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Entenda o que é a “diplomacia dos pandas”

Esses gorduchos escaparam da extinção e se tornaram a principal face da luta pela conservação de animais ameaçados. Mas o envio dos ursos para zoológicos fora da China tem também uma face geopolítica.

Por Bruno Carbinatto
19 dez 2024, 10h00
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o ano de 685, a imperatriz Wu Zetian – única mulher a comandar a China Imperial em seus mais de dois mil anos de existência, conhecida por suas reformas e modernizações do governo chinês – decidiu enviar presentes para o imperador do Japão, a fim de estreitar a relação diplomática entre os dois países. O regalo escolhido consistia em dois “ursos brancos” vivos, além de 70 peles do mesmo animal.

Como você deve saber, não há ursos polares na China. O registro, então, provavelmente se refere ao envio de ursos pandas. Esse é possivelmente o episódio mais antigo registrado em que esses animais foram usados como agrados diplomáticos, para reforçar a amizade com nações aliadas.

Faz todo sentido, é claro. Há demonstração de amor maior do que dar de presente os gordos, extremamente fofos e raríssimos ursos preguiçosos e desengonçados? Desconhecemos.

A humanidade é obcecada por pandas desde a Antiguidade – alguns membros da realeza chinesa chegaram a ser enterrados junto com os ossos desses bichos. Hoje, eles estão por toda parte: em filmes, desenhos, pelúcias, broches e, claro, nos infinitos vídeos nas redes sociais que consistem em nada mais do que pandas comendo, caindo de árvores, rolando no chão e, bem, sendo fofos.

É uma expressão cultural e tanto para um animal que só existe em um pedacinho da China e que soma uma população de pouco mais de 2 mil indivíduos no mundo todo. É que, além de serem encantadores, os pandas se tornaram uma espécie de símbolo internacional da luta pela conservação das espécies. 

Ao redor do mundo, cientistas, ativistas, zoológicos, universidades e governos se uniram nas últimas décadas para salvar a espécie, no que, talvez, seja a colaboração internacional mais bem-sucedida da história do ambientalismo. Hoje, os pandas não estão mais em risco grave de extinção. E salvá-los não é uma cruzada inocente do governo chinês. 

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Milênios depois de Wu Zetian, o país ainda usa os seus ursos como uma ferramenta de soft power, enviando-os como presente em troca de alianças – e lucrando com isso. A política é tão cristalizada que ganhou um nome dos estudiosos das relações internacionais: “diplomacia do panda”. Vamos entender como ela se desenvolveu.

Ilustração, em fundo verde, de um chaveiro, um imã de geladeira e três fotos.
(Ana Kozuki/Superinteressante)

Come e dorme

Oito espécies de ursos compõem a família Ursidae. Entre todas, a Ailuropoda melanoleuca – o panda – foi a que se separou mais cedo do ancestral comum do grupo, há milhões de anos. Por isso, os comedores de bambu pretos e brancos são bastante diferentes de seus primos polares, pardos ou negros.

Uma diferença notável – e bastante curiosa – é a dieta. Enquanto os outros ursos são onívoros com preferência à carne (sim, o Pooh estava certo, eles também gostam de mel), a evolução fez dos pandas máquinas de comer bambu. A planta compõe 99% da dieta desses rechonchudos.

Suas patas têm uma estrutura visualmente semelhante a um polegar que ajuda a agarrar e arrancar os caules duros, além de dentes molares grandes e uma mandíbula forte para mastigá-los. Seu corpo consegue digerir o amido abundante da refeição e tem enzimas que metabolizam os compostos de cianeto do bambu cru, que são tóxicos. 

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Por outro lado, o sistema digestivo dos pandas é muito mais parecido com o de um carnívoro do que de um herbívoro. A comida passa pelo trato digestivo do urso em um período curto, de cerca de dez horas, enquanto as vacas, por exemplo, demoram 24 horas para transformar o mato em cocô – porque a digestão de plantas é mais demorada. Sem essa adaptação, pandas extraem relativamente poucos nutrientes do bambu, que já naturalmente contém pouca proteína. 

