Calor extremo prejudica aprendizado de letras e números na infância, mostra estudo
Impacto é ainda maior entre crianças de famílias pobres e que morem em cidades e domicílios sem acesso adequado à água.
Crianças pequenas expostas a calor intenso têm mais dificuldade para acompanhar marcos básicos do desenvolvimento, especialmente aqueles ligados ao reconhecimento de letras e números.
É o que aponta um estudo internacional publicado no
Journal of Child Psychology and Psychiatry, que analisou dados de 19.607 crianças de três e quatro anos. Elas participaram das Pesquisas de Indicadores Múltiplos por Conglomerados (MICS), um levantamento conduzido pelo Unicef em países de baixa e média renda. A amostra inclui indivíduos da Gâmbia, Geórgia, Madagascar, Malawi, Serra Leoa e Palestina.
Para medir o desenvolvimento infantil, os pesquisadores utilizaram o Índice de Desenvolvimento da Primeira Infância (ECDI), um indicador padronizado que avalia se a criança atinge marcos esperados para a idade em quatro áreas: alfabetização e numeracia (como reconhecer letras, números e palavras simples), desenvolvimento socioemocional, abordagens à aprendizagem e desenvolvimento físico.
Em paralelo, os autores cruzaram essas informações com dados climáticos, que registram as temperaturas máximas médias mensais às quais cada criança esteve exposta desde o nascimento até o momento da entrevista.
O resultado mais robusto aparece justamente no domínio cognitivo inicial. Crianças que viveram em ambientes onde a temperatura máxima média ultrapassou os 30 °C apresentaram de 5% a 6,7% menos chance de estar com o desenvolvimento “em dia” nas habilidades de alfabetização e matemática, em comparação com aquelas expostas a temperaturas abaixo de 26 °C, na mesma região e estação do ano.
Em outras palavras, mesmo ao comparar crianças que vivem no mesmo país e em contextos semelhantes, as que cresceram sob calor mais intenso tiveram desempenho pior em reconhecer letras e números.
“Como o desenvolvimento inicial estabelece as bases para a aprendizagem ao longo da vida, a saúde física e mental e o bem-estar geral, essas descobertas devem alertar pesquisadores, formuladores de políticas e profissionais da área sobre a necessidade urgente de proteger o desenvolvimento infantil em um mundo em aquecimento”, afirmou
Jorge Cuartas, autor principal do estudo e professor da Universidade de Nova York (NYU), em comunicado.
O efeito não foi uniforme entre todas as crianças. A análise mostra que o impacto do calor extremo é mais forte entre aquelas que já vivem em condições de maior vulnerabilidade. Crianças de famílias economicamente mais pobres, que moram em áreas urbanas ou em domicílios sem acesso adequado à água potável e ao saneamento foram as mais afetadas.
Em zonas urbanas, por exemplo, o efeito do calor foi muito mais acentuado do que em áreas rurais, possivelmente por causa do chamado “efeito ilha de calor”, fenômeno em que o asfalto, o concreto e a escassez de áreas verdes elevam ainda mais a temperatura nas cidades.
Os pesquisadores destacam que o calor pode interferir no desenvolvimento infantil por diversos caminhos. Em termos biológicos, temperaturas elevadas aumentam o risco de desidratação, inflamação no sistema nervoso e distúrbios do sono, fatores que afetam diretamente o funcionamento do cérebro em uma fase de rápido crescimento.
Crianças pequenas também têm maior dificuldade para regular a própria temperatura corporal e dependem dos adultos para buscar água, sombra ou ambientes mais frescos.
Há ainda efeitos indiretos importantes. O calor extremo pode comprometer a segurança alimentar, prejudicar colheitas, aumentar a contaminação de alimentos e favorecer a disseminação de doenças infecciosas, todos fatores que afetam a nutrição e a saúde infantil.
Além disso, temperaturas altas estão associadas a maior estresse e pior saúde mental dos cuidadores, o que pode reduzir a qualidade das interações com as crianças, fundamentais para o aprendizado nos primeiros anos.
Os autores ressaltam que o trabalho tem limitações. O índice de desenvolvimento usado é baseado em relatos dos cuidadores, não em testes diretos com as crianças, e os dados se concentram em apenas seis países.
Ainda assim, o tamanho da amostra, a padronização dos indicadores e o cuidado metodológico ao comparar crianças expostas a diferentes temperaturas dentro das mesmas regiões fortalecem a evidência de que o calor excessivo representa um risco real ao desenvolvimento infantil.
“Precisamos urgentemente de mais pesquisas para identificar os mecanismos que explicam esses efeitos e os fatores que protegem as crianças ou aumentam sua vulnerabilidade. Esse trabalho ajudará a definir metas concretas para políticas e intervenções que fortaleçam a preparação, a adaptação e a resiliência à medida que as mudanças climáticas se intensificam”, concluiu Cuartas.
https://youtu.be/WvMt08X4i3o?si=KGxsFxX34iryKusN






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com ícone de árvore e raio, texto OFERTA RELÂMPAGO Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas Superinteressante e Veja, e um celular com aplicativo de notícias](https://beta-develop.super.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif?quality=70&strip=info)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em destaque, acompanhado de um ícone de raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: Super, Veja e uma menor, Guia Quatro Rodas. No canto superior direito, um ícone de árvore estilizada](https://beta-develop.super.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif?quality=70&strip=info)