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Receitas de ivermectina para pacientes com câncer disparam após fala de Mel Gibson

Prescrições de remédios para vermes dobraram após relato do ator no podcast Joe Rogan Experience. O suposto tratamento não tem comprovação científica.

Por Diego Facundini 16 Maio 2026, 16h00 | Atualizado em 18 Maio 2026, 09h45
Receitas de ivermectina para pacientes com câncer disparam após fala de Mel Gibson Priorizar nos meus resultados Google

As receitas dos medicamentos antiparasitários ivermectina e benzimidazol dispararam nos Estados Unidos após uma fala do ator Mel Gibson no podcast Joe Rogan Experience, o mais ouvido do país.

Na entrevista lançada em janeiro de 2025, Gibson alega que três de seus amigos com câncer em estágio avançado teriam se livrado completamente da doença após tomarem ivermectina com fenbendazol, um vermífugo da classe dos benzimidazóis para uso exclusivo em animais.

Na época, um recorte da fala postado no X (antigo Twitter) atingiu mais de 60 milhões de visualizações. Além disso, mais de 13 milhões de pessoas assistiram à entrevista no YouTube.

O suposto tratamento, porém, não tem comprovação alguma. Nenhum estudo de alta qualidade até hoje observou qualquer benefício do uso desses medicamentos em pacientes com câncer. Além disso, o uso de fenbendazol por humanos é proibido nos EUA (e no Brasil), podendo causar diversos efeitos colaterais.

Nos meses após a veiculação da entrevista, entre janeiro e julho de 2025, a prescrição desses medicamentos praticamente dobrou, como mostra um novo estudo lançado nessa terça-feira (12) no periódico JAMA Network Open. A conclusão tem como base registros eletrônicos de 68 milhões de pacientes norte-americanos.

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No estudo, pesquisadores reuniram os casos em que a ivermectina e algum tipo de benzimidazol foram receitados para uma mesma pessoa, no mesmo dia, no primeiro semestre daquele ano. Esses dados foram comparados com os números do mesmo período do ano anterior.

Os cientistas observaram aumento significativo – mesmo que o montante tenha continuado relativamente baixo. Nos primeiros sete meses de 2025, a combinação foi receitada para 6 a cada 100 mil pacientes. Entre os principais afetados estavam pacientes com câncer, cujas receitas multiplicaram 2,5 vezes no período mais recente.

É um dado que tem gerado apreensão entre especialistas da saúde nos EUA. “Quando as prescrições de um tratamento oncológico não comprovado mais que dobram após um único podcast – especialmente entre homens e pessoas do sul do país – isso levanta a preocupação de que pacientes possam estar deixando de iniciar ou adiando tratamentos que sabemos funcionar em favor de algo que não foi comprovado como benéfico”, afirma, em nota, o médico John N. Mafi, que coordenou o estudo.

Importante pontuar: os pesquisadores não afirmam com certeza que a fala de Mel Gibson foi a causa única desse aumento nas receitas. Tampouco poderiam: o desenho do estudo é observacional, que apenas analisa os dados sem realizar qualquer intervenção. Esse tipo de estudo não dá margem para que se estabeleça uma relação clara de causa e efeito entre os dois fatores.

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Ainda assim, escrevem os autores, “a variação demográfica e regional que observamos nas taxas de prescrição reflete as características do público dos podcasts e plataformas de mídia que promovem esses regimes terapêuticos, sugerindo uma amplificação seletiva e um alcance direcionado da desinformação em saúde.”

Há um paralelo entre as demografias mais afetadas pelo aumento de receitas e o público do próprio podcast onde Gibson fez a fala em defesa dos medicamentos. O aumento mais expressivo, como Mafi sugere, foi observado entre homens, pessoas brancas e moradores da região sul dos EUA. Em especial, as receitas para pacientes com câncer da região sul quase quadruplicaram em relação a 2024.

Já o Joe Rogan Experience conta com um público 78% masculino. Além disso, a afiliação política mais comum entre seus ouvintes é com o partido Republicano, o mais à direita nos EUA, que também lidera entre pessoas brancas no sul do país.

Joe Rogan e Mel Gibson

Em 2025, o Joe Rogan Experience foi o podcast mais ouvido no Spotify em todo o mundo pelo sexto ano consecutivo, liderando também em plataformas como o YouTube e o Apple Podcasts. Apresentado pelo comediante americano Joe Rogan desde 2009, o programa foi um dos pioneiros do formato “mesacast”, onde um entrevistador e um convidado sentam em uma mesa e conversam de maneira informal por horas a fio.

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A influência do apresentador não é pouca: Rogan já foi descrito pelo The Wall Street Journal como uma das personalidades mais importantes entre os votantes indecisos dos EUA. Ao longo de sua trajetória, o JRE já recebeu figuras como o magnata tech Elon Musk, o ativista antivacina e atual ministro da saúde dos EUA Robert F. Kennedy Jr., e o presidente do país, Donald Trump.

Nesse meio tempo, Rogan também passou por uma série de polêmicas relacionadas à desinformação sobre assuntos médicos. Durante a pandemia de Covid-19, o comediante foi crítico às vacinas, assim como um dos principais expoentes nos EUA do uso da ivermectina como tratamento contra a doença (não o remédio para humanos, mas sim a versão para cavalos). O tal tratamento, que chegou a ganhar endosso presidencial aqui no Brasil, comprovadamente não funciona.

Essa também não é a primeira polêmica de Mel Gibson, ator de Coração Valente (1995) e Máquina Mortífera (1987) e diretor do filme A Paixão de Cristo (2004). Entre múltiplas acusações de antissemitismo, racismo, homofobia e violência doméstica, Gibson também já sugeriu que os incêndios que atingiram a California e destruiram sua casa no começo de 2025 teriam sido, na verdade, armados.

O suposto protocolo antiparasitário contra o câncer terminal, porém, não é invenção do ator. O boato circula desde 2019, e começou porque estudos com ivermectina e benzimidazol mostraram que as substâncias tiveram efeito contra o câncer em células laboratoriais e ratos – resultados que, apesar de promissores, não podem ser automaticamente extrapolados para seres humanos. Segundo estimativas feitas em 2024, apenas 5% das drogas testadas em animais passam em testes com humanos.

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“Muitas vezes nos concentramos em como incorporar evidências à prática de forma eficiente”, afirma, na nota, a pesquisadora Michelle Rockwell, principal autora do novo estudo. “Mas essas descobertas nos lembram que algumas forças podem influenciar o cuidado em saúde muito rapidamente. O desafio para os sistemas de saúde é como alcançar os pacientes nesse momento com informações que sejam, ao mesmo tempo, oportunas e confiáveis.”

Nos Estados Unidos não existe um sistema de saúde público, e os custos totais de um tratamento oncológico podem chegar a 150 mil dólares. Em contraste, na Amazon, uma caixa de ivermectina e outra de fenbendazol ficam em torno de 25 dólares.

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