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Surunina-da-terra: por que a espécie amazônica tem sido comparada ao extinto dodô?

Descrito por cientistas brasileiros, a nova especie é dócil e vive na Serra do Divisor, uma espécie de "ilha no céu".

Por Diego Facundini 4 dez 2025, 15h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h30
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Na Amazônia, uma equipe de cientistas subiu até o topo das montanhas da Serra do Divisor, na fronteira entre o Acre e o Peru, em busca de uma nova espécie de inhambu. Esse é um tipo de pássaro parecido com as galinhas, encontrado na América Latina.

Os ornitólogos Fernando Igor de Godoy e Ricardo Plácido sabiam (mais ou menos) o que estavam procurando: em 2021, eles haviam gravado o canto do pássaro, mas o som não indicava onde a ave poderia estar. O barulho hipnotizante oscilava de tom, ecoava e se perdia pela floresta.

Demorou três anos para os pesquisadores encontrarem o dono da voz. No final de 2024, o cientista Luís Morais usou um playback do canto dos pássaros para atraí-los, e enfim conseguiram fotografá-los. A ave recebeu o nome científico Tinamus resonans, devido ao seu som característico que ressoa na mata. O artigo que descreve a nova espécie foi publicado na última terça-feira (2), no periódico Zootaxa.

Popularmente, o pássaro foi chamado de sururina-da-serra. Com um corpinho pequeno e tons vibrantes de marrom e canela, sua descoberta é considerada uma raridade ornitológica. A descrição mais recente de um inhambu florestal é datada de 1945, quando foi descoberto o inambu-do-tepui (Crypturellus ptaritepui).

A possibilidade de afugentar o bicho com câmeras e equipamentos científicos não foi um problema. O sururina-da-serra, como os pesquisadores logo notaram, é extremamente dócil, e em momento algum enxergou os humanos como ameaças. Esse comportamento fez com que a nova espécie fosse comparada ao extinto pássaro dodô, que sumiu no século 17.

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Por muito tempo, os dodôs viveram nas ilhas Maurício, um ponto remoto no Oceano Índico a 1.900 quilômetros da costa africana. Com suas asas finas e frágeis, e seus pés sempre plantados no chão, eles não tinham que se preocupar com qualquer mamífero predador.

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Isso virou um problema com a chegada dos portugueses, em 1507, e os holandeses, em 1598. Eles vieram famintos e acompanhados de diversas espécies invasivas. Os dodôs, isolados na ilha, nunca sofreram qualquer pressão evolutiva para que desenvolvessem uma reação a predadores. O comportamento dócil fez os pássaros virarem presa fácil para os recém-chegados.

Fotografia da espécie de ave descoberta na Amazônia lembra o dodô.
(Morais et al, Zootaxa (2025)/Reprodução)

Geneticamente, o sururina-da-serra não tem muito a ver com os dodôs – esses últimos são bem mais próximos dos pombos. Porém, a nova espécie também vive isolada e sem perturbações no ponto mais elevado da Serra do Divisor, que pode ser descrita como uma “ilha no céu”.

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Por isso, esse animal tem sido comparado à ave extinta. Os pesquisadores estimam que a população total do sururina-da-serra seja de apenas 2,106 indivíduos, o que a coloca em uma posição muito vulnerável a distúrbios ambientais.

O maior perigo são as mudanças climáticas. Quando a temperatura de um ambiente aumenta, espécies que habitam faixas muito estreitas de altitudes, como as regiões montanhosas da Serra do Divisor, tendem a “se mudar pro andar de cima”, onde o ar rarefeito e frio garante temperaturas mais adequadas para as espécies. O novo inhambu vive no terraço, e não tem para onde ir.

Além disso, medidas como o afrouxamento das proteções ambientais na Serra do Divisor (que se encontra dentro de um Parque Nacional) em prol da exploração econômica do território, e a construção de rodovias e ferrovias entre o Brasil e o Peru impõem riscos ainda maiores a sobrevivência dessa espécie.

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O estudo feito por pesquisadores brasileiros analisou três espécimes do animal. Pesquisas posteriores, com análises genéticas, históricas e taxonômicas desse pássaro, ainda serão necessárias para um entendimento completo da nova espécie.

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