Para compensar a dieta pobre, os gorduchos vivem vida de glutão: passam entre 12 e 14 horas comendo, e o restante descansando. Seu metabolismo é lento, e eles não hibernam – afinal, não conseguem armazenar energia suficiente para isso.

Outra consequência é que pandas são especialmente sensíveis a mudanças ambientais: qualquer diminuição na área de floresta de bambu pode significar morrer de fome. Há milhares de anos, a espécie se estendia por todo o sudeste asiático; hoje, 99% de seu território original foi perdido devido ao desmatamento e à interferência humana. Agora, pandas existem em apenas seis pequenas regiões montanhosas no interior da China.

Os esforços conservacionistas só começaram na década de 1960, quando foram estabelecidas as primeiras reservas  nessas regiões para proteger o habitat dos poucos que sobravam. Foi também nessa época que os biólogos começaram a tentar produzir filhotes em cativeiro. Nas décadas seguintes, o panda se tornou até a logomarca da famosa ONG WWF – que escolheu o bicho não só porque seu carisma atraía o público para a pauta ambiental, mas também porque imprimir o desenho em preto e branco seria mais barato. 

Deu certo: a população total quase dobrou de 1.000 indivíduos nos anos 1980 para os quase 2.000 que existem agora. Em 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza retirou o selo de “ameaçado” para a espécie, classificando-a apenas como “vulnerável”.

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Infográfico, em fundo vpreto, sobre o aumento da população de ursos pandas.
(Arte/Superinteressante)

Duro de transar

Em números absolutos, ainda existem poucos pandas no mundo, é verdade. Mas a tendência de alta é clara, e cada nascimento deve ser comemorado como uma grande vitória. É que, quando o assunto é reprodução, esses ursos parecem desafiar completamente a lógica da natureza.

Na natureza, pandas são animais solitários, vivendo em seus próprios cantinhos delimitados e evitando contato com quaisquer outros seres. Os sexos opostos só se encontram na curtíssima temporada de reprodução: as fêmeas ficam férteis por um intervalo que dura entre um e três dias por ano.

Mantê-los em zoológicos, sob acompanhamento diário de veterinários, parecia um jeito óbvio de maximizar as chances de gravidez e evitar a extinção dos bichos. O problema? Pandas em cativeiro perdem totalmente o tesão – mesmo naqueles únicos três dias em que, teoricamente, os hormônios sexuais tomariam o controle dos bichos. 

O problema era tão grande que, no passado, cientistas chegaram a dar Viagra para pandas machos a fim de estimular o apetite sexual. Absurdo? Piora: pesquisadores também já tentaram excitar os bichos com pornô animal – sim, vídeos de pandas transando. Foi um fracasso total, claro (pandas são pouco visuais; hoje sabemos que o olfato tem um papel mais importante na excitação sexual).

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O jeito foi recorrer à inseminação artificial. Também não é um processo fácil: os machos são sedados e o esperma é retirado através da eletroejaculação, um método que estimula a próstata com choques para liberar amostras de sêmen. Depois, as fêmeas também são sedadas e o material é inserido. Às vezes, por conta da anestesia e dos procedimentos, os bichos acabam com efeitos colaterais indesejados.

Ilustração, em fundo laranja, de um chaveiro, dois imãs de geladeira e três fotos.
(Ana Kozuki/Superinteressante)

Para piorar, nem toda gestação dá certo. Muitas vezes o óvulo até é fertilizado, mas não se fixa no útero e o embrião não se desenvolve. Não é incomum que as fêmeas passem por uma pseudo-gravidez nesses casos, com todas as mudanças corporais esperadas de uma gestação normal, mas que, no fim, não resulta em nenhum filhote – porque nunca houve um.

Quando de fato os bebês nascem, são pequenos e frágeis – pesam só 90 gramas, apenas 1/800 do tamanho de suas mães, a menor proporção do tipo entre os mamíferos placentários. Os filhotes são deixados sozinhos por horas pelas pandas enquanto elas vão comer, e podem ser vítimas de predadores. Para piorar, cerca de metade das gestações resulta em gêmeos – mas, na natureza, um sempre está fadado a morrer, porque a mãe produz pouco leite devido à sua própria dieta pobre em nutrientes.

