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Não somos os únicos: primatas também têm “animais de estimação”

Estudo reúne mais de 400 registros de macacos e símios que trocam afeto, brincam e até amamentam outras espécies.

Por Amanda Nascimento 19 ago 2026, 19h00
Não somos os únicos: primatas também têm “animais de estimação” Priorizar nos meus resultados Google

Parece que não somos os únicos que desfrutam da companhia de pets. Um estudo publicado no periódico Primates reuniu evidências que demonstram que primatas, como macacos e símios, cuidam, têm relações de afeto e até adotam animais de outras espécies. 

Na natureza, a convivência entre espécies costuma ter um propósito bem definido: defender-se de predadores e facilitar a busca por comida. Mas as situações descritas pelos pesquisadores desafiam essas regras. 

As evidências analisadas mostram primatas se relacionando com uma série de animais, incluindo lagartos, aves, cervos, cães e esquilos. As interações mais comuns, surpreendentemente, tratavam apenas de brincadeiras e de catação mútua – hábito de limpar uns aos outros. Na maioria dos casos as interações eram passageiras, mas, em algumas situações, a relação parecia reproduzir as dinâmicas de uma adoção.

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O comportamento, segundo os autores, é uma reflexão direta da relação que esses primatas mantêm com membros da própria espécie. Os jovens eram mais propensos a brincar com os animais de outras espécies, enquanto fêmeas adultas tendiam a amamentar animais adotados. Já os machos adultos foram os únicos a demonstrar indiferença, sendo até mesmo violentos algumas vezes.  

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E por que macacos e símios iriam querer adotar animais de estimação? Os pesquisadores suspeitam que a resposta seja a solidão. Assim como os humanos, estes primatas procuram pela companhia de outros indivíduos – seja para acompanhá-los nas tarefas higiênicas do dia a dia ou para se aninharem juntos. 

A gorila Koko, por exemplo, ficou famosa por ter um gato como “companheiro”. Entre outras classes de animais, há histórias de um elefante que fez amizade com um cachorro, um corvo que acolheu um gato e até um ganso que vive com uma tartaruga.

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As evidências mais antigas de humanos com animais de estimação datam 14.000 mil anos atrás, na Alemanha: um homem e uma mulher foram encontrados enterrados ao lado de seu cão. No entanto, é bem provável que essa relação tenha surgido antes desse período. (O grande exemplo é a domesticação dos lobos que ocorreu há mais de 15 mil anos. Aos poucos eles foram selecionados e deram origem aos cães). À medida que domesticamos animais, é provável que esta conexão tenha deixado de ser algo primordialmente utilitário para se tornar algo mais afetuoso.

Avistamentos na natureza

A ideia de estudar primatas que mantêm relações de afeto com outros animais surgiu quando Cyril Grueter, antropólogo biológico e primatologista da Universidade de Oxford e primeiro autor do estudo, visitava o Zoológico de Xangai, na China. Naquele dia, uma fêmea gibão capturou um pequeno rato, segurando e acariciando o bichinho em sua mão.

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Houve também outras ocasiões em que o pesquisador teve contato com esse comportamento. Ishe e Dembe, dois jovens chimpanzés-orientais, saltavam de galho em galho na copa da selva de uma reserva em Uganda, na África, quando Grueter se aproximou. O que aconteceu a seguir chocou o pesquisador: a dupla de chimpanzés se aproximou de um macaco-de-cauda-vermelha próximo, não com agressividade, como é comum entre os chimpanzés, mas com carícias. Ishe e Dembe começaram, então, a pentear o rabo do macaco.

Para ir além de exemplos isolados, Grueter e seus colegas foram atrás da literatura científica e consultaram primatologistas em busca de relatos semelhantes de primatas interagindo com outras espécies. O artigo resultante reúne 427 registros de 88 espécies de primatas. Os dados revelaram que todos os primatas, independentemente da espécie, apresentavam algum comportamento que poderia estar ligado à criação de animais de estimação.

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Os autores destacam que, para animais, não existe exatamente um equivalente à versão humana de “ter um animal de estimação”. O correto seria dizer que há a troca de afeto entre animais de diferentes espécies. 

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