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Uso de melatonina não é inofensivo e pode ser arriscado em longo prazo

Embora tenha autorização da Anvisa para ser comercializada sem prescrição, a falta de orientação médica pode causar uma série de prejuízos à saúde

Por Arthur Almeida, da Agência Einstein
30 jan 2026, 08h00 •
  • Disponível em comprimido, gota e até bala de goma, a melatonina tem ganhado cada vez mais espaço nas gôndolas das farmácias, graças à alta procura por soluções rápidas para noites maldormidas. O problema é que, apesar de parecer inofensivo, o suplemento não é recomendado para qualquer pessoa, e seu uso sem indicação e acompanhamento pode trazer consequências à saúde.

    Um estudo apresentado em novembro de 2025 nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA),nos Estados Unidos, sugere que o uso prolongado da melatonina pode estar relacionado a um maior risco de adultos com insônia crônica desenvolverem doenças cardiovasculares. O trabalho analisou mais de 130 mil prontuários, comparando indivíduos que utilizaram a substância por pelo menos um ano com um grupo que nunca aderiu ao tratamento.

    Os usuários de melatonina tinham uma probabilidade cerca de 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo dos cinco anos estudados, além de apresentarem um risco 250% maior de serem hospitalizados pela condição. A probabilidade de morte por qualquer causa também foi aproximadamente duas vezes mais elevada entre quem usava o suplemento comparado ao grupo controle.

    Apesar do alerta, esses resultados são preliminares e ainda não foram revisados por pares. “Isso significa que não podemos falar com certeza que a melatonina foi a causa das complicações identificadas, mas os dados sugerem uma forte associação entre elas, o que já basta para que médicos e a população com um todo prestem mais atenção ao tema”, avalia a neurologista Giuliana Macedo Mendes, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

    Suplemento alimentar?

    No rótulo, a melatonina consta como sendo um suplemento alimentar. Essa classificação foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em outubro de 2021 e permite que a substância seja comercializada sem a necessidade de uma receita médica.

    Em nota enviada à Agência Einstein, a Anvisa afirma que tomou essa decisão “considerando que se trata de uma substância bioativa naturalmente presente em alimentos e segura ao consumo nos limites estabelecidos, ou seja, que cumpre os requisitos legais dispostos na legislação”.

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    Contudo, tal categoria não corresponde exatamente à natureza bioquímica da melatonina. Na verdade, a substância é um neuro-hormônio, que desempenha funções antioxidantes, anti-inflamatórias, imunomediadoras e cronobióticas. Ela atua para regular o ritmo circadiano, também conhecido como ciclo sono/vigília ou “relógio biológico”.

    “A popularização da melatonina é um grande problema em termos de saúde, porque ela não complementa uma deficiência nutricional, como fazem os suplementos alimentares”, pontua o médico José Cipolla-Neto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP) e especialista em neurofisiologia. “Os hormônios interferem diretamente na fisiologia humana e seu uso indiscriminado pode trazer uma série de problemas ao usuário.”

    Definir a melatonina como uma “medicação do sono” descreve apenas uma pequena fração das ações que ela realiza no corpo. Produzida pela glândula pineal, localizada dentro do cérebro, a substância começa a ser produzida com a percepção da chegada da escuridão noturna e só cessa horas depois, com a claridade do amanhecer.

    Nesse intervalo, ela é responsável por ordenar que os mecanismos adaptativos típicos do dia, utilizados para alimentação, interação com o meio ambiente, convivência social e o trabalho, por exemplo, sejam desligados. Ao mesmo tempo, ativa aqueles processos necessários para o repouso, o que inclui a redução da temperatura corporal, a diminuição da pressão arterial e o aumento da sensação de sono.

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    Além disso, a produção de melatonina também funciona como uma espécie de “cronômetro” da noite. Produzida ao anoitecer e interrompida ao amanhecer, ela informa ao organismo quanto tempo a noite dura em cada época do ano e, com base nesse sinal, o corpo faz ajustes importantes para manter seu equilíbrio.

    Indicações e riscos

    A melatonina sintética disponível nas farmácias tem as mesmas características que o hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano. Daí por que seu uso requer atenção e monitoramento próximo — o que, muitas vezes, não acontece. “Além de tomar a substância por meses ou anos sem qualquer indicação ou acompanhamento profissional, muitas pessoas ainda afirmam ter aumentado as doses diárias, superando o limite de segurança de 0,21 mg da Anvisa”, relata a neurologista do Einstein Goiânia.

    Qualquer quantia maior do que isso representa um excesso, que permanece no organismo mesmo após a pessoa acordar. Os efeitos colaterais imediatos incluem sonolência diurna, tontura, dor de cabeça e desorientação. As complicações a longo prazo, como a insuficiência cardíaca apontada na pesquisa recente, ainda não estão esclarecidas.

