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Por que a ciência começou a levar o RPG a sério

Entenda como jogos de interpretação podem ajudar a psicologia a entender comportamento, identidade e tomada de decisões.

Por Manoel Acioli 24 mar 2026, 08h01 • Atualizado em 24 mar 2026, 14h54
  • Nos últimos anos, algo curioso começou a acontecer fora dos consultórios de psicologia e dentro das mesas de jogo.

    Psicólogos, educadores e pesquisadores passaram a olhar com mais atenção para uma prática antiga entre fãs da cultura geek: o RPG, sigla em inglês para jogos de interpretação de papéis. Trata-se de um jogo narrativo colaborativo em que um grupo de pessoas cria personagens fictícios e vive uma história construída coletivamente.

    No RPG, um dos participantes assume o papel de narrador, geralmente chamado de “mestre”, e descreve o cenário, os desafios e os acontecimentos. Os demais jogadores dizem o que seus personagens fazem diante dessas situações.

    As ações não são totalmente livres. Existem regras que organizam habilidades e, frequentemente, utiliza-se dados para determinar resultados quando há incerteza. Não há vencedores individuais. O objetivo é desenvolver a narrativa por meio de decisões, cooperação e enfrentamento de conflitos dentro da história. E é essa estrutura que despertou o interesse científico.

    Do ponto de vista psicológico, o que acontece em uma mesa de RPG não é apenas entretenimento. É tomada de decisão sob incerteza, negociação social, regulação emocional e enfrentamento simbólico de conflitos. O jogo cria um ambiente estruturado no qual comportamento, emoção e cognição se tornam observáveis em ação. O que, à primeira vista, parecia apenas lazer passa a funcionar como uma tecnologia psicológica.

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    Quando falamos em tecnologia, pensamos em aplicativos ou IA. Na psicologia, porém, tecnologia é qualquer estrutura criada para organizar pensamento, emoção e comportamento. A escrita é uma tecnologia. A linguagem é uma tecnologia. A psicoterapia, também. O RPG entra nessa categoria porque oferece um sistema estruturado de imaginação, com regras, papéis, objetivos, obstáculos e consequências claras. O jogador não apenas fantasia. Ele decide, negocia, assume riscos e lida com os efeitos das próprias escolhas. A imaginação deixa de ser fuga e se torna ensaio para a ação.

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    Consolidação científica e modelos estruturados

    Nos últimos anos, esse interesse ganhou forma mais sistemática. Pesquisas vêm formalizando modelos clínicos estruturados com o uso do RPG. Um marco relevante foi a publicação de obras que organizam fundamentos teóricos e diretrizes práticas para sua aplicação terapêutica. Entre elas, destaca-se Tabletop Role-Playing Therapy, de Megan Connell; o desenvolvimento do método TA-RPG, estruturado pela Dra. Elizabeth Kilmer, da University of North Texas, em parceria com a organização norte-americana Game to Grow; e a coletânea Role-Playing Games in Psychotherapy: A Practitioner’s Guide, publicada pela Springer em 2023 e 2024, além de manuais discutidos por clínicos e pesquisadores vinculados à American Psychological Association (APA).

    Essas iniciativas não apenas descrevem experiências clínicas, mas sistematizam procedimentos, diretrizes éticas e formas de condução terapêutica. Ao mesmo tempo, pesquisas empíricas têm sustentado os avanços conceituais. Estudos indicam que a imaginação é uma das formas mais sofisticadas que o cérebro possui para ensaiar ações, regular emoções e testar possibilidades.

    Antes de agir, simulamos. Antes de escolher, projetamos cenários possíveis. O RPG transforma esse processo interno em experiência compartilhada. O que normalmente ocorre dentro da cabeça passa a acontecer na mesa, com regras claras e feedback constante. Isso altera a qualidade do aprendizado.

    Da prática clínica à sistematização

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    Eu comecei a utilizar o RPG na prática clínica durante a pandemia. Com o atendimento migrando para o formato online e sem o recurso da sala infantil presencial, surgiu uma pergunta prática: como manter o engajamento terapêutico com crianças à distância?

    Decidi, então, experimentar algo que já conhecia fora do consultório (os jogos de RPG) como forma de abordar questões delicadas de maneira lúdica, estruturada e segura. O resultado foi surpreendente.

    Por meio da narrativa, as crianças conseguiam falar sobre medos, conflitos familiares e inseguranças de forma mais espontânea. A fantasia funcionava como mediação simbólica potente. Não era apenas brincadeira, mas organização emocional em forma de história.

    A partir dessa experiência, passei a investigar o tema. Durante o pós-doutorado, aprofundei-me nas bases cognitivas, comportamentais e emocionais que sustentavam o que eu observava na prática. O passo seguinte foi testar a aplicação com adultos. Para minha surpresa, o formato revelou-se ainda mais rico. Com os mais velhos, o RPG tornava visíveis padrões de decisão, estratégias de enfrentamento, rigidez cognitiva e dificuldades de regulação emocional com clareza significativa.

    Foi nesse processo que desenvolvi o que denominei Terapia de Imersão Imaginativa, também conhecida como RPG Terapia. Trata-se de um modelo estruturado que integra princípios das Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC) com jogos narrativos, utilizando personagens e cenários simbólicos como ferramentas para observar, ensaiar e reorganizar padrões de comportamento em tempo real. As sessões podem ser individuais ou em grupo.

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    Para além do autorrelato

    O RPG extrapola o modelo clássico de autorrelato que domina grande parte das terapias tradicionais. Em vez de depender apenas do que o paciente conta sobre si mesmo, o jogo cria um contexto no qual é possível observar diretamente como ele age, decide e reage diante de situações desafiadoras.

