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Como as mulheres passaram de fabricantes de cerveja a acusadas de “bruxaria”

Por muito tempo, elas foram as principais fabricantes da bebida – mas no século 16, outros comerciantes passaram a relacioná-las à bruxaria. Entenda essa história.

Por Carolina Fioratti 8 mar 2021, 21h33 | Atualizado em 4 jun 2026, 15h34
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A cerveja é majoritariamente associada aos homens: eles estão à frente das maiores fabricantes do mundo, e também costumam ser o público-alvo dos comerciais da bebida. Mas a história nem sempre foi essa. Se hoje você pode curtir uma cerveja depois do expediente, foi porque mulheres alcançaram a forma ideal de produzir o líquido.

Os humanos têm consumido cerveja há pelo menos sete mil anos. Desde os primórdios da produção, as responsáveis por preparar a bebida eram mulheres. Nem é tão estranho se você lembrar da estrutura familiar vigente na época – enquanto os homens geralmente se encarregavam da caça, elas eram responsáveis por coletar grãos e preparar os alimentos (inclusive a cerveja).

E a tarefa perdurou. Na cultura viking e egípcia, por exemplo, elas preparavam a bebida em cerimônias religiosas ou mesmo para o consumo dentro de casa, já que a cerveja é um alimento prático e rico em calorias. Os antigos sumérios, que habitavam a região dos rios Tigres e Eufrates, tinham até mesmo uma deusa da cerveja, chamada Ninkasi. 

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Vamos começar pelo básico da cerveja. Se você gosta da bebida, já deve ter ouvido falar do lúpulo. Essa planta carrega substâncias que dão o aroma e o amargor à cerveja, além de inibir a proliferação de bactérias e melhorar a qualidade da espuma. A primeira pessoa a registrar o uso do ingrediente (e adicioná-lo à cerveja) foi a freira Hildegard von Bingen. A alemã escreveu sobre as propriedades do lúpulo no século 12 em seu livro intitulado Liber Subtilitatum Diversarum Naturarum Creaturarum (Livro das Propriedades  ou Sutilezas   das Várias Criaturas da Natureza).

Até o século 16, a cerveja foi se tornando um alimento comum para as famílias da Europa, e a sua produção era só mais uma tarefa doméstica para as donas de casa. Viúvas e mulheres solteiras aproveitavam a habilidade com a fermentação para ganhar algum dinheiro extra nos mercados. Já as mulheres casadas podiam fazer parcerias com os maridos para administrar cervejarias. 

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Encontrar as mulheres cervejeiras no mercado não era difícil: elas usavam chapéus grandes e pontudos para serem reconhecidas pelos clientes; e geralmente estavam diante de grandes caldeirões, onde o líquido era produzido. Aquelas que tinham estabelecimentos próprios deixavam uma vassoura na porta para avisar que a bebida estava disponível para ser comprada. Para completar, era comum que comerciantes criassem gatos, para manter os ratos longe dos grãos. 

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Se você imaginou uma bruxa revirando um caldeirão alcóolico, não é à toa. Segundo a professora Laken Brooks, em um artigo para o The Conversation, é possível que parte da imagem clássica das bruxas tenha vindo das cervejeiras. Isso porque alguns comerciantes viram a oportunidade de eliminar a concorrência pegando carona na Inquisição – movimento da Igreja Católica que pretendia combater a heresia e a bruxaria.

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Mother Louise, produtora de cerveja em Oxford, no século 17.
Mother Louise, produtora de cerveja em Oxford, no século 17. (David Loggan/Reprodução)

Os cervejeiros passaram a acusar as mulheres de bruxaria, alegando que elas utilizavam os caldeirões para preparar poções mágicas ao invés do entorpecente. A acusação era grave, já que as moças tidas como bruxas não eram apenas desprezadas pela sociedade, mas também poderiam ser presas e mortas. Nem todos os homens acreditavam que elas eram de fato bruxas, é claro, mas muitos defendiam que produção e comércio de cerveja não era para as mulheres, já que o tempo investido no negócio era desviado dos cuidados de casa e dos filhos. 

Com o tempo, a participação feminina no ramo caiu consideravelmente. Hoje, o cenário da produção de cervejas é contrário àquele que perdurou por milênios. Uma pesquisa feita pela Universidade de Stanford, nos EUA, mostrou que apenas 17% das cervejarias artesanais têm uma mulher como CEO, sendo que apenas 4% delas contam com uma mestre-cervejeira.

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