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A brilhante e tóxica vida sexual dos peixes-diabo

Você já quis se fundir com seu parceiro e nunca mais se separar? Bem-vindo ao relacionamento mais extremo do oceano.

Por Maria Clara Rossini 25 abr 2026, 16h00

O peixe-diabo é o principal personagem das profundezas do oceano. A aparência grotesca do animal ficou conhecida no filme “Procurando Nemo”, com seus dentes pontiagudos e um ponto de luz que sai da cabeça do bicho. “Peixe-diabo” ou “peixe-pescador” são nomes genéricos para a ordem dos Lophiiformes, que reúne 408 espécies de peixes ósseos.

A bioluminescência do peixe-diabo é usada para atrair presas na escuridão do fundo do mar, como iscas em uma vara de pesca. O brilho é produzido por bactérias simbióticas, que criam um microbioma próprio dentro da cavidade que funciona como uma lâmpada. Em um novo estudo publicado no periódico Ichthyology & Herpetology, pesquisadores sugerem que essa luz teria um segundo propósito: atrair parceiros sexuais.

Em alguns Lophiiformes, é fácil diferenciar as fêmeas dos machos. Enquanto elas são grandes e emitem luz, eles são menores e navegam as profundezas sem a lamparina acoplada. O estudo sugere que as fêmeas usam a luz para atrair os machos, uma estratégia evolutiva que pode ter dado origem a diferentes espécies. 

O artigo analisou espécies extintas e vivas de peixes-diabo. As primeiras iscas no corpo desses animais surgiram há 72 milhões de anos: eram estruturas simples que podiam ser balançadas, mas não emitiam luz. Foi entre 34 e 23 milhões de anos atrás que os peixes-diabo passaram a habitar águas mais profundas, e desenvolveram a relação simbiótica com as bactérias bioluminescentes. A isca ascendeu. 

Essa é a primeira fake news da história

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Os machos das profundezas possuem estruturas para detectar feromônios e grandes olhos – possivelmente para encontrar o brilho das fêmeas. Segundo o estudo, novas espécies passaram a surgir de duas a três vezes mais rápido após o desenvolvimento da luminescência.

Mas o que acontece depois que o macho finalmente encontra o brilho de uma fêmea? O casamento desses peixes se desenrola em um filme de terror.

Parasitismo sexual

Em algumas espécies, como Melanocetus johnsonii (peixe-diabo negro) e Ceratias holboelli, o macho não tem senso de espaço pessoal. Ele se acopla à fêmea e passa a se alimentar do seu sangue, em uma relação chamada “parasitismo sexual”.

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Primeiro, o macho (que pode ser 60 vezes menor que ela) morde o corpo da fêmea. Aos poucos, sua boca se dissolve e seus tecidos se fundem com os dela. Não existe mais individualidade de sua pele ou órgãos internos: ele abre mão de tudo para se mesclar com a amada. No ápice desse processo, os dois dividem o mesmo sistema circulatório. Todos os nutrientes que ela ingere também vão para ele.

Para o macho, a vantagem é não precisar mais buscar por alimento na escuridão do mar. Já a fêmea ganha um saquinho de espermatozoides portátil. Para que ocorra a fecundação, os dois liberam seus gametas na água.

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Em algumas espécies, a fêmea pode carregar mais de um macho em seu corpo. Mesmo após a reprodução, não há divórcio: eles permanecem fundidos pelo resto da vida. Até que a morte os separe.

Fotografia de um anglerfish.
Macho de peixe-diabo (Ceratias holboelli) acoplado na barriga de uma fêmea (Reprodução/Wikimedia Commons)

Essa dinâmica sexual não existe em nenhum outro animal na natureza. O principal problema dessa estratégia é que cada organismo tem um sistema imunológico distinto, treinado para atacar corpos estranhos. Uma fusão de organismos, então, seria letal para o casal. Para contornar esse problema, os peixes-diabo abriram mão de partes importantes de seu próprio sistema imune, como anticorpos e células T.

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Segundo um artigo publicado no periódico Science em 2020, o parasitismo sexual evoluiu mais de uma vez entre os peixes-diabo. O relacionamento tóxico, então, é eficaz para a sobrevivência das espécies.

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