Mais da metade dos brasileiros que usam IA fala de sentimentos e saúde com os bots
Embora 66% dos brasileiros se preocupem com o uso de dados pessoais por empresas de IA, muitos ainda usam os chatbots como conselheiros ou companhia
Nos últimos três anos, as ferramentas de inteligência artificial generativa invadiram as telas e debates públicos de todo o mundo. Não se sabe exatamente qual a proporção de brasileiros já usa ferramentas de IA rotineiramente.
Muitas do que está ao nosso redor traz a IA embutida de alguma forma – como as ferramentas de reconhecimento facial e os algoritmos de seleção de conteúdo das redes sociais. Em julho de 2025, uma pesquisa realizada pela Fundação Itaú e pelo Datafolha apontava que 93% dos brasileiros utilizava alguma ferramenta com IA no seu cotidiano.
Isso é diferente, entretanto, de usar intencionalmente ferramentas de IA generativa – aquela que gera textos, imagens e vídeos, como o ChatGPT, Claude e Gemini. A última edição da pesquisa TIC Domicílios, que desde 2005 mede o acesso às tecnologias de informação e comunicação em todo o Brasil, aponta que cerca de ⅓ da população brasileira utiliza IA generativa no cotidiano.
Dentre esses, mais da metade usam IA generativa pelo menos uma vez por semana, e 29% declararam usar todos os dias ou quase. Os dados da pesquisa indicam que as preferências de uso variam: quem usa tanto celular quanto computador tende a usar mais a IA generativa, e o uso também cresce de acordo com a escolaridade.
Os dados dos padrões de uso são da nova edição da pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), parte do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
No início, em 2022 e 2023, a IA generativa foi anunciada como uma ferramenta que otimizaria estudos e trabalho. Os dados sobre padrões de uso refletem isso: o uso mais comum (prevalente em 73% dos usuários de IA) é para temas de trabalho ou estudo.
Mas os chatbots logo ganharam outras aplicações mais subjetivas. Segundo a pesquisa, 58% dos brasileiros que usam IA falam sobre preferências e gostos pessoais, como filmes e músicas, e 54% falam diretamente sobre sentimentos e emoções. Esses usos, embora comuns, trazem junto uma porção de preocupações, que vão desde a privacidade até riscos psicossociais graves, que foram discutidos na reportagem de setembro de 2025 da Super, Terapia nos tempos da IA.
A pesquisa mostrou ainda que 52% dos usuários forneceu dados de saúde, como sintomas e exames, e 50% alimentou a conversa com fotos próprias ou de conhecidos.
“Isso mostra como as pessoas estão passando a utilizar a IA generativa de forma muito mais ampla do que apenas aquele email que você revisou antes de enviar – elas estão mandando suas próprias fotos, discutindo seus sintomas, falando com a IA sobre como se sentem. As pessoas estão colocando dados cada vez mais sensíveis e íntimos para essas ferramentas”, afirmou Winston Oyadomari no lançamento da pesquisa. Ele é um dos coordenadores da pesquisa, vinculado ao Cetic.br.
Dados como sintomas ou fotos podem parecer inócuos perto de dados pessoais ainda mais sensíveis, como nome completo, endereço, data de nascimento e CPF. Segundo a nova pesquisa, 37% dos usuários de IA generativa no Brasil compartilham esse tipo de dado em suas “conversas” com chatbots.
É uma situação um pouco paradoxal, já que a maioria (66%) dos usuários declara estar preocupado ou muito preocupado com o uso de dados pessoais pelas empresas responsáveis por essas ferramentas. Esse nível de preocupação é maior entre os que combinam celular e computador (68%) e entre aqueles com nível mais alto de escolaridade (72%) – ou seja, a preocupação aumenta justamente conforme o uso mais frequente.
“Não é porque o indivíduo se preocupa que ele deixa de utilizar”, afirma Oyadomari. Por outro lado, pode ser que o uso intenso das ferramentas acentue a percepção de risco associado ao compartilhamento de informações sensíveis.
“Os resultados mostram a importância de acompanhar não apenas a disseminação dessas ferramentas, mas também os tipos de informação que os usuários compartilham e suas preocupações em relação ao tratamento desses dados”, afirmou, em comunicado, Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.