Foi por conta dessa dificuldade toda que se iniciou a colaboração internacional para procriar pandas: enviando bichos para vários zoológicos diferentes, a China maximizava as chances de nascimentos e, ao mesmo tempo, diluía os custos e o esforço dessa tarefa hercúlea. Além disso, cientistas de várias nações podiam compartilhar suas descobertas e técnicas para aumentar as chances de bebês saudáveis.

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Essa é a primeira faceta da “geopolítica dos pandas”: a científica. É ela que, oficialmente, justifica a presença de pandas na Austrália, na Alemanha e em Singapura, por exemplo. Para esses anfitriões, os pandas são hóspedes custosos. Além de uma taxa anual paga à China (mais sobre isso adiante), é preciso construir um recinto especial para os ursos e contratar ou treinar funcionários especializados. 

E, claro, é preciso alimentar os grandalhões: eles chegam a comer 40 kg de bambu fresco por dia. Muitos zoológicos, especialmente em países frios, precisam importar a comida. Os pandas custam até cinco vezes mais do que o segundo animal mais caro da lista, os elefantes. Não à toa, em 2020, o zoológico de Calgary, no Canadá, decidiu devolver seu casal de ursos à China três anos antes do fim do contrato. Em 2023, uma organização da Finlândia fez o mesmo.

Apesar disso, esses casos são exceções. O mais normal é que zoológicos ao redor do mundo briguem pela honra de abrigar os bichos, por um motivo simples: eles são ímãs de clientes. Por exemplo: quando um casal de pandas passou a ser exibido em Edimburgo, na Escócia, o número de visitantes do zoológico aumentou 51% nos dois anos seguintes.

Hoje, há 728 pandas em zoológicos e centros de reprodução ao redor do mundo, em mais de 20 países (a maioria, porém, ainda está na China).

Vai um panda aí?

Por trás da fachada da ciência se esconde a faceta diplomática dos pandas. Eles se tornaram um instrumento oficial de Estado para promover o soft power chinês após o início do regime comunista, em 1949. Nos anos seguintes, com a Guerra Fria, nações amigas receberam os ursões: dois foram para a União Soviética e cinco para a Coreia do Norte. Era preto no branco: ter um panda em seu zoológico era quase o mesmo que ser socialista.

O ano 1972 marcou uma guinada decisiva: Richard Nixon se tornou o primeiro presidente americano a visitar a China. Para selar a aproximação, Pequim enviou dois pandas a Washington, D.C., inaugurando uma tradição que se repetiria várias vezes nos próximos cinquenta anos. Na época, os EUA retribuíram o presente com dois bois-almiscarados. No total, entre 1957 e 1983, 24 pandas foram dados de presente para nove nações como gesto de amizade. 

Em 1984, o governo chinês mudou radicalmente sua política, notando que poderia conseguir ainda mais do que boas relações e soft power. A partir daquele ano, nenhum panda seria dado como presente. Os bichos passaram a ser objeto de contratos de aluguel temporários, de no máximo dez anos, com o pagamento de uma taxa anual a Pequim que pode chegar a US$ 1 milhão. Depois do prazo, os pandas voltam ao país asiático. Qualquer filhote nascido no exterior é considerado chinês e deve ser remetido ao país. 

Isso significa que, hoje, todos os pandas vivos são posse do governo chinês. Com exceção de uma: a mexicana Xin Xin, que descende de um casal enviado ao país na década de 1970, antes das novas diretrizes.

Ilustração, em fundo rosa, de uma máquina fotográfica e duas fotos.
(Ana Kozuki/Superinteressante)

Oficialmente, a justificativa por trás desses contratos de aluguel é financiar a conservação da espécie. O governo nunca admite que o envio dos pandas tem algo a ver com geopolítica. Mas esse é um fato, estudado até por especialistas em relações internacionais.

Uma pesquisa da Universidade de Oxford, por exemplo, concluiu que os contratos de empréstimo de pandas para o Canadá, França e Austrália coincidiram com acordos comerciais para o comércio de urânio (o país da Oceania é um dos maiores produtores da commodity do mundo). Os ursos também foram parar em Singapura, na Malásia e na Tailândia na mesma época em que esses países celebraram acordos comerciais com Pequim. 