    Ao entrar em jogo com o paciente, o terapeuta não está apenas ouvindo narrativas retrospectivas, está acompanhando escolhas em tempo real. Como a pessoa lida com a frustração? Ela evita conflitos ou os enfrenta impulsivamente? Negocia, paralisa, ataca, recua? Essas respostas aparecem de forma espontânea na dinâmica do jogo, organizadas em cenas e decisões concretas.

    Nesse sentido, o RPG funciona como um laboratório comportamental simbólico. Ele recria, em forma narrativa, dilemas que a pessoa enfrenta fora do consultório, mas com uma vantagem crucial: as consequências são exploráveis. Cada ação gera efeitos claros dentro da história, permitindo que o paciente vivencie os resultados de suas escolhas sem os custos da vida real.

    Isso amplia de forma significativa as possibilidades interventivas. O terapeuta pode ajustar o cenário, modular desafios, introduzir obstáculos ou recursos e observar como o paciente responde a essas variações. O jogo se torna um espaço de experimentação controlada, onde hipóteses clínicas podem ser testadas, refinadas ou revistas à luz do comportamento observado e não apenas do discurso.

    Do ponto de vista diagnóstico, esse formato enriquece a compreensão do funcionamento psicológico. Padrões que podem passar despercebidos no autorrelato, como rigidez, evitação, dependência, impulsividade ou dificuldade de mentalização, tornam-se visíveis quando a pessoa precisa agir. O que emerge não é uma descrição sobre si mesmo, mas um modo de funcionamento em ação.

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    Quando o jogo vira ferramenta aplicada

    Por isso, nos últimos anos, práticas clínicas, educacionais e de pesquisa passaram a usar jogos narrativos de forma intencional, como ferramenta estruturada para promover reflexão, desenvolvimento de habilidades e reorganização de padrões de comportamento. O RPG ensina algo fundamental: escolhas importam. Não existe caminho ideal garantido. Cada decisão carrega ganhos e perdas. Games populares como Dungeons and Dragons podem ser adaptados, embora frequentemente exijam simplificações. Em alguns contextos, desenvolvem-se sistemas específicos para fins terapêuticos. O ponto central não é o sistema em si, mas a estrutura: narrativa colaborativa, decisão sob incerteza, consequências claras e reflexão posterior.

    Esse tipo de aprendizado é profundo porque não vem de uma explicação teórica, mas da experiência vivida dentro da narrativa, e aprender com consequências, nesse contexto, deixa de ser uma ideia abstrata. O paciente não apenas fala sobre escolhas; ele as vive. E é justamente essa vivência simbólica, organizada e observável que transforma o RPG em uma ferramenta clínica singular: um espaço onde comportamento, emoção e cognição podem ser compreendidos e transformados em tempo real.

    O personagem como protótipo cognitivo 

    Todo jogador cria um personagem. E, mesmo sem perceber, coloca nele traços pessoais: valores, medos, desejos, impulsos. Às vezes, o personagem é parecido com quem joga. Outras vezes, é o oposto. Em ambos os casos, o personagem vira um modelo funcional para experimentar modos de agir no mundo. O que entra em cena são protótipos cognitivos: modelos mentais simplificados que o cérebro usa para organizar a experiência, antecipar ações e testar possibilidades.

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    Esse distanciamento simbólico é central na psicologia. Ao operar por meio de um protótipo, a pessoa consegue observar seus próprios padrões de decisão e resposta emocional “de fora”, sem o peso imediato da autocrítica. Fica mais fácil identificar tendências como impulsividade, evitação ou rigidez quando elas aparecem organizadas no personagem e não coladas à identidade pessoal.

    Não por acaso, técnicas de role-playing e dramatização usam exatamente esse princípio há décadas: criar modelos cognitivos transitórios que permitam experimentar, revisar e reorganizar comportamentos de forma segura e reflexiva, como por exemplo, a técnica de role-play da TCC ou o psicodrama. A diferença é que a introdução da fantasia nesse processo cria uma nova camada de mediação. Em vez de trabalhar apenas com situações realistas do cotidiano, a fantasia permite deslocar conflitos para cenários simbólicos, onde eles podem ser explorados com mais liberdade.

    O processo em ação

    Imagine uma sessão individual. O paciente é um jovem adulto com dificuldade significativa de assertividade e medo intenso de conflito. A história se passa em uma cidade fictícia ameaçada por uma crise política. O personagem dele é o único que consegue dialogar com a líder da cidade. Surge um impasse: se ninguém negociar, o conflito escalará. O terapeuta descreve a cena. O paciente precisa decidir: fala ou se cala? Confronta ou evita? Pede ajuda? Ataca?  

    Ele decide falar. A voz treme. O grupo espera. A negociação começa. O terapeuta conduz a interação, criando obstáculos graduais, resistência, provocação, dúvida. O paciente testa estratégias ali mesmo. Ao final da cena, a narrativa pausa e a reflexão começa: o que você sentiu? O que imaginou que aconteceria? O que de fato aconteceu?

    O paciente não está apenas falando sobre sua dificuldade de assertividade. Ele está ensaiando assertividade em um ambiente simbólico estruturado. A experiência ativa emoção real, mas em um contexto seguro, onde o erro pode ser analisado e ajustado. É assim que o RPG, quando usado de forma estruturada, se transforma em um espaço de experimentação psicológica, tornando o comportamento visível em tempo real.

    É nesse momento que o jogo deixa de ser apenas história e se torna dado clínico, como descrito pela própria American Psychological Association (APA): o RPG funciona como simulação social estruturada, com engajamento emocional real, mas em ambiente seguro.

    Manoel Acioli é doutor em psicologia e especialista em terapias gamificadas e RPG terapia.

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