Você já ouviu falar do efeito placebo. E do efeito nocebo?
A expectativa de que algo ruim pode acontecer pode ser suficiente para gerar sintomas negativos.
O efeito placebo é bem conhecido entre quem conhece um pouco do mundo da medicina: é a ideia de que, por acreditar que um medicamento terá efeito, o paciente realmente sente esse efeito por causa de sua psicologia, mesmo que o medicamento em si seja inerte.
Esse efeito é levado em conta na medicina moderna: os estudos para novas drogas são do tipo “duplo-cego”, em que os voluntários não sabem se estão recebendo remédio ou placebo e os médicos, também não (daí o “duplo” do nome). Dessa forma, é possível analisar os resultados tanto em pessoas que receberam o medicamento real e pessoas que não, anulando a interferência do efeito psicológico.
Recentemente, porém, a comunidade científica tem visto o surgimento de evidências cada vez mais contumazes sobre uma situação parecida: o efeito nocebo. Ele acontece quando uma pessoa espera efeitos negativos de um acontecimento (por exemplo, a ingestão de um remédio), o que gera ansiedade e, por consequência, acaba realmente sofrendo aqueles efeitos.
Ansiedade no tratamento
O gatilho para o efeito nocebo não é apenas o consumo de medicamentos: também pode ser o ambiente em que a pessoa está (clínica, hospital, etc.), sua relação com os profissionais de saúde que estão lhe tratando, pistas verbais (conversas que se escuta dos enfermeiros, por exemplo) e, também, todo seu histórico particular de memórias, crenças, emoções e expectativas.
Tudo isso pode desencadear uma reação psicológica que torna o tratamento menos eficaz. “O efeito placebo tem sido amplamente pesquisado, mas novos estudos demonstraram que o efeito nocebo pode ter um efeito ainda maior do que o placebo”, afirma este estudo.
O efeito nocebo pode aumentar o estresse, a ansiedade e a catastrofização, além de intensificar a busca por serviços de saúde, aumentar o consumo de medicamentos e gerar a busca de mais cirurgias para tratar os efeitos adversos que são produzidos por ele mesmo. Também foi demonstrado que pacientes ansiosos ou que esperam sentir dor durante um procedimento realmente sentem mais dor devido a essa expectativa negativa.
“Por exemplo, exames de imagem excessivos para obter informações em condições musculoesqueléticas crônicas (como dor lombar, dor cervical, osteoartrite) ou a divulgação de resultados clínicos usando jargões médicos ou termos técnicos específicos podem contribuir negativamente e produzir atitudes e crenças desnecessárias”, afirma outro estudo. “Essas abordagens favorecem o efeito nocebo e podem favorecer o agravamento da dor”, aponta o texto.
O efeito nocebo é especialmente presente nas interações entre pacientes e profissionais de saúde. Pesquisas demonstraram que, se um paciente considera que um profissional de saúde não o compreende ou não acredita nele, isso pode causar sofrimento, o que gera um efeito fisiológico. E mais: esse efeito pode até mesmo prejudicar o prognóstico do tratamento.
O poder da mídia
Quando se trata do efeito nocebo, todo o contexto ao redor da pessoa é importante. É por isso que informações divulgadas pela mídia também podem acarretá-lo. Em 2013, um artigo científico publicado no British Medical Journal destacou os possíveis efeitos adversos das estatinas, medicamentos usados para reduzir o colesterol no sangue.
A imprensa repercutiu o assunto com reportagens ressaltando esses possíveis efeitos, incluindo dores musculares, e isso criou um efeito psicológico na população. Estima-se que 200.000 pacientes interromperam o uso de estatinas nos seis meses seguintes à publicação do artigo, muitos devido a reações adversas. Esse incidente foi estudado por cientistas e atribuído ao efeito nocebo.
Na época em que as vacinas da covid-19 estavam sendo testadas, um estudo detectou que 72% dos efeitos adversos relatados após a primeira dose e 52% dos efeitos relatados após a segunda vinham de pessoas que tinham recebido os placebos, ou seja, as injeções sem efeito. No caso, a sugestão de que esses medicamentos poderiam ter efeitos colaterais foi suficiente para que eles realmente acontecessem.
Outro cenário em que se percebe o efeito nocebo é no consumo de medicamentos genéricos. Em alguns países, os pacientes associam o custo barato dos genéricos a uma má qualidade, acreditando que esses remédios têm menos efeito. Por causa dessa crença, os remédios realmente podem fazer menos efeito, num exemplo claro de efeito nocebo.
Aqui, também entra o risco associado a pesquisas extensas no Google, em fóruns e em redes sociais. Esses ambientes digitais podem trazer (ou fortalecer) a ideia de que um determinado tratamento pode causar algum efeito negativo. Essa ideia, agora fixada na mente do paciente, pode realmente se concretizar.
Como não cair no efeito nocebo
Pesquisadores concordam que o segredo para minimizar o efeito nocebo é a comunicação. Se, ao aplicar uma injeção, o médico diz “Vai doer”, ele cria um efeito psicológico bem mais pesado do que se dissesse “Esta é uma injeção bem simples, mas pode ser que você sinta uma picadinha”.
“Durante o processo terapêutico, a ênfase deve ser dada não às perdas induzidas pela dor, mas sim aos aspectos positivos, às progressões graduais da terapia e às conquistas, ou seja, focando nos aspectos funcionais, e não apenas na intensidade da dor”, afirma este estudo.
Para quem é paciente, valem algumas dicas:
- Evite ler longas listas de efeitos colaterais raros;
- Fuja de fóruns de pessoas descrevendo experiências ruins;
- Ignore vídeos alarmistas sobre remédios ou tratamentos;
- Procure informações estatísticas e neutras. Se tiver dúvidas, pergunte ao médico;
- Busque atividades que desviem o hiperfoco em doenças e sintomas;
- Não se autosugestione: em vez de pensar “Pode acontecer comigo”, pense “Qual é a chance real de acontecer?”;
- Lembre-se que seu cérebro pode criar sintomas reais, como dor, náusea, tontura e taquicardia. Às vezes, é só sua ansiedade agindo.
Nocebo não é causado pelo que acontece — é causado pelo que você espera que aconteça. Quanto mais você treina sua mente para não se preocupar em excesso, menos sintomas aparecem.