Quando um terremoto abalou a região de Sichuan em 2008 e várias instituições de preservação da espécie foram danificadas, muitos países se ofereceram para abrigar os pandas – mas a China priorizou o envio justamente para os locais onde havia interesses comerciais.

Os pandas também são uma boa régua para determinar quando as relações azedam. Ao longo da década de 2010, a China e o Ocidente voltaram a rivalizar na economia e em suas zonas de influência, e os EUA se tornaram cada vez mais protecionistas com o crescimento econômico pujante do dragão asiático. 

Como consequência, a China passou a recusar novos contratos preto e branco com países como Reino Unido, Austrália, e, claro, com a terra do tio Sam – além de não renovarem os acordos ativos, obrigando que muitos pandas habituados aos seus zoológicos voltassem à Ásia. 

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No fim de 2023, após a saída dos ursos que viviam em Memphis, San Diego e Washington, só quatro pandas restavam nos EUA, todos no zoológico de Atlanta – e, como não havia nenhum sinal de renovação desse contrato, a mídia americana chegou a decretar que era o fim da era panda nos zoológicos ianques.

Em 2024, porém, os pandas fizeram um retorno triunfal ao país, após os governos Biden e Xi Jinping ensaiarem uma trégua nas relações. Novos casais chegaram a San Diego e Washington, e o zoológico de São Francisco assinou um contrato.

Pela primeira vez na história, o Brasil está perto do sonho do panda próprio. Há meses, autoridades dos dois países negociam um acordo para trazer os bichos para cá, mas ainda há entraves (lembre-se: o presente é bem caro). Uma ideia era que a medida fosse oficializada durante a vinda do presidente Xi Jinping ao Brasil em novembro deste ano, mas não rolou. Segundo uma apuração do Estadão, porém, a iniciativa não foi abandonada e as negociações continuam.

Novamente, tem tudo a ver com diplomacia: a ideia de mandar pandas para cá vem em meio a um contexto de aproximação dos Brics, o bloco de países emergentes que visa se contrapor à hegemonia ocidental nas relações internacionais.

Infográfico, em fundo vermelho, sobre o uso de ursos pandas para fins diplomáticos.
(Arte/Superinteressante)

Críticas

Com faceta política ou sem, não dá para negar: os esforços para salvar os pandas estão dando certo, e talvez sejam o melhor exemplo de conservação de espécies do mundo. Hoje, com os avanços da ciência, zoológicos e centros de reprodução na China e no exterior estão conseguindo altas taxas de sucesso na reprodução, e o número de bichos na natureza não para de crescer.

Mas há quem critique o modelo. Um fato notável é que pouquíssimos pandas que nasceram em cativeiro foram liberados de volta à natureza – o que era o objetivo original desses esforços. Ademais, nenhum dos poucos animais que voltaram ao seu habitat natural nasceu no exterior. Será sustentável que a espécie siga crescendo cada vez mais em zoológicos e centros de reprodução, sem que esses indivíduos consigam voltar a viver na natureza?

Outro ponto de crítica é que os pandas recebem atenção demais – justamente porque são fofos e dão vontade de apertar. Anfíbios e insetos menos carismáticos estão até mais ameaçados, mas acabam esquecidos pelo público e não atraem tantos recursos e esforços internacionais quanto os ursos.

Ilustração, em fundo rosa, de uma máquina fotográfica e duas fotos.
(Ana Kozuki/Superinteressante)

Um contra-argumento para isso é que o panda é considerado uma espécie “guarda-chuva” pelos biólogos – um tipo de bicho que, ao ser protegido, acaba beneficiando todo um ecossistema, porque os esforços impactam outros animais e plantas indiretamente.

De qualquer forma, ainda que o uso dos bichos como instrumentos diplomáticos ou como ímãs de visitantes em zoológicos seja eticamente questionável, ninguém nega que a internacionalização dos pandas foi positiva para a espécie. Sua presença em vários países do mundo de fato aumenta a conscientização do público sobre a pauta ambiental – e é um lembrete de que não é impossível salvar espécies anteriormente fadadas à extinção. Não adianta negar: você também quer ver de perto esses desajeitados e adoráveis seres caindo e rolando. Um privilégio que logo poderá ser concedido ao Brasil.

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