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Vírus gigante recém-descoberto pode ter pistas sobre evolução da vida

Pesquisadores argumentam que descoberta de nova espécie reforça a hipótese de que a vida como conhecemos pode ter surgido graças aos vírus; entenda

Por Ana Clara Caielli Barreiro 17 jan 2026, 12h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h33
Vírus gigante recém-descoberto pode ter pistas sobre evolução da vida Priorizar nos meus resultados Google

Como surgiu a vida no planeta Terra? Essa é uma pergunta que a ciência ainda não conseguiu responder completamente, e que segue alimentando debates. Em 2001, os pesquisadores Masaharu Takemura, da Universidade de Ciências de Tóquio, e Philip Bell, da Universidade de Macquarie, na Austrália, propuseram uma hipótese ousada: as células eucariontes – que possuem organelas membranosas e DNA linear envolto por um núcleo verdadeiro –, se originaram a partir de um vírus gigante, que desempenhou um papel central na origem da vida.

Antes de tudo, vale relembrar o que é um vírus. Eles são parasitas intracelulares obrigatórios, que só conseguem se reproduzir por meio de células hospedeiras, já que não possuem metabolismo próprio, células nem organelas. A reprodução ocorre ao controlar o metabolismo da célula infectada. Por isso, não há consenso acadêmico sobre se os vírus podem sequer serem considerados seres vivos. Sua estrutura é simples, feita de material genético (que pode ser DNA ou RNA) envolto por um capsídeo proteico e, em alguns casos, por um envelope membranoso adicional.

A teoria dos autores é chamada de eucariogênese viral e defende que, há mais de 2,5 bilhões de anos, um vírus gigante teria infectado um ser unicelular, alojando-se a longo prazo em seu citoplasma. Ali, ele teria incorporado os genes do hospedeiro e evoluído até se tornar o núcleo que envolve o DNA – a presença desse núcleo é justamente o que define as células eucariontes. Todos os animais, plantas, fungos e protozoários são compostos por esse tipo de célula eucarionte. Assim, compreender como elas se formaram é essencial para entender a evolução da vida como a conhecemos.

Hoje, as evidências dessa hipótese estão escondidas à nossa volta, pois os descendentes modernos dos vírus gigantes se encontram espalhados pelo ambiente, mas são notoriamente difíceis de isolar em laboratório. Uma de suas principais características, além do tamanho e de serem compostos por DNA, é a capacidade de formar, dentro da célula hospedeira, estruturas especializadas para a replicação viral, apelidadas de “fábricas virais”. Elas podem estar envoltas por membranas, lembrando muito um núcleo celular, o que é um indício de uma possível relação evolutiva entre esses vírus e as células eucariontes.

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Publicado em novembro de 2025, um artigo do Journal of Virology, assinado por Takemura e outros pesquisadores de universidades japonesas, descreve a descoberta de um vírus gigante inédito. Batizado de ushikuvirus, ele reforça a hipótese da eucariogênese viral – e nos dá mais pistas sobre o mistério da origem da vida.

O nome faz referência ao rio Ushiku, no Japão, onde o vírus foi encontrado pela primeira vez. O ushikuvirus tem muitas semelhanças com os vírus gigantes de DNA da família Mamonoviridae. Ambos infectam amebas e outros organismos unicelulares, e apresentam uma forma icosaédrica, ou seja, têm 20 lados idênticos. Além disso, esses vírus gigantes também têm pequenas projeções pontiagudas na superfície, chamadas espículas.

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Esta imagem (a) mostra a reconstrução 3D do vírus, destacando seu capsídeo com espículas (d). A descoberta reforça ainda mais a hipótese da origem dos vírus nucleares, que propõe que os vírus desempenharam um papel na evolução das células eucarióticas.
(Professor Kazuyoshi Murata from the National Institute of Natural Sciences (NINS)/Divulgação)
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O estudo aponta uma relação filogenética entre o ushikuvirus e a família Mamonoviridae. No entanto, o novo vírus apresenta alguns diferenciais marcantes que indicam adaptações evolutivas dentro da mesma linhagem. Ao contrário de seus parentes próximos, por exemplo, o ushikuvirus rompe a membrana do núcleo da ameba para produzir partículas virais, o que indica que ele não depende do núcleo celular para codificar proteínas e consegue se replicar mesmo se essa estrutura estiver danificada. Além disso, o vírus apresenta um comportamento curioso: ao infectar a ameba, induz um crescimento da célula hospedeira, que atinge tamanhos fora do comum.

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Com base nesses comportamentos , os pesquisadores acreditam que a interação entre vírus gigantes e as células hospedeiras tenha impulsionado adaptações evolutivas, influenciando não apenas a complexidade viral, mas também a própria evolução da vida eucariótica e, por extensão, da vida em geral.

Além de abrir novos caminhos para investigação, entender o ushikuvirus também pode ter aplicações práticas, como o desenvolvimento de estratégias para tratar infecções causadas por amebas.

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