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Esse polvo azul descoberto nas Ilhas Darwin cabe na palma da mão

Em 2015, cientistas avistaram um pontinho azul no fundo do mar nas Ilhas Galápagos. Tratava-se de uma simpática nova espécie de polvo, que, agora, acaba de ser descrita pela primeira vez.

Por Diego Facundini 27 Maio 2026, 12h05
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Nas profundezas das Ilhas Galápagos, quase dois quilômetros abaixo do nível do mar, mora um pequenino polvo azul, tão grande quanto uma bolinha de golfe.

Cientistas acabam de anunciar a descoberta do Microeledone galapagensis, uma espécie de polvo nunca antes identificada. Em artigo publicado nessa segunda-feira (25) no periódico Zootaxa, os pesquisadores descreveram pela primeira vez o animal encontrado nas Ilhas Darwin – outro nome para o arquipélago cuja diversidade de criaturas inspirou a teoria evolutiva do biólogo Charles Darwin. O molusco, os autores escrevem, é “baixo, atarracado” e tem “braços curtos”.

Os pesquisadores responsáveis pela descoberta avistaram o simpático animal ainda em 2015, durante uma expedição a bordo do navio oceanográfico E/V Nautilus. De dentro da embarcação, eles utilizavam a câmera de um submarino remoto para observar a vida marinha da região no Oceano Pacífico, a cerca de mil quilômetros da costa da América do Sul.

O primeiro encontro aconteceu a 1.773 metros de profundidade, quando um pontinho azul na areia chamou a atenção dos cientistas. Em um dos registros do momento divulgados junto ao artigo, uma pesquisadora comenta: “ele é pequenininho!”. Para o que outra comenta: “Ele é azul!”. Em outro vídeo, um dos cientistas brinca: “É ou não é um carinha simpático?”.

O espécime foi prontamente sugado pelo tubo do veículo e transferido para um balde com água fria do mar. Depois, o corpo foi fixado com formalina, e armazenado transferido para a solução com etanol. Esse é o procedimento padrão em expedições de coleta, que permite a preservação do animal para análises futuras.

O polvo continuaria guardado por um tempo. Em 2017, a bióloga Janet Voight, especialista nos octópodes, recebeu o convite para analisar o animal, junto de uma fotografia do espécime. “De cara, eu sabia que se tratava de algo especial”, disse, em nota. “Eu nunca tinha visto nada parecido”.

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Olhando para a foto, sua primeira impressão foi a de que a espécie pertenceria ao gênero Thaumeledone, que engloba alguns polvinhos de águas profundas encontrados no hemisfério sul do planeta. Mas ela só teria certeza olhando para os órgãos internos.

Em 2022, Voight finalmente pode colocar as mãos no bicho. O espécime era de fato único. Tão único que dificultou a análise. “Quando se descreve uma nova espécie de polvo, você precisa examinar todas as partes, incluindo a boca, o bico e os dentes. E, para ver essas estruturas, você precisa dissecar o espécime. Nós só tínhamos um único exemplar, então eu não queria desmontá-lo”, disse a especialista.

Por sorte, Janet Voight também é curadora do Museu Field de História Natural, em Chicago, onde um sistema de tomografia computadorizada por raio-X havia acabado de ser instalado. Essa tecnologia é capaz de criar um modelo 3D do espécime com base em leituras de raios X feitas em fatias. Ou seja, os cientistas poderiam analisar o animal pelo modelo no computador, sem dissecar o corpo real.

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“Isso é ótimo para mim, porque as pessoas frequentemente me trazem espécimes incrivelmente raros e extraordinariamente belos, que eu tenho o privilégio de abrir virtualmente”, relatou, também em nota, Stephanie Smith, responsável pelo laboratório de tomografia computadorizada do museu.

Dessa forma, as pesquisadoras conseguiram observar os órgãos internos do pequeno molusco. Algumas coisas a hipótese inicial da cientistas: assim como nos moluscos do gênero Thaumeledone, as ventosas dos tentáculos do polvinho azul seguiam um padrão de zigue-zague.

Da mesma forma, o espécime também carecia de uma bolsa de tinta – algo comum entre as espécies de águas mais profundas, já que despistar predadores usando tinta se torna redundante na escuridão do fundo do mar.

Mas havia diferenças. A pele não era saliente igual em outras espécies daquele gênero, tampouco tinha o mesmo tom pálido de bordô. O espécime era lisinho e branco (tanto que acabou colorido de azul pela luz da câmera submarina).

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Já o sifão – um tubo muscular que os polvos usam para se disparar rapidamente para longe de predadores, sugando e cuspindo água – também era diferente. Nos Thaumeledone, esse órgão conta com uma pequena glândula de saliva, mas essa mesma glândula era enorme no espécime. Além disso, ao invés de sete dentes, o polvinho tinha apenas um.

Os cientistas concluíram, então, que a espécie pertencia a outro gênero de moluscos das profundezas: Microeledone. Foi batizada Microeledone galapagensis, 11 anos após seu primeiro avistamento. Um tempo até curto para a descrição de uma espécie, tendo em vista que, em média, descobrimentos tendem a levar 21 anos. Essa também foi a primeira espécie descoberta por uma equipe de cientistas liderada por Janet Voight, após uma carreira de quatro décadas.

Em comunicado, a pesquisadora Simone Buglass comenta: “descobertas como essas nos lembram do quanto as profundezas oceânicas das Galápagos ainda permanecem inexploradas. Cada nova espécie nos ajuda a compreender melhor esses ecossistemas ocultos e por que é importante protegê-los.”

A vida no oceano continua sendo um grande mistério para a ciência. Estimativas apontam que cerca de 91% das espécies existentes no oceano ainda não foram descobertas – ou seja, 86% das espécies do planeta inteiro.

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O polvinho “azul” é o primeiro polvo de águas profundas descoberta no Pacífico Equatorial oriental. À revista Time, Voight afirma que “ele representa tudo aquilo que existe nas profundezas do mar e que sequer sabemos que existe. Falamos sobre mineração em águas profundas, mas não sabemos o que há lá, e estamos colocando tudo isso em risco”.

 

 

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