não apenas para famílias como os Darger – mas também para que pessoas possam relatar casos de abuso em casamentos poligâmicos (vários processos dessa natureza rolaram por lá nos últimos anos). Por outro lado, há quem discorde e diga que a descriminalização, na verdade, pode ter dado aos abusadores uma sensação maior de impunidade.







