Engenharia é coisa de menino? Estereótipos de gênero começam já aos seis anos, aponta estudo
Nessa idade, pelo menos 30% das crianças já acreditam que os meninos são melhores em computação e engenharia

A ideia de que homens são mais aptos a algumas funções do que as mulheres é preconceituosa, porém arraigada em nossa cultura. Mas em qual momento da infância ocorre esse “virar de chave”, quando a criança passa a acreditar que algumas funções seriam mais adequadas para um ou outro gênero?
Um novo estudo do American Institutes for Research (AIR) parece trazer luz para este assunto. A pesquisa revelou que, aos seis anos de idade, pelo menos um terço das crianças já começa a acreditar que meninos são melhores que as meninas nos campos da computação e engenharia.
Uma inversão ocorre quando se trata da matemática – em que as meninas são apontadas como melhores, na opinião das crianças de seis anos.
Esse é o maior estudo já feito sobre estereótipos de gênero a respeito das áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e de habilidades verbais. Ele verificou outras 98 pesquisas ao longo de 40 anos, com dados de 145 mil crianças em 33 países. Os resultados foram publicados em dezembro no Psychological Bulletin.
Outras descobertas do estudo:
- Conforme as meninas envelhecem, a opinião enviesada sobre as profissões STEM se agrava, o que pode limitar suas futuras aspirações nessas áreas (incluindo algumas que deverão crescer, como a inteligência artificial)
- Nos EUA, crianças negras tendem a possuir menor enviesamento sobre as profissões STEM do que as brancas
- Estereótipos de gênero sobre a área da matemática são bem mais amenos do que os cientistas esperavam, especialmente em comparação com os estereótipos sobre engenharia e computação
- Meninas são vistas como superiores em campos relacionados à fala, como escrita e leitura. Esse enviesamento surge aos 8 anos de idade e se fortalece ao envelhecer
“O surgimento precoce desses enviesamentos sinaliza que as crianças adquirem informações sobre estereótipos em computação e engenharia em casa e em outros ambientes antes do ensino primário”, afirmou David Miller, pesquisador do AIR e autor líder do estudo. Segundo ele, para combater essas narrativas, é preciso ação por parte de pais e educadores.
O fato de os enviesamentos piorarem nas meninas conforme elas envelhecem também é motivo de preocupação. “Iniciativas focadas em ‘garotas na matemática’ ou ‘garotas nas STEM’ podem não ser eficientes em combater as crenças masculinocêntricas mais arraigadas”, afirmou Miller.
Ele acredita que é preciso um foco especial nas meninas para que esses estereótipos sejam combatidos desde a primeira infância.
Em sua conclusão, o estudo diz que esses estereótipos, ao longo do tempo, podem afetar os comportamentos e motivações das crianças, inclusive nas escolhas de carreiras. Por isso, os pesquisadores ressaltam que é preciso atenção, por parte de pais e educadores, para identificar e combater esses estereótipos antes mesmo do começo da vida escolar.