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Pesquisa alerta para riscos do vírus oropouche a gestantes brasileiras

Doença pode causar transmissão vertical – da mãe para filho – provocando malformações do sistema nervoso do feto; ainda não há medicamentos para tratamento

Por Ivanir Ferreira, para o Jornal da USP 4 fev 2026, 19h00

Este texto foi publicado originalmente no Jornal da USP. Vale a leitura!

Uma revisão de estudos científicos aponta que a infecção pelo vírus oropouche, transmitida por insetos, pode representar um risco emergente à saúde de gestantes e bebês. O levantamento destaca as novas evidências de transmissão vertical – da mãe para o feto – com infecção de células placentárias e possíveis comprometimentos neurológicos graves para o embrião e o feto, como abortos, anomalias congênitas, além de óbito fetal e pós-natal. Inicialmente concentrada nas regiões Norte e Nordeste, a febre oropouche apresenta atualmente maior incidência nos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.

O estudo recomenda a inclusão do vírus nos protocolos dos sistemas de saúde para o diagnóstico diferencial em gestantes, já que os sintomas (dor de cabeça intensa, dores musculares, náusea e diarreia) podem ser semelhantes a outras doenças transmitidas por insetos, como a dengue, chikungunya, febre amarela e zika. “A febre do oropouche pode ser erroneamente diagnosticada como outras infecções febris”, diz o médico e professor Geraldo Duarte, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e um dos pesquisadores envolvidos no estudo. Para o professor, a identificação correta permite um acompanhamento mais adequado da gestante, com a realização periódica de exames para monitorar possíveis complicações fetais e gestacionais, além de subsidiar a adoção de estratégias de controle do vetor.

Segundo o professor, que também atende a gestantes de alto risco no ambulatório do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP na capital, “a semelhança com outras arboviroses dificulta o diagnóstico apenas pela avaliação clínica, tornando necessária a combinação entre análise dos sintomas, histórico epidemiológico e exames laboratoriais. Em gestantes infectadas é o acompanhamento da gestação em serviços integrados, com diferentes especialidades”.

O professor lembra ainda que, até o momento, não há medicamentos antivirais específicos disponíveis para o tratamento do oropouche, o que torna necessário bom manejo clínico. Para orientar profissionais de saúde, foi elaborado o Manual de prevenção, diagnóstico e manejo da febre do oropouche durante a gravidez, parto e puerpério, com autoria do professor Duarte e de outros pesquisadores. A publicação é uma iniciativa da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) em parceria com o Ministério da Saúde.

Os resultados do novo estudo foram publicados no artigo Oropouche na gravidez: uma ameaça emergente à saúde materna e fetal, na Revista de Medicina Materno Fetal e Neonatal, envolvendo pesquisadores de várias universidades brasileiras, incluindo da USP e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

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Transmissão de mãe para filho

O vírus oropouche pode ser transmitido por dois tipos de insetos, principalmente pelo popularmente conhecido como mosquito pólvora ou maruim (C. paraensis) e, mais raramente, por pernilongos do gênero Culex. Segundo o professor Duarte, os efeitos da infecção na gestação ainda estão em fase inicial de compreensão. “A prática clínica e exames laboratoriais indicam que o vírus é capaz de infectar células da placenta, alcançar o feto e comprometer o sistema nervoso central”, afirma. Em agosto de 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) publicou nova atualização sobre a febre oropouche nas Américas, divulgando os números da doença em 20 Estados brasileiros, com maior incidência no Espírito Santo (6.322), Rio de Janeiro (2.497) e registro de cinco mortes, além de casos de complicações neurológicas e óbitos fetais sob investigação.

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Número de exames detectáveis para febre do oropouche por UF do local provável de infecção (LPI) e ano, Brasil

Gráfico da Distribuição de casos de febre pelo vírus oropouche por estado brasileiro -
(Ministério da Saúde - Governo Federal/Reprodução)

Um estudo de revisão publicado em uma revista espanhola relatou casos de gestantes infectadas pelo oropouche que evoluíram para abortos espontâneos e natimortos. Naquelas situações, amostras da placenta e do sangue do cordão umbilical testaram positivo para oropouche e negativo para outros arbovírus. O mesmo estudo também descreveu quatro casos de recém-nascidos com microcefalia, nos quais o líquido cefalorraquidiano apresentou anticorpos contra o vírus oropouche, sem evidências de infecção por outros arbovírus

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O professor Eurico de Arruda Neto, do Laboratório de Patogênese Viral no Centro de Pesquisa em Virologia da FMRP, coordena a equipe que recebe e analisa tecidos humanos infectados com o vírus oropouche. Um dos trabalhos é investigar como ele consegue infectar o feto durante a gestação. Segundo o pesquisador, a placenta funciona como uma barreira natural que protege o bebê de muitas infecções virais da mãe, mas alguns vírus – entre eles o oropouche – conseguem driblar esse sistema de defesa. “Observamos que pequenos fragmentos do material genético do vírus (RNAs) podem ter um papel importante nesse processo que ajudam a passagem do vírus pela placenta. A equipe agora busca identificar exatamente quais mecanismos estão envolvidos nessa ação”, diz.

Expansão do vírus nos Estados
O vírus oropouche foi isolado no Brasil pela primeira vez em 1960, a partir de uma amostra de sangue de um bicho-preguiça capturado durante a construção da rodovia Belém-Brasília. No ciclo de transmissão urbana os seres humanos passam a atuar como principal reservatório do vírus. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 13.801 casos confirmados de oropouche e duas mortes em 2024. Em 2025, até junho, já foram contabilizados mais 11.706 casos. Os Estados com maior incidência são Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará.

Diante da expansão e das evidências crescentes de transmissão vertical e possíveis impactos neurológicos graves em fetos e recém-nascidos, Duarte destaca a urgência de fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar o diagnóstico laboratorial e integrar o acompanhamento de gestantes nos serviços de saúde.

A inclusão do oropouche nos protocolos clínicos, aliada a ações de controle dos vetores e à capacitação de profissionais, é considerada essencial para reduzir riscos maternos e fetais neste cenário de aumento de casos e ausência de tratamento antiviral específico.

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O artigo Oropouche na gravidez: uma ameaça emergente à saúde materna e fetal pode ser acessado por este link.

Mais informações: por e-mail com Geraldo Duarte (gduarte@fmrp.usp.br); Antonio Braga Filho (bragamed@yahoo.com.br); Regis Kreitchmann (kreitchmannregis@gmail.com) e Edward Araújo Junior (araujojred@terra.com.br).

 

 

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