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Por que a síndrome dos ovários policísticos mudou de nome?

Esforço mundial de médicos, cientistas e pacientes renomeou doença para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP)

Por Bela Lobato 12 Maio 2026, 17h25 | Atualizado em 28 Maio 2026, 13h21
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A condição conhecida desde 1935 como SOP, Síndrome dos Ovários Policísticos, acaba de ser renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança de nomenclatura já era discutida há décadas, e a decisão partiu de um coletivo que reuniu 56 organizações representativas de médicos, cientistas e pacientes do mundo todo.

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar da SOMP, mas você certamente conhece alguém que vive com a condição, que acomete uma em cada oito pessoas do sexo feminino no mundo – algo como 170 milhões de mulheres.

A mudança foi publicada na renomada revista científica The Lancet, e anunciada no Congresso Europeu de Endocrinologia nesta terça-feira (12/05). 

Fazer uma mudança assim não é simples: o processo colaborativo levou 14 anos para chegar a uma decisão definitiva. Agora, há um período de transição e adaptação pela frente, e o novo nome deve substituir o antigo definitivamente em 2028.

O nome “ovários policísticos” era inadequado por dois grandes motivos: os tais cistos ovarianos da condição não são propriamente cistos, mas sim folículos antrais; e nem todas as pacientes têm esses “cistos”. 

Assim, o nome gerava confusões entre médicos e pacientes, o que, na prática, dificulta ainda mais os processos de diagnóstico e tratamento da condição. “[O nome antigo, Síndrome dos Ovários Policísticos] é um nome muito incompleto que reduz e que simplifica essa síndrome a alterações ovarianas”, explica Luciana Calazans, médica ginecologista e obstetra e membro da diretoria da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (SOGIMIG).

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A SOMP é causada por um desequilíbrio nos hormônios, os mensageiros químicos do corpo. Os maiores impactos são nos androgênios – testosterona e seus derivados – e na insulina – que controla como o corpo gerencia açúcares, gorduras e proteínas.

“É claro que eu vejo a importância das alterações ovarianas na síndrome. Elas existem, podem dificultar uma gravidez, mas a gente sabe que essa é uma doença baseada em diversos eixos hormonais”, explica Calazans.

Por isso, a SOMP vai bem mais além do território dos ovários. O novo nome – Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina – inclui os efeitos metabólicos e de outros eixos hormonais da doença. 85% das pacientes com SOMP também têm resistência à insulina, por exemplo, o que pode aumentar o risco da diabetes tipo 2. Outros desequilíbrios hormonais elevam o risco cardiovascular das pessoas com SOMP. 

A doença tem muitas apresentações e o quadro varia de pessoa para pessoa. Isso dificulta o diagnóstico e o entendimento – afinal, como explicar para uma paciente sem cistos nos ovários que ela tem uma doença que se chama “ovário policístico”?. Calazans explica que a nova nomenclatura deve ajudar inclusive os profissionais a identificarem sinais e alterações que podem indicar um quadro de SOMP. 

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Na prática, as pacientes costumam chegar aos consultórios com queixas de ciclos menstruais irregulares, ausentes ou muito longos e dificuldade para engravidar. O excesso de androgênios pode provocar acne e hirsutismo – uma quantidade maior de pelos no rosto e no corpo. A obesidade não é um critério para o diagnóstico de SOMP, já que a condição também pode acometer pessoas magras, mas é um sintoma comum e pode agravar os efeitos.

“Os esforços [para renomear a doença] não têm precedentes. Ninguém nunca colocou tanto esforço em uma mudança de nome”, disse, ao The Guardian, Helena Teede, pesquisadora australiana que liderou o movimento mundial para mudança. “Nós queremos que essa mudança ‘pegue’, e não queremos que seja uma ideia só de especialistas, como costumava acontecer. Nós costumávamos não considerar as perspectivas dos pacientes quando mudávamos nomes”

A perspectiva dos pacientes sobre o novo nome fez diferença, por exemplo, para evitar o termo “reprodutivo” na caracterização da síndrome. Embora a doença possa ter efeitos na reprodução, essa palavra poderia reduzir a doença novamente a esse eixo e ainda carregar um estigma significativo para algumas pessoas. 

“Há partes do mundo em que rotular uma mulher como tendo uma condição reprodutiva está diretamente relacionado ao seu valor na sociedade, e as implicações culturais seriam enormes”, explica Teede. “Por isso, passamos muito tempo pensando nisso, tanto em pesquisas quanto em oficinas.”

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Mas o que são as coisas chamadas de “cistos” dos “ovários policísticos”, então?

Essa confusão de nomenclatura está na raiz dos mal-entendidos sobre a doença. Os desequilíbrios hormonais da SOMP podem desregular o processo de amadurecimento dos folículos ovarianos – células bem pequenininhas que, simplificando, são como óvulos extremamente imaturos.

Quando uma pessoa do sexo feminino nasce, o seu corpo já está carregadinho de todos os folículos que irão acompanhá-la para o resto da vida. Depois da puberdade, periodicamente, os hormônios estimulam o amadurecimento de um punhado de folículos primordiais, que se tornam folículos antrais. Daí, a cada ciclo menstrual, um deles irá amadurecer ainda mais e, dentro dele, será formado um óvulo maduro, que será liberado e poderá ser fertilizado por um espermatozoide.

Os folículos antrais que sobram são reabsorvidos pelo corpo. Nas pessoas com SOMP, entretanto, eles podem ficar por lá, “paralisados” no período antral, e podem ser vistos em ultrassons e ressonâncias magnéticas. Calazans explica que, atualmente, essa condição é mais descrita como “multifolicular”, e não como “policística”.

Os cistos, propriamente ditos, são completamente diferentes. Existem vários tipos de cistos e razões para sua formação, e a maioria deles é benigno – ou seja, some sozinho e não apresenta risco para a saúde. Em geral, eles são pequenas cápsulas preenchidas por líquidos ou tecidos – como um folículo que não se rompeu, por exemplo. 

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Outras condições, como a endometriose, podem provocar cistos, que nesse caso são chamados de endometriomas. 

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