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Alto teor de cocaína: lagoa em Santa Catarina tem uma das maiores taxas do mundo

Cafeína, antibióticos e outros medicamentos também foram encontrados na Lagoa da Conceição, cartão postal de Florianópolis.

Por Bela Lobato
17 fev 2025, 19h00

A Lagoa da Conceição, em Florianópolis, Santa Catarina, é um cartão postal da cidade. É o ponto de partida para passeios de barco para ilhas próximas e reúne restaurantes na margem das águas azuis. A água é rasa e calma, ideal para a prática de esportes como caiaque e stand-up paddle, embora nem todos os pontos sejam apropriados para banho.

A Lagoa já enfrentava questões anteriores com a qualidade da água, mas um novo estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) elevou o nível da preocupação. Os pesquisadores encontraram 35 tipos de contaminantes na Lagoa da Conceição, provavelmente oriundos de esgoto doméstico.

Cafeína, diferentes tipos de medicamentos antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos estão entre os elementos identificados pela equipe. Mas uma substância chamou a atenção: a cocaína. Os pesquisadores ainda não divulgaram dados específicos sobre a concentração da droga, que deve ser tema de um artigo específico em um futuro próximo.

“Esse é um resíduo comum na América Latina, mas essa quantidade foi bastante expressiva”, afirmou, em comunicado, Silvani Verruck, professora da UFSC que liderou o estudo. “As concentrações estão entre as mais altas reportadas no mundo”.

Derivados e metabólitos da cocaína foram encontrados em 63% das amostras analisadas, sugerindo uma presença significativa e consistente no ambiente. Entre os pesquisadores da UFSC, estavam alguns que participaram do estudo que constatou a presença de cocaína em tubarões da costa brasileira.

A pesquisa em Florianópolis começou após um acidente de grandes proporções que ocorreu em 2021, quando a lagoa de tratamento se rompeu, inundando casas e ruas com esgoto sanitário. O estudo faz parte do Programa de Recuperação Ambiental proposto pela Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) como forma de compensar as consequências do desastre.

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Assim, a ideia é avaliar e sugerir formas de mitigar o impacto ambiental do acidente, assim como do aumento do turismo. “Existem regiões em que a biota natural se alterou fortemente por conta disso”, comenta Verruck. 

Foi por isso que a equipe escolheu analisar contaminantes menos estudados. Ao invés de procurar por metais pesados e agrotóxicos, os pesquisadores analisaram os contaminantes emergentes: substâncias de uso diário, como cosméticos, medicamentos e produtos de higiene pessoal.

Para detectar os contaminantes, o estudo utilizou um método inovador, capaz de identificá-los 165 contaminantes de uma vez só. A cafeína foi o elemento em maior concentração, seguida pelos antibióticos ciprofloxacina e clindamicina e o anti-inflamatório diclofenaco.

As concentrações são medidas em nanogramas – um bilionésimo de grama – mas ainda causam preocupação, uma vez que não há limites bem definidos para a segurança da exposição. As contaminações podem ter efeitos diretos na vida dos humanos em contato com a água, mas também efeitos mais indiretos e difíceis de mensurar.

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Isso porque a contaminação pode chegar às plantas e animais aquáticos – como foi o caso dos tubarões na costa do Rio de Janeiro. Na Lagoa da Conceição, as concentrações de diclofenaco e cafeína revelaram riscos altos para os animais, que podem sofrer tanto com quadros agudos quanto com quadros crônicos.

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A ciprofloxacina foi encontrada em seres vivos coletados pelo estudo, mas as concentrações encontradas nos peixes não representam um risco significativo para a saúde humana.

Mesmo assim, o estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, adverte que “é crucial monitorizar continuamente a acumulação destes compostos em alimentos amplamente consumidos pela população local para avaliar potenciais impactos na saúde humana”.

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Os níveis de poluição são ainda maiores próximo a estação de tratamento da Lagoa de Evapo Infiltração da Casan. “Precisamos olhar para essas moléculas de forma regulatória, chegando ao ponto de estabelecer limites claros para que não saiam das estações de tratamento em concentrações prejudiciais. O ideal é um acompanhamento regular para garantir que esses riscos sejam minimizados”, afirma Verruck.

O laboratório da UFSC que publicou o estudo também investiga soluções para aperfeiçoar o tratamento da água. Uma delas é o REACQUA, um sistema de tratamento de água que é capaz de eliminar uma série de contaminantes sem utilizar energia elétrica, apenas solar. 

Em teste piloto, o REACQUA foi capaz de eliminar todas as impurezas das amostras de água da Lagoa da Conceição. “Hoje, é possível fazer esse processo com utilização de membranas no final do tratamento, mas é algo caro e implica naturalmente num custo elevado”, explica Verruck. “Nossa proposta é tentar usar uma forma mais barata, por isso fizemos este teste em escala piloto.”

 

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