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Marsupial que só existe no Rio de Janeiro é descoberto por alunas da UFRJ

Mamífero pesa apenas algumas dezenas de gramas e vive escondido nos últimos refúgios florestais da costa fluminense.

Por Luiza Lopes 13 Maio 2026, 19h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h35
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A Mata Atlântica é estudada há décadas por universidades e centros de pesquisa e, ainda assim, cientistas seguem encontrando espécies desconhecidas. 

Foi o que aconteceu no Rio de Janeiro, onde pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram um novo mamífero que vive escondido nos últimos refúgios florestais da costa fluminense.

O animal recebeu o nome de cuíca-de-três-listras-do-Rio de Janeiro. Seu nome científico é Monodelphis semilineata, e ele acaba de ser oficialmente descrito em um estudo publicado no periódico Journal of Mammalogy.

A descoberta foi feita por duas ex-alunas de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC/UFRJ), Isabelle Chagas Vilela Borges e Carina Azevedo Oliveira Silva, junto ao orientador delas, o pesquisador Pablo Rodrigues Gonçalves.

A nova espécie pertence ao grupo dos marsupiais, uma infraclasse que também abriga os gambás e cangurus. Diferentemente dos parentes mais conhecidos, porém, a cuíca é pequena: pesa apenas algumas dezenas de gramas, tem olhos diminutos, focinho fino e se alimenta principalmente de insetos.

A nova espécie vive em áreas remanescentes de Mata Atlântica na Baixada Litorânea e no Litoral Norte do estado do Rio. São regiões bastante alteradas pela ocupação humana, cortadas por estradas e cercadas por empreendimentos industriais.

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Segundo Isabelle, autora principal do estudo, uma das pistas que ajudaram a diferenciar a espécie foi justamente a aparência do animal.

“O nome científico semilineata significa ‘meio-listrada’, pois diferente de seus parentes mais próximos, a listra preta do meio das suas costas é mais curta e desaparece antes de chegar ao focinho”, explicou a pesquisadora em comunicado.

Ela afirma que essa característica, junto com diferenças anatômicas no crânio e nos dentes, permitiu separar a nova espécie de uma parente próxima, chamada Monodelphis iheringi. As duas podem viver nas mesmas regiões do estado.

Espécie antiga

O trabalho começou durante o mestrado de Isabelle, atualmente doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biologia Evolutiva da UFRJ. Além da comparação física entre os animais, os pesquisadores também recorreram a análises genéticas para entender a história evolutiva da espécie.

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Os testes com DNA indicaram que a cuíca-de-três-listras-do-Rio de Janeiro surgiu há cerca de 1,78 milhão de anos, durante o Pleistoceno, período marcado por mudanças climáticas sucessivas no planeta. 

Embora o Sudeste brasileiro não tenha sido coberto por geleiras, como aconteceu em partes da Europa e da América do Norte, as oscilações de temperatura e umidade alteraram profundamente a paisagem da Mata Atlântica. 

Em fases mais frias e secas, as florestas encolhiam e davam lugar a áreas abertas de vegetação rasteira; nos períodos mais quentes e úmidos, a mata voltava a avançar. Para os pesquisadores, esse vai e vem climático ajudou a isolar populações de animais nas planícies costeiras do Rio de Janeiro, favorecendo o surgimento de novas espécies ao longo de milhares de anos.

Além disso, segundo Gonçalves, “seu tempo de origem coincide com o de outros mamíferos famosos e ameaçados das planícies costeiras, como o mico-leão-dourado e a preguiça-de-coleira-do-Sudeste. Isso reforça a ideia de que estas planícies funcionaram como um ‘berçário’ evolutivo único no passado”, ressaltou em nota.

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A descoberta também acendeu um alerta sobre conservação ambiental. Isso porque, até agora, a espécie não foi registrada em unidades de proteção integral, como parques nacionais ou reservas biológicas.

Segundo Carina, isso torna o animal vulnerável, “especialmente tendo em vista que os fragmentos onde ele ocorre são vizinhos a grandes empreendimentos industriais, como o Terminal Cabiúnas de Óleo e Gás, e a rodovias de fluxo intenso, como a BR-101”, disse em comunicado.

Para os autores, o caso mostra que ainda existem lacunas importantes no conhecimento sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, mesmo em regiões consideradas amplamente estudadas.

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O bioma é um dos mais biodiversos do planeta, mas também um dos mais devastados. Restam cerca de 12% de sua cobertura original, distribuída em fragmentos isolados. Muitos desses trechos sobrevivem próximos a cidades, estradas e polos industriais – exatamente o tipo de ambiente onde a nova cuíca foi encontrada.

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