Mulheres escreveram 1,1% dos manuscritos no Ocidente na Idade Média
Pesquisa indica que escribas femininas foram mais importantes na produção de manuscritos medievais do que se pensava anteriormente.

Em aulas de história, quando o assunto é manuscritos da Idade Média, a cena narrada é clássica: um monge com milhares de páginas espalhadas sobre uma mesinha. O que é menos imaginado é que muitas mulheres também participaram desse processo.
Um novo estudo sugere que escribas femininas produziram no mínimo 110 mil manuscritos entre 400 e 1500 d.C. no “Ocidente do Latim”, ou nas partes católicas romanas da Europa.
Em proporções o número pode parecer pequeno: equivale a 1.1% dos 10 milhões de produções da época, mas os pesquisadores acreditam que suas descobertas são provavelmente subestimadas e mais mulheres que participaram da escrita em massa ainda não foram identificadas. O estudo foi publicado na Nature Humanities and Social Sciences Communications.
Vale lembrar que manuscritos assinados por mulheres não são novidade. O que o estudo traz de novo é o suporte estatístico “para as contribuições frequentemente esquecidas de escribas mulheres ao longo do tempo”, diz Åslaug Ommundsen, autora da pesquisa e acadêmica na Universidade de Bergen, Noruega, para a Hyperallergic.
Para chegar no número final, os pesquisadores buscaram nos livros páginas com algum colofão, uma pequena nota final que funcionava como uma sinopse. Era comum que eles viessem acompanhados da data, local e pessoa responsável por fazer a cópia daquele material.
Algumas mulheres assinavam os colofões como “scriptrix”, algo como escriba feminina, ou “soror”, que significa “irmã” em um tratamento dado às freiras.
Em alguns, os trechos eram maiores. Os autores ressaltam o trecho a seguir:
“Eu, filha de Birgitta Sigfurs, freira no monastério Munkeliv em Bergen, escrevi este saltério com iniciais, embora não tão bem quanto deveria. Reze por mim, uma pecadora.”
Dos 23.774 colofões analisados, 224 tinham assinaturas femininas, ou 1.1%. Aplicando esses números em uma equivalência, os autores usaram os cerca de 75 mil dos 10 milhões de manuscritos medievais que sobreviveram até os tempos modernos, e, aplicando a mesma taxa, sugerem que cerca de 8.000 manuscritos foram copiados por mulheres e ainda existem.
Além disso, os pesquisadores perceberam que por volta do ano 1400, mais colofões foram assinados por mulheres. Para os autores, o período coincide com uma demanda maior por livros escritos em línguas locais, mais acessíveis e um pouco mais distantes do Latim.
O verdadeiro alcance das contribuições das mulheres na escrita histórica ainda é desconhecido, afirmam os pesquisadores. Algumas escribas podem ter ocultado intencionalmente seu gênero, provavelmente para evitar o preconceito ou a marginalização, enquanto outras podem ter optado por registrar seus nomes nas margens dos documentos, em vez de no colofão, onde as identidades eram tradicionalmente registradas.
Além disso, há casos em que mulheres podem simplesmente ter decidido não se identificar, seja por questões culturais ou pessoais, o que torna ainda mais difícil avaliar o impacto de suas contribuições na literatura e nos registros históricos.
“Nossa investigação sugere que há comunidades de mulheres produtoras de livros ainda não identificadas ou, no mínimo, que deve ter havido muito mais escribas femininas do que o que foi contabilizado até agora”, escrevem os autores no artigo. “Nosso estudo deve ser visto como um primeiro passo, abrindo novas perspectivas.”