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Países Baixos realizam eutanásia em criança pela primeira vez

Procedimento em menores de 12 anos só pode ocorrer em casos de doenças incuráveis, sofrimento considerado insuportável e sem possibilidade de melhora.

Por Luiza Lopes 24 jun 2026, 19h00 | Atualizado em 25 jun 2026, 20h56
Países Baixos realizam eutanásia em criança pela primeira vez Priorizar nos meus resultados Google

Pela primeira vez, uma criança com menos de 12 anos passou por um procedimento de eutanásia nos Países Baixos. O caso foi confirmado pela ministra da Saúde do país, Sophie Hermans, em uma carta enviada ao parlamento holandês nesta segunda-feira (22).

A identidade da criança, idade exata, sexo, local onde vivia e a doença que enfrentava não foram divulgados. Segundo o relatório apresentado por Hermans, sabe-se apenas que ela tinha entre 1 e 12 anos, sofria de uma condição grave e morreu no final de 2025.

O caso é inédito porque essa possibilidade só passou a existir recentemente no país. Desde 2002, os Países Baixos permitem a eutanásia, mas as regras para menores de idade eram mais restritas.

Inicialmente, adolescentes entre 12 e 17 anos podiam solicitar o procedimento, desde que cumprissem critérios específicos. Crianças menores de 12 anos não eram contempladas pela legislação.

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Isso mudou em 2024, quando o governo holandês ampliou as regras para incluir crianças de 1 a 12 anos com doenças incuráveis em estágio terminal e sofrimento considerado insuportável, sem perspectiva de melhora.

A mudança aconteceu após anos de discussão e pedidos de alguns pediatras, que relatavam casos em que os tratamentos disponíveis, incluindo os cuidados paliativos, não eram suficientes para aliviar o sofrimento dos pacientes.

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A expectativa das autoridades era que a medida fosse usada em situações raras, estimadas em poucos casos por ano.

Como funciona a eutanásia nos Países Baixos?

A eutanásia é um procedimento em que um profissional de saúde administra medicamentos para provocar a morte de um paciente, seguindo regras previstas em lei. Ela é diferente do suicídio assistido, em que o médico fornece a substância, mas é o próprio paciente quem a utiliza.

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No caso de crianças de 1 a 12 anos nos Países Baixos, a decisão envolve médicos e responsáveis legais. Segundo o governo holandês, ela só pode acontecer quando a criança está em fase terminal, sente dores ou passa por sofrimento intenso e não existe uma alternativa considerada viável para aliviar essa condição.

Os pais precisam autorizar o procedimento, já que crianças dessa idade não podem tomar essa decisão legalmente sozinhas. Mesmo assim, as regras determinam que o médico deve envolver a criança no processo sempre que isso for possível.

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“O médico envolverá a criança, na medida em que ela for capaz, na decisão e deverá certificar-se de que a vida da criança não está sendo interrompida contra a sua vontade”, afirmam as diretrizes do comitê responsável por avaliar esses casos.

Antes de realizar a eutanásia, o médico precisa concluir que não há outro tratamento disponível e seguir critérios definidos pela legislação. Entre eles estão confirmar que o sofrimento é insuportável, que não há perspectiva de melhora e consultar outro médico independente para avaliar o caso.

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A realização do procedimento não é automática; médicos podem se recusar a fazê-lo, mesmo que todos os critérios sejam cumpridos.

E, apesar da mudança nas regras, a interrupção da vida de crianças entre 1 e 12 anos continua sendo considerada crime pelo Código Penal holandês. A exceção ocorre quando o médico consegue comprovar que seguiu todos os critérios previstos.

Por isso, todos os casos passam por uma revisão obrigatória. Após a morte, uma comissão especial formada por médicos, um especialista em ética e um advogado analisa se o procedimento foi realizado corretamente. Depois, as conclusões são enviadas ao Ministério Público holandês.

Se os critérios forem cumpridos, o caso é arquivado. Caso contrário, o médico pode ser investigado.

Foi esse processo que aconteceu com o primeiro caso registrado de eutanásia em uma criança menor de 12 anos. A morte foi comunicada ao comitê responsável, que irá avaliar se todas as exigências foram respeitadas.

Evolução da lei

Os Países Baixos foram o primeiro país do mundo a legalizar a eutanásia, em 2002. Antes disso, a prática já vinha sendo discutida havia décadas e passou por um processo gradual de descriminalização nos tribunais desde os anos 1970.

A legislação aprovada em 2002 permitiu o procedimento para adultos e também estabeleceu regras para adolescentes. Jovens de 16 e 17 anos podem solicitar a eutanásia por conta própria, desde que os pais ou responsáveis participem da discussão. Já adolescentes de 12 a 15 anos precisam da autorização dos responsáveis.

Em todos os casos, o paciente precisa estar enfrentando um sofrimento considerado insuportável e sem possibilidade de melhora. A legislação holandesa não permite a eutanásia simplesmente porque uma pessoa considera que “não quer mais viver”. Hoje, cerca de 6% das mortes registradas nos Países Baixos acontecem por eutanásia.

Vale lembrar que, no Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido são proibidos. A eutanásia pode ser enquadrada como homicídio, embora a legislação permita redução de pena em alguns casos quando há comprovação de “relevante valor moral”. Já auxiliar alguém a tirar a própria vida também é considerado crime.

O país permite, porém, a chamada ortotanásia. Nesses casos, pacientes com doenças graves e sem possibilidade de cura podem recusar tratamentos que apenas prolongariam artificialmente o processo de morte, mantendo cuidados para aliviar sintomas e sofrimento.

 

 

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