Ciência sem política é o poder de mudar o mundo sem o dever de zelar por ele
Entendemos repórteres em Brasília e oscilações do Ibovespa como a parte séria do jornal, enquanto a ciência cai na caixinha das curiosidades. Ledo engano.
Esta é carta ao leitor da edição 476 da Super, de junho de 2025.
Em 1911, a revista Popular Mechanics publicou a ilustração de uma fábrica tingindo o céu de fuligem, com a seguinte legenda: “As fornalhas do mundo agora queimam cerca de 2 bilhões de toneladas de carvão por ano […] o que adiciona 7 bilhões de toneladas de CO2 à atmosfera. Isso tende a tornar o ar um cobertor mais eficaz para a Terra, aumentando sua temperatura. Esse efeito pode se tornar considerável em alguns séculos”.
Com o perdão do trocadilho, esse já era um assunto quente na época. Em 1896, o químico sueco Svante Arrhenius havia publicado o primeiro artigo científico sobre o que hoje chamamos de “aquecimento global”. Ele calculou que a temperatura no Ártico subiria algo entre 8 °C e 9 °C caso a concentração de CO2 na atmosfera dobrasse ou até triplicasse.
Daria uma comédia: uma civilização de trapalhões briguentos que foi notificada do apocalipse com mais de um século de antecedência por um sábio nórdico bigodudo e fez essencialmente nada para evitar.
Mas essa é a história da Terra, e ela é deprimente: a OMS calcula que, entre 2030 e 2050, vão morrer 250 mil pessoas a mais por ano em relação à média caso não existisse a crise climática. Gente de paletó com cargos públicos importantes tem uma disposição aparentemente interminável para ignorar um cálculo que equivale a aniquilar toda a população da cidade de Volta Redonda com uma bomba atômica. Todos. Os. Anos.
Para quem despreza a vida, ignorar a ciência se tornou um ótimo negócio. Mas nem sempre foi assim. Em outras épocas e lugares, a crueldade exigiu ciência para acontecer. As ballistae romanas, o gás mostarda na 1ª Guerra e as bombas de Hiroshima e Nagasaki são só alguns exemplos.
Em 2024, 2,5% do PIB mundial foi desperdiçado com forças armadas. No caso específico dos EUA, 3,4%. Israel usa 8,8%. Hoje, a Ucrânia é forçada a torrar 34,5%. Se você parasse qualquer cidadão na rua e perguntasse quanta grana e cérebros um país deveria dedicar à mesquinhez de matar gente, todo mundo responderia “nem um centavo”.
Mesmo assim o parágrafo anterior existe porque não somos capazes de conviver tão pacificamente quanto chimpanzés bonobos – que compartilham 98,7% do código genético conosco, mas resolvem seus problemas fazendo sexo reconciliatório com os desafetos.
Às vezes recebo e-mails de leitores argumentando que não cabe à Super, sendo uma revista sobre ciência e cultura, “falar de política”. É um incômodo compreensível, já que costumamos entender repórteres em Brasília e oscilações do Ibovespa como a parte séria do jornal, enquanto outras áreas caem na caixinha das curiosidades.
Ledo engano: quase tudo que mudou nossas condições de vida desde o século 18 saiu do mundo acadêmico. Armas nucleares, é claro, mas também vacinas, antibióticos, aviões, celulares e até a democracia nos moldes iluministas.
Embora humanos se dediquem com afinco a tornar a Terra um lugar mais desagradável do que Plutão, é um fato mensurável que o IDH do mundo como um todo – ponha aí mortalidade infantil, longevidade etc. – nunca foi tão bom quanto é hoje, em grande parte por crédito do avanço científico-tecnológico.
Politikós é uma palavra grega que significa algo “relativo à vida em comunidade”. Se a ciência é feita em comunidade e mexe com a vida da comunidade, então não faz sentido discuti-la sem falar das intenções por trás de quem produz conhecimento e de quem opta por ignorá-lo. A ciência sem política é o poder de mudar o mundo sem a responsabilidade de zelar por ele.
Bruno Vaiano
Editor-Chefe
bruno.vaiano@abril.com.br






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