Como a prefeitura de Los Angeles criou uma cracolândia de propósito
Delimitar uma área para os sem-teto e dependentes químicos era melhor do que deixar que eles se espalhassem para o resto da cidade, concluiu o governo nos anos 1970. Deu errado, é claro.

Para quem viveu os anos 90, Skid Row é o nome de uma das bandas de glam metal da época. Mas esse termo também identifica um dos bairros mais antigos de Los Angeles, que se formou ao redor de uma das principais estações de trem da cidade no começo do século 20.
Com os anos, a alta concentração de pessoas de baixa na renda na área se tornou um problema — e o governo, com a anuência da população, resolveu criar uma barreira invisível em torno do bairro para manter ali todos os sem-teto e viciados em drogas da cidade.
Localizado no centro da metrópole, a cerca de 16 km do famoso observatório do filme La La Land e a 11 km da Calçada da Fama, o bairro Skid Row abrange cerca de 50 quarteirões e, à primeira vista, tem o mesmo aspecto do resto do centro de Los Angeles.
Mas basta entrar nele para notar a degradação: muito lixo, cheiro forte de urina e vastos corredores de pessoas vivendo em moradias improvisadas, como barracas de camping e barracos feitos de lona.
Quem já visitou Los Angeles sabe que a miséria não é exclusividade de bairro nenhum: ela está por todos os cantos, com gente dormindo nas calçadas e pedintes em pontos turísticos. 15% da população da cidade (cerca de 1,3 milhão de pessoas) vive abaixo da linha da pobreza.
Mas esse é um fenômeno se agravou recentemente, graças à pandemia e à crise financeira de 2008, entre outros fatores. E por boa parte do século 20, a solução do poder público para a pobreza foi encaixotá-la em Skid Row.
Uma zona só para os pobres
O desenvolvimento no bairro de Skid Row ao longo do século 20 aconteceu principalmente por causa da ferrovia que passava ali.
Trabalhadores rurais e ligados ao serviço ferroviário se instalaram nas mediações, com o comércio e os serviços vindo atrás para acompanhar. Nos anos 70, o bairro já era considerado barra-pesada, com hotéis baratos, pessoas em situação de rua e traficantes.
O governo, então, propôs uma solução: o Silver Book Plan, que propunha uma renovação urbanística para a área, incluindo demolição de prédios, remoção forçada de moradores de rua e grandes projetos imobiliários. Esse plano, porém, não fornecia qualquer alternativa de habitação para os expulsos.
“O Silver Book simplesmente propôs a criação de um centro de desintoxicação/reabilitação, mais centralizado, perto da San Pedro Street, e afirmou, de seu ponto de vista futurista para os anos 1990, que todos os moradores de Skid Row seriam ‘reabilitados’ dentro de alguns anos e desapareceriam por entre a população geral: e assim Skid Row seria extinto – mas, magicamente, ninguém seria deslocado”, afirma um documento do Depto. De Pobreza de Los Angeles.
Essa proposta levou a uma improvável união. Por um lado, alguns habitantes não gostavam dos poderes que a Community Redevelopment Agency (órgão municipal) teria sobre a reurbanização, incluindo a capacidade de reverter os impostos dos novos prédios para projetos fora da comunidade.
Por outro, havia os moradores de outros bairros, que ficaram assustados com a possibilidade de os pobres de Skid Row, expulsos de seu pedaço, virem morar em suas ruas.
Por fim, havia um grupo de ativistas, que compareceu a audiências públicas em 1975, que queria o bem dos moradores pobres e argumentou que, se eles fossem retirados de suas moradias para abrir espaço para prédios, não encontrariam lugar para morar no resto da cidade.
Os três grupos tinham um interesse comum: manter Skid Row intacto. Dessa forma, a comunidade seria salva do mercado imobiliário e da gentrificação (o que agradava os moradores e ativistas) e os pobres não se espalhariam para outros bairros (o que era o ideal na opinião da parcela mais rica e preconceituosa da população).
Com isso, foi criado um novo plano, chamado de Blue Book. A partir dele, a cidade delimitou formalmente (mas não legalmente) as fronteiras do bairro de Skid Row e levou para lá organizações de caridade e outros serviços de assistência para moradores de rua. Por sua vez, a Los Angeles Redevelopment Agency, órgão que financiava projetos de revitalização, concordou em não intervir na área.
Mas não era só: a ideia era manter os moradores do bairro ali. Isto é o que diz o texto original do Blue Book:
“Com banheiros públicos, bancos e espaços abertos agradáveis dentro da área delimitada de Skid Row, os residentes poderão se inclinar a restringir suas atividades à área próxima. Essa seção servirá como um imã para manter os elementos indesejáveis na Skid Row, não contra sua vontade, mas por sua própria vontade.
Bordas fortes atuarão como barreiras entre a Skid Row e o restante do centro da cidade. Quando o residente da Skid Row entrar na área de transição, o conforto psicológico do ambiente familiar da Skid Row será perdido; ele se sentirá estranho e não se inclinará a viajar longe da área de contenção.”
Dessa forma, os habitantes de Skid Row puderam permanecer no bairro — alheios à ampla gentrificação ao seu redor, e com um lugar para ficar. O plano começou a ser implementado em 1976 e ocorreu exatamente como descrito, com luzes fortes sendo instaladas nas ruas que margeavam o bairro para desestimular os habitantes a deixá-lo. O policiamento também era mais forte nessas áreas.
Problema sem fim
A preservação não salvou o bairro de uma marginalização contumaz, é claro. “No compromisso mediado para preservar Skid Row, a polícia e os serviços sociais serviram como ferramentas de subdesenvolvimento deliberado e dependência para privar as pessoas de autonomia e controle comunitário sobre a terra”, afirma o documento de uma entidade civil.
“Embora a contenção tenha ajudado a reforçar os recursos para os residentes sem-teto e pobres, ela também facilitou políticas carcerárias e a demonização da comunidade, junto com milhões de dólares em investimentos públicos para construir mega-abrigos.
Não só esses abrigos se proliferaram e se consolidaram — em vez de políticas que garantissem moradia real, riqueza ou propriedade de terra —, como agora contribuem para estratégias carcerárias que ampliam a porta giratória da pobreza, da cama de abrigo à cela de prisão”.
Ao longo dos anos, a situação foi piorando com a chegada de novas drogas, como o crack, e os esforços da lei para combater o problema — a famosa “Guerra às Drogas” de Ronald Reagan nos anos 80. O bairro perdurou (e ainda se mantém) como um lugar onde pessoas em situação de rua podem encontrar ajuda, com o oferecimento de refeições, abrigos, banheiros e outras necessidades.
Nos últimos anos, formou-se um senso de comunidade mais forte no local, com o surgimento de grupos de ativistas que lutam pelos direitos dos pobres e sem teto.
No entanto, a situação pode mudar em breve, pois a cidade de Los Angeles está revendo todo seu zoneamento e o bairro, atualmente considerado residencial, pode ser reclassificado como de “uso misto”.
Essa mudança pode finalmente trazer a especulação imobiliária de volta para o local, especialmente considerando que Skid Row tem muitos prédios vazios, que poderiam facilmente ser demolidos para dar lugar a novos condomínios de luxo. É uma mudança de paradigma: um bairro que passou décadas lutando contra seu confinamento agora enfrenta a possibilidade de ser invadido.