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O “portão do inferno” de Roma, que matava com dióxido de carbono

Em um templo pagão, uma força misteriosa ceifava animais, mas poupava sacerdotes. Agora, cientistas finalmente descobriram o truque por trás do ritual.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 fev 2018, 17h30 | Atualizado em 2 jul 2026, 17h15
O “portão do inferno” de Roma, que matava com dióxido de carbono Priorizar nos meus resultados Google

Por vários séculos antes de Cristo, a cidade romana de Hierápolis, no atual território da Turquia, atraiu peregrinos de todos os cantos do Império. Lá, garantiam as autoridades pagãs, ficava a verdadeira entrada do inferno: um portal de pedra posicionado na frente do acesso a uma pequena gruta. Em volta, arquibancadas suntuosas abrigavam os fiéis que queriam assistir a um ritual comum – o sacrifício de animais.

Guiados pelos sacerdotes – que, segundo o geógrafo grego Estrabão, eram homens castrados –, bois e vacas saudáveis andavam rumo ao portal. Quando entravam lá, se debatiam e caiam mortos, quase instantaneamente. Os sacerdotes, por outro lado, saiam vivos.

O público ia ao delírio. Afinal, geralmente é preciso matar o animal com as próprias mãos para sacrificá-lo. Uma morte assim, no automático, era a melhor prova de que Plutão, deus dos mortos e das riquezas do solo, havia gostado do presente.

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Mas será que gostava mesmo? Em 2011, arqueólogos que exploravam o sítio arqueológico de Hierápolis perceberam que a gruta funciona a pleno vapor até hoje: se um passarinho entra lá de bobeira, cai morto na hora. Isso chamou a atenção de Hardy Pfanz, especialista em vulcões da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha.

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As ruínas da cidade ficam diretamente acima de uma área de intensa atividade geofísica – as fontes termais da região, inclusive, eram usadas pelos romanos para fins medicinais. Pfanz descobriu que, sob o templo, uma fenda no chão libera constantemente dióxido de carbono (CO2) na gruta. Durante o dia, o gás tóxico, por causa do calor do Sol, sobe e se dispersa na atmosfera. Durante a noite, porém, ele fica próximo ao chão – formando uma espécie de “lago” transparente de 40 cm de profundidade ao redor do portão. Os detalhes estão em um artigo científico.

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O pior horário é o anoitecer, quando a concentração de CO2  bate 35%. O boi, que naturalmente anda com a cabeça mais baixa que um ser humano, ficava em contato com mais gás que o sacerdote. Tonto por causa da intoxicação, se inclinava até mergulhar o focinho completamente na faixa letal de 40 cm. E aí morria. Nas palavras de Pfanz: “Eles meio que sabiam que o hálito letal dos guardiões do inferno atingia uma altura máxima muito bem definida”. Calhou que a força sobrenatural não podia ser mais natural.

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