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Entidades científicas pedem cautela sobre polilaminina

Apesar da euforia, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e Academia Brasileira de Ciências lembram que molécula ainda está no início dos testes.

Por Ana Clara Caielli Barreiro
24 fev 2026, 19h00 •
  • Nas últimas semanas, a polilaminina tem dominado manchetes, vídeos e postagens nas redes sociais. A substância, desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em uma pesquisa liderada pela cientista Tatiana Sampaio, está sendo testada para tratar lesões medulares agudas. A hipótese é que a molécula consiga estimular a reconexão de neurônios e, assim, a recuperação de movimentos, mas há poucos resultados preliminares em humanos para saber se ela é eficaz. 

    A repercussão veio em clima de final de Copa do Mundo, regada de entusiasmo e esperança. Sampaio acumulou 16 milhões de interações nas redes sociais na última semana e foi elogiada, ao mesmo tempo, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo senador Flávio Bolsonaro.

    Em meio à comoção, dezenas de pessoas recorreram à Justiça para tentar obter acesso ao tratamento de forma experimental, fora de estudos científicos.

    Mas é preciso ter calma: a polilaminina ainda está começando sua fase 1 dos estudos clínicos, etapa voltada principalmente à avaliação de segurança.

    Diante desse cenário, Francilene Procópio Garcia, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), e Helena Bonciani Nader, líder da ABC (Academia Brasileira de Ciências), publicaram um editorial conjunto pedindo mais precisão e responsabilidade na discussão sobre a substância.

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    “Tecnologias experimentais frequentemente mobilizam expectativas sociais legítimas, sobretudo quando associadas a doenças graves ou incapacitantes. No entanto, a comunicação sobre pesquisas em estágio inicial exige cautela, precisão e responsabilidade institucional, de modo a evitar a construção de expectativas desproporcionais em relação ao estágio real de desenvolvimento científico”, afirma o texto.

    A eficácia, a segurança e outros aspectos da polilaminina ainda precisam ser comprovados. Ela ainda não pode ser considerada um tratamento eficaz, quanto mais milagroso. O editorial destaca que a substância ainda terá uma longa jornada de altos e baixos até ser, possivelmente, aprovada e utilizada.

    “Em áreas como neuroregeneração, o percurso entre descoberta científica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e dependente de evidências acumulativas. (…) Terapias avançadas em saúde exigem processos rigorosos de validação científica, regulação sanitária e avaliação clínica, sendo incompatíveis com soluções imediatas ou expectativas terapêuticas antecipadas.”

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    Outro ponto levantado pelas autoras é a fragilidade estrutural do Brasil na área de inovação em saúde. O país ainda enfrenta dificuldades para transformar descobertas científicas em aplicações clínicas devidamente reguladas.

    Esse processo exige não apenas a pesquisa conduzida nas universidades, mas também integração com órgãos regulatórios, hospitais, indústria biomédica e outros mecanismos – e este é o ponto fraco do país.

    “Tecnologias emergentes, mesmo em estágio experimental, devem ser compreendidas como parte de um ecossistema mais amplo que envolve ciência pública, regulação, financiamento, propriedade intelectual e políticas industriais orientadas à saúde pública, incluindo sua articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirmam.

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    As autoras ressaltam que o episódio não deve ser tratado de forma personalista, mas inserido em um debate mais amplo sobre as dificuldades de patenteamento internacional de pesquisas brasileiras. Elas defendem políticas públicas mais robustas para a ciência pública nacional, utilizando como exemplo as existentes nos Estados Unidos e na Europa.

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