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Prefere dormir bem tarde? Isso tem nome: “procrastinação vingativa do sono”

Mexer no celular e jogar videogame tarde da noite para compensar a falta de lazer durante o dia pode parecer inofensivo. Só que não

Por Victor Bianchin 27 fev 2026, 14h01 | Atualizado em 5 Maio 2026, 10h54

Em 2014, um grupo de pesquisadores da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, lançou um artigo acadêmico com um conceito novo sobre as pessoas que gostam de dormir tarde. Chamado de “Procrastinação na hora de dormir: apresentando uma nova era da procrastinação”, ele investigava por que algumas pessoas preferiam dormir tarde mesmo sem ter um motivo que as obrigasse a estarem acordadas.

O estudo apresentava algumas conclusões, algumas delas bem conhecidas, como o fato de que horas insuficientes de sono implicam em uma qualidade de vida pior. Mas seu achado mais impactante foi este: 

“Outro aspecto interessante da procrastinação na hora de dormir é que, embora a procrastinação normalmente envolva o adiamento voluntário de tarefas aversivas, ir para a cama geralmente não é considerado aversivo. Em vez disso, especulamos que não se trata tanto de não querer dormir, mas sim de não querer abandonar outras atividades.”

Ou seja: as pessoas adiam o sono porque ficam ocupadas com atividades de lazer, como rolar o celular, jogar videogame, assistir a vídeos e maratonar séries — o texto cogita que, com a chegada dos dispositivos eletrônicos e o entretenimento disponível 24 horas por dia, é muito mais fácil se distrair hoje do que em décadas anteriores.

A internet criou um nome para isso: “vingança da procrastinação do sono” ou “procrastinação vingativa do sono”.

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Como assim, vingança?

É preciso ressaltar duas coisas sobre o estudo mencionado. A primeira é que ele está longe de ser conclusivo: entrevistou apenas 177 pessoas e de forma online. A segunda é que ele nunca menciona o termo “vingança” — quem acoplou essa ideia ao tema foi a cultura internética.

A vingança entra quando o adiamento vira uma forma de recuperar autonomia. Por exemplo, a pessoa pode ter passado o dia todo trabalhando, ou cuidando dos filhos, ou estudando, ou andando de lá pra cá cumprindo obrigações. À noite, ela pensa: “Agora, o tempo é meu”. Dessa forma, mesmo cansada, ela fica rolando redes sociais, vendo vídeos ou jogando para sentir que teve um momento de lazer.

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Portanto, a vingança não é contra alguém, e sim um comportamento compensatório diante da frustração diária. É uma tentativa de restaurar autonomia, prazer e identidade pessoal.

O uso dessa palavra é apenas informal, visto em fóruns e redes sociais — o termo “procrastinação vingativa do sono” viralizou em 2020, no auge da pandemia, quando a jornalista Daphne K. Lee tuitou sobre o fenômeno e o descreveu assim: “Pessoas que não têm muito controle sobre sua vida diurna se recusam a dormir cedo para recuperar alguma sensação de liberdade durante a madrugada”.

Em artigos acadêmicos e no meio científico, o termo usado é “procrastinação do sono” (“bedtime procrastination” em inglês), sem vingança no meio. 

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Repercussões

Mais importante do que os achados do estudo da Universidade de Utrecht era o debate que ele estava propondo: a ideia de que muita gente escolhe dormir tarde como forma de contrabalancear o peso da rotina. Diversos estudos deram sequência ao tema.

Um estudo de 2018 analisou um grupo de trabalhadores de diversas áreas e observou que, entre os que dormiam tarde, esse comportamento era mais intenso nos dias de trabalho. Já outro estudo, de 2020, analisou um grupo de jovens e apontou que, entre eles, os maiores procrastinadores do sono eram também os que mais consumiam mídia.

O grande problema da “procrastinação vingativa do sono” é que ela é um ciclo vicioso: ao adiar seu sono, você fica mais cansado no dia seguinte, comprometendo suas tarefas e se tornando mais propenso a ficar acordado até tarde de novo. Com o tempo, isso pode resultar em privação de sono, o que pode ter impactos negativos no funcionamento cognitivo, na saúde e no bem-estar mental.

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