O enigma das eras do gelo – e a busca dos ciclos que as governam
De tempos em tempos, o gelo dos polos se alastra pelos continentes. Entenda a sincronia entre os três ciclos planetários que causam as eras glaciais.
O texto abaixo foi escrito por Daniel Galvão Carnier Fragoso (PETROBRAS e UFMG) e Matheus Kuchenbecker (UFVJM). Leia outros textos do blog Deriva Continental aqui
No dia a dia usamos relógios e calendários para organizar nossas tarefas e compromissos – muitas vezes, sem nos darmos conta de que essas pequenas atitudes nos sincronizam com os ritmos planetários.
O dia obedece os ciclos de rotação, em que o planeta gira sobre seu próprio eixo; os anos equivalem à translação, que é a órbita da Terra em torno do Sol. Esses ritmos não são apenas essenciais para medir o tempo, mas também influenciam discretas variações no clima ao longo do ano. Eles determinam as estações e, com elas, a maneira como nos vestimos, nos alimentamos e até mesmo como nos sentimos.
Na perspectiva do “tempo profundo” – que abrange os bilhões de anos da história da Terra – observamos outros ritmos planetários, com durações muito maiores do que os ciclos de dias, anos ou séculos que conhecemos. Esses ritmos ficam registrados no planeta, que estudamos a partir da união entre Geologia, Astronomia e Paleoclimatologia. Eles nos levam a vislumbrar como o cosmos e o tempo se entrelaçam para moldar a Terra e as diferentes paisagens que surgiram e desapareceram ao longo de sua história.
[abril-veja-tambem]W3siaWQiOjM5NzU1OSwidGl0bGUiOiJQb3IgcXVlIGRpdmlkaW1vcyBvIGRpYSBlbSAyNCBob3JhcywgZSBhcyBob3JhcyBlbSA2MCBtaW51dG9zPyJ9LHsiaWQiOjM5NzUzOSwidGl0bGUiOiJPcyAxMCBkaWFzIHF1ZSBzdW1pcmFtOiBjb21vIGZvaSBhIHRyYW5zaSYjeEU3OyYjeEUzO28gZG8gY2FsZW5kJiN4RTE7cmlvIGp1bGlhbm8gcGFyYSBvIGdyZWdvcmlhbm8ifV0=[/abril-veja-tambem]
Um olhar profundo sobres os ciclos astronômicos
Civilizações antigas, de diferentes partes do mundo, desenvolveram um conhecimento surpreendentemente avançado sobre os ciclos astronômicos. Sumérios, Babilônios, Hindus, Chineses, Egípcios, Persas, Astecas, Maias e Celtas estão entre os povos que registraram suas observações do céu e construíram observatórios sofisticados para acompanhar os movimentos periódicos dos astros.
No Brasil, o chamado Observatório de Calçoene, no Amapá, também conhecido como “Stonehenge da Amazônia”, é um exemplo notável da relação entre culturas ancestrais e os ciclos celestes.
A criação dos primeiros calendários, impulsionada pela observação dos ciclos astronômicos, exerceu um papel decisivo na evolução do conhecimento humano sobre o tempo e seus ritmos naturais. Nosso fascínio pela repetição constante dos movimentos observados no céu e na natureza despertou uma forma de pensar especialmente poderosa, capaz de organizar e expandir diferentes áreas do saber.
Os antigos gregos exemplificam perfeitamente essa tendência: movidos pelo desejo de compreender e prever fenômenos astronômicos, eles estruturaram grande parte do seu conhecimento em padrões cíclicos – algo que influenciou até mesmo a percepção das dinâmicas humanas. Não por acaso, a própria palavra “ciclo” deriva do termo grego κύκλος (kýklos), que significa “círculo” ou “roda”, reforçando essa visão circular e periódica do tempo. O legado dessa abordagem permanece profundamente enraizado na ciência moderna.
Outro exemplo marcante é o trabalho do astrônomo grego Hiparco de Nicéia, que viveu por volta de 190 a.C. Com uma precisão impressionante, ele usou métodos matemáticos para calcular a duração do ano e prever a ocorrência de eclipses.
Suas descobertas sobre as mudanças graduais das posições das estrelas lançaram as bases para descobrirmos o que hoje chamamos de “precessão dos equinócios”, um movimento circular, lento e contínuo, do eixo de rotação do planeta, que se assemelha ao bamboleio de um pião. Enquanto o eixo gira, ele se inclina para diferentes direções ao longo do tempo, completando um ciclo a cada 20 mil anos aproximadamente.
Esse movimento acontece porque a Terra não é uma esfera perfeita. Ela é oblata, ou seja, um pouco “achatada” nos polos e “alargada” no equador. Assim, a interação gravitacional do Sol e da Lua atuam de maneira desigual, “puxando” essa parte mais larga da Terra, fazendo com que o eixo mude de posição.
Os ciclos glaciais: resposta celeste para um mistério terrestre
A ideia de que o nosso planeta passou por mudanças climáticas tão extremas que, em tempos remotos, vastas geleiras cobriram extensas áreas dos continentes parece coisa de ficção científica. No entanto, entre os séculos XVIII e XIX, cientistas começaram a reunir evidências de que a Terra passou por intensas eras glaciais. A chamada Teoria Glacial marcou uma revolução nas ciências da Terra e trouxe à tona uma pergunta fundamental: como essas eras do gelo começaram — e por que terminaram?
A resposta, ao que tudo indica, está no cosmos. Movimentos orbitais como o da precessão, por exemplo, embora quase imperceptíveis na escala da vida humana, alteram gradualmente o equilíbrio da irradiação solar recebida pelos hemisférios. Ao longo de milênios, essas variações na insolação podem reconfigurar o clima do planeta.
Além da precessão, dois outros movimentos desempenham um papel crucial na regulação do clima em escalas geológicas: a obliquidade e a excentricidade.
A obliquidade diz respeito às mudanças de inclinação do eixo terrestre, que varia entre 22,1° e 24,5° em ciclos de aproximadamente 40 mil anos. Essa inclinação afeta a distribuição da irradiação solar nas diferentes regiões do planeta e a intensidade das estações do ano.
A excentricidade, por sua vez, refere-se à forma da órbita terrestre ao redor do Sol, que alterna entre mais circular e mais elíptica ao longo de dezenas de milhares de anos. Essa variação influencia a quantidade e o padrão da radiação solar recebida anualmente, afetando o clima global.
Por trás desses ciclos estão forças invisíveis, mas poderosas: as interações gravitacionais entre a Terra e outros corpos do Sistema Solar. O Sol, a Lua e os planetas gigantes como Júpiter e Saturno exercem sua influência silenciosa, alterando lentamente a inclinação do eixo da Terra e a forma de sua órbita. São esses ajustes sutis, orquestrados no cosmos, que moldam o ritmo do clima em nosso planeta.
A interação entre precessão, obliquidade e excentricidade foi desvendada ao longo de séculos por cientistas que uniram conhecimentos da Astronomia, Matemática e Geociências. Combinados, esses ciclos formam os chamados Ciclos de Milankovitch, capazes de desencadear longas eras glaciais, com avanço de geleiras, seguidas por fases de aquecimento e retração do gelo. Eles ajudam a explicar os grandes ritmos climáticos que moldaram o passado da Terra.
O que deixa esse assunto ainda mais interessante é saber que nosso planeta, através dos muitos processos que compõem o Sistema Terra, é um verdadeiro arquivo destas mudanças climáticas, registrando nas rochas estes compassos astronômicos. Saiba como as rochas revelam esses ciclos ocultos no tempo. [Leia a continuação clicando aqui].







