Detecção do vírus da poliomielite em esgotos da Europa intriga cientistas
Doença está erradicada no continente desde 2002, mas circulação do vírus acende um alerta para populações pouco vacinadas.

Nos últimos três meses, o vírus causador da poliomielite – também conhecida como paralisia infantil – foi detectado em amostras de esgotos de pelo menos cinco países europeus: Polônia, Espanha, Alemanha, Finlândia e Reino Unido. A doença está erradicada no continente desde 2002, mas especialistas alertam que ela pode ressurgir caso a cobertura vacinal volte a cair.
Apesar das detecções, nenhum caso da doença em si foi registrado. Isso acontece porque, em populações altamente vacinadas, o vírus pode circular por meio de infecções assintomáticas, sem evoluir para quadros clínicos – mas ainda é detectável no esgoto. É isso que provavelmente está acontecendo na Europa.
Mesmo assim, a conclusão de que o vírus está presente e circulando acende um alerta: caso o patógeno entre em contato com populações não-vacinadas, pode voltar a causar surtos e até epidemias.
O risco do ressurgimento na Europa, porém, é baixo, já que a cobertura vacinal nos países citados é considerada alta (entre 85% e 95%). De qualquer forma, a mera detecção do vírus intriga os cientistas: afinal, de onde ele veio?
Análises genéticas indicam que o poliovírus identificado na Europa é similar a uma cepa presente na África, mas não idêntico. Além disso, há diferenças genéticas entre as amostras de países diferentes.
O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças diz que há duas possibilidades para explicar o fenômeno: o vírus pode ter sido importado apenas uma vez para o continente e, posteriormente, se espalhado por meio de infecções assintomáticas; ou ele foi introduzido várias vezes, de forma independente. Novas análises devem ser feitas nos próximos meses, informou o órgão.
Enquanto isso, as autoridades de saúde dos países europeus estão revisando seus dados sobre a vacinação em busca de lacunas que precisam ser preenchidas, e a União Europeia está em alerta para caso o vírus se espalhe para países com pouca cobertura vacinal na região – caso da Bósnia e Herzegovina, por exemplo.
A testagem de rotina das amostras do esgoto tornou-se uma ferramenta importante depois da pandemia de Covid-19. Com ela, dá para mapear quais bactérias, vírus e outros micróbios estão circulando em determinadas populações.
A poliomielite é uma doença transmitida principalmente através da boca, a partir do contato com água ou alimentos contaminados por fezes, e por isso é mais comum em locais com falta de saneamento básico e pouca higiene. Em casos graves – que são mais comuns em crianças com menos de cinco anos –, a doença pode causar paralisia permanente e até morte.
Em 1988, os países se uniram num esforço internacional liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para erradicar a pólio através da vacinação. Foi um grande sucesso: houve uma redução de 99% dos casos desde então, e, dos três tipos do vírus causador da doença, dois foram completamente erradicados do mundo. Hoje, a poliomielite só é endêmica em dois países: Paquistão e Afeganistão.
No Brasil, a paralisia infantil está erradicada desde 1990, mas a vacinação segue preocupante: em 2021, por exemplo, a cobertura vacinal ficou em apenas 71%, a menos da série histórica iniciada em 2009. Desde então, ela voltou a crescer e fechou 2023 em 85%, mas ainda está abaixo da meta de 85%.