Maior estudo sobre depressão já feito encontra fatores genéticos de risco para a doença
A pesquisa usou dados de mais de 5 milhões de pessoas de 26 países diferentes – e encontrou 697 variações genéticas relacionadas à doença.

Uma equipe internacional de cientistas analisou os dados de saúde de mais de 5 milhões de pessoas provenientes de 29 países diferentes – incluindo o Brasil. Eles procuravam fatores genéticos de risco para a depressão, uma doença que afeta 3,8% da população mundial, incluindo 5% dos adultos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
Esse é o maior, mais abrangente e global de todos os estudos já realizados sobre o transtorno e sua relação com a genética. Os pesquisadores encontraram 308 genes associados a um maior risco de depressão e 697 variações genéticas relacionadas ao transtorno – quase 300 delas inéditas.
A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Edimburgo e do King’s College de Londres, mas contou com dados de mais de 300 pesquisadores, incluindo brasileiros. O estudo foi publicado na revista Cell, e pode representar o primeiro passo para o desenvolvimento de novas terapias para tratar a depressão.
O transtorno mental tem causas diversas, e comumente mistura predisposições genéticas com acontecimentos estressantes ou traumáticos na vida do paciente. A depressão tende a ser um transtorno crônico, e nem sempre as terapias disponíveis funcionam para todos os casos.
Genética determina depressão?
Antes desse estudo, a maioria das pesquisas envolvendo genética e depressão tratavam de pessoas brancas e de países mais ricos, sem considerar as características genéticas de grande parte da população mundial. Os pesquisadores tentaram minimizar o viés desigual trabalhando com amostras mais diversas.
Um em cada quatro participantes do estudo vinham de famílias não-europeias. Um terço das variações genéticas inéditas só foi identificado porque a pesquisa incluiu pessoas com ascendência da África, do Leste Asiático, da América Latina e do Sul da Ásia.
No Brasil, de acordo com a Folha de S.Paulo, foram usados dados de 2.500 jovens das cidades de São Paulo e Porto Alegre, que são acompanhados desde 2009.
As pequenas variações genéticas encontradas pelos pesquisadores são associadas a neurônios em diversas áreas do cérebro, incluindo em regiões que controlam emoções.
Ter uma ou duas dessas variações genéticas não significa que você vai ter depressão. Há um impacto cumulativo em pessoas com muitas dessas características no DNA, que pode aumentar o risco da doença. Outras pesquisas, que estudam gêmeos e famílias de sangue, mostram que a genética pode ter uma contribuição de cerca de 37% no desenvolvimento da doença.
Porém, de acordo com o que a ciência conhece, os genes não são o fator determinante do aparecimento da depressão. Outras causas ambientais são mais importantes. Essa pesquisa diminuiu o viés eurocêntrico na ciência, mas as desigualdades do dia a dia, como pobreza e racismo, continuam sendo causas fortes para problemas de saúde mental.
A descoberta dessas variações genéticas pode ajudar a prever o risco de depressão com mais facilidade. Tratamento preventivo, no caso da depressão, não significa começar a tomar antidepressivo antes de apresentar sintomas, mas sim buscar resolver fatores ambientais que podem agir como gatilhos para o transtorno. A pesquisa genética também pode possibilitar a criação de tratamentos mais personalizados e eficazes.
Os pesquisadores analisaram mais de 1.600 medicamentos, verificando se eles tinham efeito em um dos 308 genes associados com o transtorno. Além dos antidepressivos clássicos, eles verificaram que o analgésico pregabalina e o neurotrópico modafinil, usado para distúrbios do sono, têm impacto nesses genes, e poderiam ser testados para o tratamento de depressão – algo que precisa ser comprovado em estudos futuros.