Oferta Relâmpago: Super por 7,99

Humanos tendem a andar no sentido anti-horário. Por quê?

Independente de idade, gênero, cultura ou mão dominante, pessoas viram mais para a esquerda enquanto andam – e especialistas ainda tentam explicar o fenômeno.

Por Diego Facundini 17 jun 2026, 10h00
Humanos tendem a andar no sentido anti-horário. Por quê? Priorizar nos meus resultados Google

Sejam crianças ou adultos, destros ou canhotos, espanhóis ou japoneses – quase todo mundo tem, mesmo sem saber, um profundo viés à esquerda.

Isto é, pelo menos na caminhada. De acordo com um novo estudo publicado no periódico Nature Communications, pessoas tendem a virar no sentido anti-horário enquanto caminham.

Essa preferência, conforme mostram os experimentos, parece ser generalizada, persistindo independentemente de fatores culturais, do tamanho do grupo, do gênero dos participantes, da mão dominante ou mesmo da faixa etária – ainda que, entre pessoas mais novas, a preferência pela esquerda pareça ser ainda mais forte.

A causa desse viés ainda é um mistério. De acordo com os autores, os achados podem desafiar os atuais consensos sobre como dinâmicas sociais podem influenciar o movimento de pedestres.

Meditação realmente “limpa” o cérebro, revela estudo

Continua após a publicidade

Lado a lado

O padrão foi observado pela primeira vez durante a pandemia da Covid-19, em um experimento que, na verdade, pouco tinha a ver com a direção do andar. Na esteira das medidas de isolamento social, agências de saúde ao redor do mundo passaram a recomendar que as pessoas mantivessem entre si uma distância mínima de dois metros, uma medida então considerada eficaz para conter a transmissão da doença (hoje, sabemos que a Covid-19 é em grande parte transmissível pelo ar, o que complica as coisas).

A principal tarefa, porém, era garantir que as pessoas realmente seguiriam a recomendação em espaços públicos. Na época, pesquisadores da Universidade de Navarra, na Espanha, reuniram um grupo de voluntários para descobrir quantas pessoas poderiam compartilhar um mesmo ambiente sem romper com a distância segura.

Olhando bem para as gravações, os pesquisadores notaram, muito por acaso, que as pessoas que estavam em movimento geralmente pendiam para o sentido anti-horário quando mudavam de direção. Essa preferência, como constataram, ficou clara em 32 dos 33 testes experimentais.

Continua após a publicidade

“Isso foi completamente inesperado, pois, pelo menos intuitivamente, quando as pessoas caminham de maneira aleatória, você imagina que elas virariam conforme acham melhor, sem qualquer sinal de uma preferência geral. Mas havia uma tendência clara e mensurável de virar mais no sentido anti-horário do que no sentido horário, mantendo-se todas as demais condições iguais”, afirma, em comunicado, Claudio Feliciani, professor da Universidade de Tóquio e um dos autores do novo estudo.

“Em princípio, não há razão para o fato de que as pessoas preferem virar no sentido anti-horário”, disse o coautor Iker Zuriguel, da Universidade de Navarra, para o New York Times. “Ainda assim, é evidente que elas preferem.”

A literatura científica apontou para algumas possíveis explicações. Em primeiro lugar, um estudo anterior feito com destros e canhotos havia demonstrado que, quando defrontadas com uma parede, pessoas destras costumam se afastar do obstáculo virando para a esquerda, enquanto canhotos fazem o caminho oposto.

Continua após a publicidade

A maioria dos participantes do primeiro experimento eram destros, então, para os pesquisadores, isso possivelmente já mataria parte da charada. Para testar essa hipótese, eles replicaram o teste da parede com 50 participantes e, com base na direção para a qual se viraram, criaram dois grupos separados – os que viraram para a esquerda e os que viraram para a direita. Ainda assim, quando caminhavam livremente por um local aberto, ambos os grupos penderam para o sentido anti-horário.

Os resultados deixaram os especialistas com ainda mais perguntas. “A equipe precisava entender a razão disso e toda boa prática científica determina que observações sejam testadas contra múltiplas causas possíveis para restringir o que realmente está acontecendo”, explica Feliciani. Então, os pesquisadores elaboraram mais cinco testes, um para cada possível fator que explicaria esse comportamento.

Primeiro, eles analisaram o movimento de 107 pré-adolescentes em um pátio escolar completamente aberto, sem nenhuma parede que entrasse no meio do caminho. Mas, novamente, o viés à esquerda persistiu. Ainda era possível, porém, que o comportamento se tratasse de um fenômeno emergente, isto é, um fenômeno no qual o comportamento independente de vários indivíduos dá forma a um comportamento coletivo. Mas não: mesmo quando os participantes estavam sozinhos, a maioria girava em sentido anti-horário.

Continua após a publicidade

Talvez a resposta estivesse, então, na cultura. Por exemplo, em países onde os veículos avançam pelo lado direito da rua, a tendência é que o fluxo de pedestres na calçada assuma espontaneamente o mesmo sentido – e vice-versa. Todos os experimentos até então haviam sido feitos na Espanha, onde a circulação do tráfego ocorre pelo lado direito. Os resultados mudariam, então, em um país de mão invertida?

Para testar essa hipótese, os pesquisadores replicaram os mesmos experimentos no Japão, onde o costume é caminhar pelo lado esquerdo das calçadas. A expectativa era de que os resultados fossem exatamente os opostos dos obtidos na Espanha; mas, para a surpresa dos especialistas, as pessoas continuavam virando para a esquerda, independentemente das diferenças culturais.

Seria essa preferência, então, algo adquirido com o tempo? Olhando para os esportes, por exemplo, circuitos de corrida geralmente são percorridos em sentido anti-horário. É possível, portanto, que a exposição a convenções assim influenciasse a direção para qual as pessoas se viram depois de adultas.

Continua após a publicidade

Um jeito de testar isso seria analisar o movimento de crianças bem pequenas, que não tiveram tempo o suficiente para absorver essas normas. Os autores recorreram, então, a gravações de um experimento passado, feito com 52 crianças japonesas no jardim de infância. As crianças pequenas, para a surpresa de mais ninguém, também acabaram pendendo para a esquerda. Não só isso: entre os mais jovens, a tendência era ainda mais pronunciada.

“Provavelmente isso não vem dos olhos, porque testamos cobrir o olho esquerdo ou direito das pessoas e a tendência continuou presente. Algumas pessoas nos perguntaram se isso poderia estar relacionado a fenômenos de grande escala, como a força de Coriolis ou o campo magnético da Terra, mas isso parece improvável com base no que conseguimos apontar até agora”, afirma Feliciani.

Os achados levam os especialistas a suspeitarem que o viés anti-horário dos humanos poderia ser, no fim das contas, uma manifestação de um princípio biológico ainda mais profundo que quebra a simetria do movimento. O próximo passo para o grupo de pesquisadores será focar em experimentos individualizados, para explorar, justamente, essa possível dimensão biomecânica por trás do fenômeno.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner laranja com ícone de árvore e raio, texto OFERTA RELÂMPAGO Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas Superinteressante e Veja, e um celular com aplicativo de notíciasBanner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em destaque, acompanhado de um ícone de raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: Super, Veja e uma menor, Guia Quatro Rodas. No canto superior direito, um ícone de árvore estilizada
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Premium

Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 2,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 63% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$2,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).