É possível prever (e evitar) acidentes como o de Capitólio?
Desabamento de parte de cânion foi considerado uma “tragédia que poderia ter sido evitada”. Entenda como os estudos de risco geológico são feitos e quem é responsável por eles.
No último sábado (8), o desabamento de um grande bloco de pedra sobre lanchas no Lago de Furnas, em Capitólio (MG), deixou ao menos dez mortos e 32 pessoas feridas. A Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) afirmou em comunicado oficial que o acidente que gerou comoção pelo país foi uma “tragédia que poderia ter sido evitada”. Então fica a pergunta: como prever (e evitar) acidentes como o de Capitólio?
O acidente
Primeiro, é importante entender como e por que o desabamento aconteceu. As chuvas intensas que atingiram o estado de Minas Gerais nos últimos dias são apontadas como um dos estopins para o deslizamento de parte do cânion.
O local já é suscetível a tombamentos por conta da presença de um tipo de rocha chamado quartzito. Ela apresenta rachaduras derivadas de processos naturais de desgaste que ocorrem ao longo de milhares de anos.
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Existe um padrão de fraturas verticais e horizontais, e, conforme elas evoluem e se encontram, as rochas ficam mais suscetíveis a qualquer força de externa, como explica Estefânia dos Santos, professora de hidrogeologia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) à Super.
O acidente aconteceu no momento em que uma cabeça d’água (uma forte onda causada por chuva intensa e localizada) atingiu uma cachoeira lateral ao paredão. Segundo a pesquisadora, a vibração causada pelo volume de água – que escoa através das fraturas – facilitou o descolamento do bloco de rocha.
Mapeamento e monitoramento de riscos
Para prevenir que desastres como este aconteçam, é importante que sejam feitos estudos de risco geológico. Segundo o prefeito de Capitólio, as análises de risco estavam em falta na região que é um dos principais pontos turísticos mineiros (recebendo até 30.000 visitantes em feriados).
Estudos de risco geológico são feitos onde eventos naturais oferecem algum risco socioeconômico – ou seja, onde tem gente. Eles são feitos por engenheiros capacitados em identificar áreas de risco. Isso é feito a partir da observação das características de um terreno, de indícios de instabilidade de encostas e da vulnerabilidade de construções, por exemplo.
Não é possível prever quando um desastre desses pode acontecer, mas dá para classificar terrenos de acordo com o risco geológico que apresentam – e aí definir limitações de seu uso e ocupação.
Estefânia diz que o instrumento legal referente ao processo de monitoramento de riscos é a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC), instituída pela Lei nº 12.608/12. A execução da PNPDEC cabe aos estados e municípios, que devem realizar os estudos de risco geológico, além de mapear e fiscalizar as áreas que apresentam perigo – a partir da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros ou de vínculos com empresas.
No caso de Capitólio, por enquanto a discussão sobre a responsabilidade da prevenção e fiscalização continua em aberto. A Defesa Civil Nacional afirmou que monitorar riscos é responsabilidade municipal, e a Marinha vai abrir inquérito para investigar o acidente com as embarcações.
Segundo a SBG, na última década o Brasil foi o quinto país do mundo com maior número de vítimas de desastres naturais (como inundações e desabamentos), com mais de 41 milhões de pessoas afetadas.







