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Bruno Garattoni

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Vencedor de 15 prêmios de Jornalismo. Editor da Super.

Suprema Corte pode acabar com o direto ao aborto nos EUA

Juizes pretendem anular a regra federal que garante o acesso ao procedimento, e está em vigor desde 1973; legalização teve batalha judicial entre Norma McCorvey, uma mulher de 21 anos que já tinha dois filhos, e o governo do Texas

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 Maio 2022, 11h25 | Atualizado em 6 set 2024, 10h28
Suprema Corte pode acabar com o direto ao aborto nos EUA Priorizar nos meus resultados Google

Juizes pretendem anular a regra federal que garante o acesso ao procedimento, e está em vigor desde 1973; legalização teve batalha judicial entre Norma McCorvey, uma mulher de 21 anos que já tinha dois filhos, e o governo do Texas

Na noite de ontem, o site americano Politico publicou um documento da Suprema Corte dos EUA contendo uma informação bombástica: a maioria dos juizes da corte, que equivale ao STF brasileiro, teria decidido revogar o veredicto do caso Roe versus Wade – o que poderá

acabar com o direito ao aborto em quase metade dos EUA.    

No documento, de 98 páginas, o juiz Samuel Alito diz que o veredicto do caso, que foi julgado em 1973 pela mesma Suprema Corte e assegurou o direito ao aborto em todos os Estados americanos, foi “flagrantemente errado desde o início”. O texto, intitulado “Opinião da Corte”, afirma que o Roe vs. Wade “deve ser derrubado”, e “a questão do aborto deve ser devolvida aos representantes eleitos pelo povo”. 

A notícia causou espanto, e detonou uma grande polêmica nos EUA. Logo após a revelação,

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um grupo de 500 pessoas foi protestar em frente à Suprema Corte, em Washington. Políticos e grupos contrários ao aborto comemoraram. 

O documento é apenas um rascunho; a questão ainda terá de ser votada pela Suprema Corte. Mas é provável que ela realmente derrube o Roe vs. Wade – dos nove juízes que compõem a corte, seis (inclusive Alito, o autor do rascunho) foram indicados ao cargo por presidentes pertencentes ao Partido Republicano, que se opõe ao aborto. 

O caso Roe vs. Wade é considerado um marco jurídico dos EUA – e tem uma história tumultuada e interessante por trás. Tudo começa quando a americana Norma McCorvey, então com 21 anos e já mãe de dois filhos, engravida pela terceira vez. Ela não queria ter a criança – mas morava no Texas, onde o aborto só era permitido em caso de estupro. 

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McCorvey foi à polícia e disse que havia sido violentada – o que, como ela admitiria anos mais tarde, era mentira. As autoridades não deram a ela permissão para fazer um aborto legalizado. McCorvey procurou uma clínica ilegal, mas ela havia sido fechada. 

Então ela entrou em contato com duas advogadas, Sarah Weddington e Linda Coffee, que levaram o caso à Justiça. McCorvey não esteve presente às audiências e foi identificada por um pseudônimo, “Jane Roe”. Contra ela, representando o governo do Texas, estava o promotor Henry Wade. Daí o caso se chamar Roe vs. Wade. 

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A disputa se arrastou por três anos – McCorvey teve a criança, que colocou para adoção – e passou por várias instâncias até chegar à Suprema Corte, que deu ganho de causa (por 7 votos a favor e 2 contra) a Jane Roe. Todos os Estados americanos passaram a ser obrigados a permitir o aborto no primeiro trimestre da gravidez. 

Filha de mãe alcoólatra, McCorvey se casou pela primeira vez com apenas 16 anos, e sofreu violência do marido, do qual se separou. Teve a primeira filha, Melissa, aos 18 anos – quando também começou a enfrentar problemas com álcool e drogas. Engravidou novamente aos 19 e teve a segunda filha, Jennifer, que deu para adoção. 

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Retrato de Norma McCorvey.
Norma McCorvey em foto de 1987. Ela revelou sua identidade após a decisão da Suprema Corte, e se tornou uma ativista pró-legalização do aborto. (Cynthia Johnson/Getty Images)

Após o Roe vs. Wade, McCorvey revelou sua identidade à imprensa, e se tornou uma ativista a favor do direito ao aborto. Mas em 1995, duas décadas mais tarde, ela se converteu evangélica e mudou de lado, passando a renegar a legalização da prática. McCorvey se dizia arrependida, e afirmava que seu caso havia levado a uma banalização do aborto nos EUA.

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Em seguida, veio mais uma reviravolta. Em um documentário filmado em 2017, poucos meses antes de sua morte, McCorvey disse que havia sido paga por grupos anti-aborto para criticar a prática. “Foi tudo uma encenação. Eu fiz bem. Sou uma boa atriz.” 

Ela afirmou que, na verdade, era a favor do direito ao aborto. “Se uma mulher jovem quer ter um aborto, eu não tenho nada a ver com isso. E por isso que chamam de escolha.”

Se a Suprema Corte derrubar o Roe vs. Wade, cada Estado americano poderá aprovar suas próprias leis a respeito do direito ao aborto. Estima-se que 21 Estados deverão restringir ou banir o procedimento.

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