ONU admite que aquecimento global irá ultrapassar meta do Acordo de Paris
Há uma década, o Acordo de Paris estabeleceu uma meta: limitar o crescimento das temperaturas globais em até 1,5 °C. Agora, um novo relatório considera esse objetivo inviável.
A meta de limitar o aquecimento global em até 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi adotada há mais de uma década no Acordo de Paris. Em tese, os países signatários deveriam agir coletivamente e adotar medidas para frear o aquecimento global. A meta de 1,5 °C, no entanto, acaba de ser considerada inviável pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançado nesta quarta-feira (2), o crescimento das temperaturas globais deve ultrapassar o limiar considerado ideal já nos próximos anos. Mesmo nas projeções mais otimistas, a expectativa é que a temperatura média da superfície terrestre cresça até 1,8°C ainda neste século.
O documento destaca que cada fração de temperatura acima de 1,5°C pode trazer impactos profundos para o clima global, incluindo o colapso de ecossistemas, o aumento de ondas de calor extremas e a elevação no nível do mar. Além disso, sistemas globais essenciais para a vida na Terra, como a floresta amazônica, ficam cada vez mais sujeitos a mudanças irreversíveis (os chamados “pontos de não retorno”).
“Não há bons resultados se continuarmos acima de 1,5 °C. Ao redor do mundo, ondas de calor extremas já estão mostrando que os impactos climáticos ocorrerão mais rapidamente, serão mais intensos e durarão mais tempo – custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA, em nota.
A meta inicial de 1,5°C foi adotada em 2015 no Acordo de Paris, um tratado internacional assinado por 196 países que têm como objetivo manter o crescimento das temperaturas globais “bem abaixo” dos 2°C – marco considerado potencialmente catastrófico para o clima global. Assim, os países signatários se comprometeram a adotar medidas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera de forma a manter o aquecimento global abaixo desse teto.
O limite ideal estabelecido pelo acordo era de 1,5°C. Até então, essa seguia sendo a meta vigente durante as negociações climáticas na ONU: no ano passado, a COP30, conferência do clima realizada em Belém, terminou com uma resolução para “manter o 1,5°C sob o alcance”.
Já em 2024, porém, as temperaturas das superfícies globais registraram uma média de 1,55°C, fazendo desse o ano mais quente já registrado, e o primeiro a ultrapassar o marco de 1,5°C. Sozinho, 2024 não derrubou o Acordo de Paris – a medida usada pelo tratado, afinal, leva em conta a média da temperatura global ao longo de vinte anos. Contudo, estimativas recentes das emissões globais de gás carbônico já indicavam que, no ritmo atual, o planeta logo ultrapassaria a fronteira traçada pelo acordo.
No novo relatório, é a primeira vez que a ONU reconhece a meta de 1,5 °C como algo inviável. Intitulado “Limiting Overshoot”, o documento leva em conta a ultrapassagem do limiar, e propõe ações para mitigar seus efeitos, diminuindo ao máximo o tempo em que o planeta passará acima dos 1,5 °C.
Conforme o relatório, em um cenário onde as temperaturas globais chegam a um platô ao redor dos 1,8°C, seria possível recuar para os 1,5 °C até o fim do século, seguindo as projeções mais otimistas para as quedas de temperaturas.
“Com ações sem precedentes, é possível minimizar e nos adaptar aos impactos da ultrapassagem e retornar a 1,5 °C – o que manteria abertas as opções para proteger os mais pobres e vulneráveis, minimizar os danos à infraestrutura e aos meios de subsistência e apoiar as pessoas e a natureza”, afirma o relatório.
Para isso, seria necessário não apenas uma ação global para a transição da matriz energéticas em direção a fontes limpas e renováveis de energia, como também uma expansão de esforços para capturar e remover o gás carbônico da atmosfera – uma tecnologia que existe, e que vem crescendo, mas ainda está longe de comportar as bilhões de toneladas de CO² que precisariam ser retiradas anualmente da atmosfera.