    “A dosagem ingerida precisa ser adaptada para complementar a quantidade do hormônio que já é produzida naturalmente pelo corpo. Para fazer isso, é necessário verificar a quantidade de melatonina circulante presente na urina ou no sangue do paciente de maneira regular”, explica Cipolla-Neto. No entanto, em muitos casos, esse acompanhamento não acontece.

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    São poucos os quadros que realmente têm indicação de suplementar a substância como parte do tratamento. “Não é qualquer episódio de dificuldade para dormir que justifica o uso do hormônio. Por isso, é tão preocupante o fato de qualquer pessoa poder comprar a melatonina na farmácia”, reforça o professor da USP.

    Entre as condições que podem se beneficiar dessa reposição estão lesões nas regiões pré-quiasmáticas, que deixam a pessoa cega e sem percepção de luminosidade ambiental. Sem que o organismo consiga distinguir o dia da noite, ele tende a apresentar uma produção deficitária de melatonina.

    Outros exemplos são os distúrbios de ritmo circadiano de atraso ou avanço de fase de sono. Nesses casos, a produção do hormônio tende a ser mais demorada ou mais acelerada do que o normal e, por isso, a pessoa pode ter dificuldade para dormir em horários típicos, sentindo sono apenas madrugada adentro ou bem antes de ir para cama. A substância pode ser prescrita para ajudar a induzir a sensação de sono em horários mais próximos dos indivíduos sem os distúrbios, facilitando sua rotina.

    Na nota, a Anvisa reforça que atribuir a melhora em quadros de insônia ao consumo de suplementos alimentares contendo a melatonina não é permitido pela regulação vigente. “Se as empresas têm a intenção de comercializar o suplemento com a alegação desse efeito específico, elas precisam apresentar os estudos que comprovem essa relação benéfica entre o consumo e o efeito”, aponta a agência.

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    Dormir sem medicação

    O sono está diretamente relacionado a mecanismos essenciais a uma boa saúde. Além disso, dormir bem ajuda a regular o humor, a capacidade de concentração e a disposição para realizar as atividades cotidianas. A privação e a má qualidade do sono, por sua vez, favorecem a fadiga, a irritabilidade e a queda de desempenho cognitivo. Daí a importância de solucionar os quadros de insônia o quanto antes.

    Mas a melatonina não é uma “bala de prata” contra esse problema. “É muito comum que doenças como ansiedade, depressão e dor crônica estejam associadas à insônia, e tratamento com medicamentos específicos pode ajudar a melhorar essas comorbidades, aumentando o tempo e a qualidade do sono”, observa Giuliana Macedo. “É importante ressaltar que devemos evitar o uso de medicamentos indutores do sono além de quatro semanas, pois não queremos causar um sono químico, mas resgatar o sono natural. Para tanto, é imprescindível contar com um tratamento de abordagem comportamental.”

    A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) ajuda a lidar com o quadro crônico ao atuar diretamente em pensamentos, comportamentos e hábitos que mantêm o problema, sendo considerada o tratamento padrão-ouro. Ela auxilia o paciente a identificar e modificar crenças disfuncionais sobre o sono, como o medo de não conseguir dormir ou a ideia de que ir mais cedo para a cama garante mais descanso.

    Paralelamente, a insônia também pode ser superada por meio de mudanças no estilo de vida. “Em alguns casos, a chamada higiene do sono pode ser até melhor do que as medicações”, conta a médica. Isso inclui evitar luzes muito intensas durante a noite, o que vale para aquela emitida pela televisão e o celular.

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    O sedentarismo também compromete a qualidade do sono: a prática regular de atividade física estimula a liberação de endorfina, que atua como precursora da melatonina. O ideal é que os exercícios sejam realizados pela manhã ou à tarde, já que, no período noturno, podem aumentar o estado de alerta e a cognição, dificultando o relaxamento corporal.

    Também vale cuidar da alimentação. A última refeição do dia deve ser mais leve e, de preferência, ocorrer até duas horas antes do horário de se deitar. Dormir com o estômago cheio tende a deixar o sono mais fragmentado e pode agravar quadros de refluxo gastroesofágico.

    Outro ponto importante é manter o controle do estresse e da ansiedade. Isso pode ser feito por meio de técnicas de relaxamento e respiração. Por fim, vale sempre contar com ajuda profissional. “Ao enfrentar dificuldades recorrentes na hora de dormir, não se deve hesitar em procurar um médico do sono para começar a investigar o caso e achar uma solução para o problema”, conclui José Cipolla-Neto.

    Fonte: Agência Einstein

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