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Pé de 3,4 milhões de anos revela parente enigmático que conviveu com Lucy

Novas análises ligam o fóssil à outra espécie de Australopithecus e mostram que diferentes hominídeos coexistiam na mesma região.

Por Luiza Lopes
27 nov 2025, 18h00 • Atualizado em 27 nov 2025, 18h05
  • Em 2009, pesquisadores escavavam a região de Woranso-Mille, na Depressão de Afar (Etiópia), quando acharam oito ossos do pé de um antigo parente humano. O fóssil tinha 3,4 milhões de anos e foi apelidado de “Pé de Burtele”. 

    Desde o início, os cientistas perceberam que aquele pé não combinava com a espécie mais conhecida do período, Australopithecus afarensis – grupo que inclui a famosa Lucy, um esqueleto de 3,2 milhões de anos popularmente usado como referência para entender a evolução humana.

    Mas não dava para batizar uma nova espécie só com base em um pé. Na paleoantropologia, são principalmente os dentes e as mandíbulas que carregam as características essenciais para identificar espécies. 

    Depois de mais de dez anos voltando ao campo e acumulando novos achados, a equipe finalmente reuniu material suficiente para ligar o Pé de Burtele à espécie Australopithecus deyiremeda, proposta em 2015 a partir de mandíbulas e dentes também encontrados na região. A associação, agora considerada segura, foi descrita em um artigo publicado na Nature.

    Um pé especial

    A principal surpresa do novo fóssil estava na anatomia. Enquanto A. afarensis, da Lucy, tinha um pé completamente adaptado ao caminhar ereto – com o dedão alinhado aos outros dedos, como o nosso –, o Pé de Burtele preservava um dedão “oponível” (como o nosso dedão da mão).

    Significa que ele era mais lateralizado e conseguia se mover para o lado, facilitando agarrar galhos. Era uma característica útil para subir em árvores. Os outros dedos também eram mais longos e curvos, fatores igualmente ligados a essa ação.

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    Mesmo assim, o dono do pé caminhava sobre duas pernas no chão. Só que fazia isso de um jeito diferente: o impulso vinha principalmente do segundo dedo, não do dedão, como acontece hoje em humanos.

    Essa combinação parecia improvável naquele período. A expectativa dos pesquisadores era que essa característica tivesse desaparecido gradualmente à medida que os hominídeos se tornaram bípedes mais eficientes.

    “O que estamos aprendendo agora é que, sim, o bipedalismo foi o componente chave da nossa história evolutiva, mas havia muitas maneiras de andar sobre duas pernas no chão”, afirmou Yohannes Haile-Selassie, primeiro autor do estudo, ao site Live Science. Ou seja, cada linhagem testava soluções próprias para se locomover.

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    A confirmação da espécie só veio quando novos fósseis, como dentes e fragmentos de mandíbula, foram encontrados perto do local do pé. A proximidade de idade e localização fez com que a equipe conseguisse associar os materiais com confiança a A. deyiremeda.

    Esses dentes também revelaram detalhes importantes sobre a dieta do hominídeo. A geocientista Naomi Levin analisou o esmalte dentário de oito dentes usando a técnica de análise isotópica de carbono. 

    Isso porque plantas diferentes deixam assinaturas químicas distintas nos dentes. Árvores e arbustos (classificadas como “plantas C3”) têm um “sinal” químico, enquanto gramíneas tropicais (“C4”) deixam outro.

    Ao contrário da Lucy, que comia tanto plantas C3 quanto C4, A. deyiremeda se alimentava basicamente de árvores e arbustos. Isso sugere que as duas espécies podiam viver lado a lado sem disputar diretamente os mesmos alimentos.

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    Outro achado-chave foi a mandíbula de um indivíduo infantil, com cerca de 4 ou 5 anos. Ela tinha dentes de leite completos e dentes permanentes em formação. Com microtomografia (um tipo de raio-X em altíssima resolução), os pesquisadores conseguiram observar o ritmo de desenvolvimento desses dentes, que ajuda a entender o processo de crescimento da espécie.

    Imagens: a , Renderização de microtomografia computadorizada mostrando a vista oclusal da mandíbula. As coroas dentárias são mostradas em branco e as raízes preservadas em amarelo. b , Vista lateral esquerda da mandíbula. c , Vista lateral esquerda da mandíbula com coroas, raízes e dentição permanente não irrompida visíveis. d , Vista lateral direita da mandíbula. e , Vista lateral direita da mandíbula com coroas, raízes e dentição permanente não irrompida visíveis. São mostradas as vistas oclusal e labial ou bucal da dentição permanente. f , Incisivo central esquerdo (I1 ) . g , Incisivo central esquerdo (I2 ) . h , Prego terceiro esquerdo (P3 ) (vista mesial incluída). i , Prego quarto esquerdo (P4). j, Menor primeiro esquerdo ( M1 ). k, Menor primeiro direito ( M1 ) . l , Prego quarto direito (P4 ) . m , Prego terceiro direito (P3 ) (vista mesial incluída). n , Canino direito. o , Incisivo central direito ( I2) . p , Incisivo central direito ( I1) .
    Reconstrução digital da mandíbula juvenil a partir de tomografias. (Haile-Selassie, Y., Schwartz, GT, Prang, TC et al./Nature (2025)./Reprodução)

    “Conseguimos observar traços claros de uma desconexão no crescimento entre os dentes da frente e os de mastigação, muito semelhante ao que se vê em macacos atuais e em outros australopitecos primitivos, como a espécie de Lucy”, destacou Gary Schwartz, um dos autores, em comunicado

    Para ele, a surpresa foi o padrão consistente: mesmo com diferenças de dieta e locomoção, o modo como esses australopitecos cresciam era bastante parecido.

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    Nem todos os especialistas aceitam de imediato que o Pé de Burtele pertença a A. deyiremeda. Há quem considere a associação frágil, já que depende principalmente da proximidade entre os locais onde o pé e os dentes foram encontrados.

    Alguns também questionam se a espécie deveria realmente integrar o gênero Australopithecus ou se poderia representar uma linhagem mais tardia de um grupo ainda mais antigo.

    Outros pesquisadores, porém, veem a identificação como plausível. Para essa corrente, A. deyiremeda se distingue de espécies contemporâneas não só pela anatomia, mas também pelo comportamento, como diferenças na locomoção e na alimentação.

    Nesse sentido, os novos achados ajudariam a consolidar a espécie no registro fóssil e reforçariam sua posição dentro da diversidade de hominídeos que coexistiam na época.

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    A junção de dados sobre como A. deyiremeda andava, comia e crescia ajuda os cientistas a entender como espécies próximas podiam coexistir sem competir de forma direta. Haile-Selassie lembrou, em nota, que esse tipo de convivência também aparece entre primatas atuais: é comum diferentes espécies ocuparem a mesma floresta usando recursos distintos.

    Para ele, essas descobertas ajudam a olhar para o presente: “Toda a nossa pesquisa para entender os ecossistemas do passado, de milhões de anos atrás, não se trata apenas de curiosidade ou de descobrir de onde viemos. Trata-se também da nossa ânsia de aprender sobre o nosso presente e o futuro.” 

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