Papisa Joana: a Igreja Católica já foi secretamente comandada por uma mulher?
Disfarçada de homem, ela governou por três anos até dar à luz em público. Ou pelo menos é isso que uma famosa lenda medieval diz.

No século 9, uma mulher genial aprendeu grego, latim e lutou contra as normas de sua época para estudar filosofia, medicina e teologia. Para conseguir seguir carreira eclesiástica, ela teria passado a se vestir de homem e assumido uma identidade masculina.
Tamanhas eram sua competência e inteligência que a tal mulher disfarçada avançou rapidamente no clero e acabou sendo eleita como Papa, comandando a Igreja Católica por alguns anos sob o nome de “João, o Inglês”.
Durante uma procissão em Roma, porém, ela teria dado à luz no meio da rua ao tentar subir em seu cavalo. Com isso, acabou-se a farsa: ficou revelado para todos que o papa João era, na verdade, a papisa Joana, que morreu pouco depois do parto.
Essa história foi bastante famosa durante a Idade Média, difundida por vários autores distintos. Por séculos, acreditava-se que ela era real, ou que, pelo menos, se baseasse em eventos verdadeiros – até mesmo entre membros da própria Igreja Católica.
Hoje, porém, é praticamente um consenso que a papisa Joana não passa de uma lenda. A narrativa, porém, nos revela bastante sobre a história do cristianismo.
Quem foi Papisa Joana?
Apesar de contarem uma história que supostamente aconteceria no século 9, os primeiros registros da narrativa só surgem no século 13, ou seja, quatrocentos anos depois dos acontecimentos narrados.
Os relatos variam. Em algumas versões, Joana era inglesa; em outras, nascida na região que hoje é a Alemanha. Certas variantes dizem que tudo ocorreu no século 11, não no século 9. E apesar de “Joana” ser o nome mais comum, a mesma personagem aparece em alguns registros como “Agnes” ou “Gilberta”.
Todos os autores concordam, porém, que essa mulher viajou para a Grécia para estudar, e que, em algum momento, passou a se vestir com roupas masculinas e se apresentar como homem, já que, naquela época, mulheres raramente tinham acesso à educação.
De Atenas, Joana teria ido para Roma, e lá conquistou espaço e respeito na Igreja Católica por conta de sua inteligência. Quando o papa Leão IV morreu, ela teria sido escolhida como sua substituta por unanimidade, e comandou a instituição máxima da fé católica por dois ou três anos sob o nome de Papa João.
Seu mandato acabaria quando ela dá à luz a uma criança em público em Roma, revelando sua identidade feminina. As histórias variam quanto a seu fim: em algumas, ela morre em decorrência do próprio trabalho de parto; em outras, ela é executada pelas autoridades por sua farsa e traição, ou apedrejada pelo próprio povo romano. Joana teria sido então sucedida pelo papa Bento III.
A história ficou tão famosa que a papisa Joana aparecia em algumas listas oficiais de papas durante a Idade Média, além de pinturas, poemas e até em textos críticos à Igreja Católica durante a Reforma Protestante, muitos séculos depois. Uma catedral na Itália chegou a construir um busto em sua homenagem no século 16, inclusive, em meio a várias outras estátuas de papas.
Os mesmos relatos também diziam que era difícil achar informações oficiais sobre Joana porque a Igreja Católica estaria apagando sua existência dos registros nos séculos posteriores a sua morte.
A principal fonte histórica sobre a papisa Joana seria um texto intitulado Chronicon pontificum et imperatorum (“Crônicas de Pontíficiese Imperadores”), escrito pelo dominicano Martinus Polonus, que registra a vida e os reinados de vários papas e imperadores.
Mas a verdade é que Joana provavelmente nunca existiu. Todos os relatos são bem posteriores aos supostos acontecimentos, e contraditórios entre si (por exemplo: alguns dizem que seu papado foi no século 9; outros, no século 11). Fontes históricas da época em que a mulher supostamente viveu não mencionam nada parecido com as histórias posteriores.
Há também a suposição de que o trecho que conta seu papado no livro de Martinus Polonus tenha sido fruto de uma adulteração, ou seja, adicionado por algum copista em uma cópia posterior do livro.
As origens da lenda
Hoje, alguns historiadores acreditam que a lenda pode ter sido criada para difamar o papa João VIII, que comandou a Igreja no final do século 9 e era considerado por alguns críticos como covarde por sua aproximação com os bizantinos – e por isso foi pintado como uma mulher.
Uma outra hipótese é que a lenda foi feita para criticar a influência das mulheres sobre a Igreja no século 9, inspirada possivelmente por Marózia, uma nobre romana supostamente amante do Papa Sérgio III, e que teria sido fundamental para eleger vários outros papas, incluindo seu próprio filho, o Papa João XI. Seus opositores diziam que, na prática, Marózia e sua mãe, a também poderosa Theodora, atuavam como papisas nos bastidores da instituição. A lenda de Joana teria nascido para criticar justamente essa influência feminina na Igreja.
Fato é que a história ficou famosa, e foi popularizada em épocas diferentes para atender interesses distintos. Facções internas que tinham rixas com algum Papa, por exemplo, espalharam a história da Papisa Joana para mostrar que o cargo não era tão incorruptível e perfeito assim, por exemplo.
O tema ganhou ainda mais força nas reformas protestantes, que, por óbvio, buscavam criticar a Igreja Católica e suas tradições – incluindo o próprio papel do Papa. Para os primeiros protestantes, Joana era a prova de que a Igreja Católica era falha, já que chegou a ser comandada por uma mulher.
Foi na mesma época das reformas, porém, que os próprios católicos começaram a questionar a existência de Joana. O busto que existia dela numa catedral italiana foi retirado nesse contexto, sob protestos.
A partir do século 17, a maior parte dos historiadores, e até os religiosos tanto católicos como protestantes, passaram a ser mais céticos quanto à lenda. Hoje, é quase consenso que a história é falsa. De qualquer forma, a própria existência da lenda é interessante porque revela detalhes sobre a sociedade e a Igreja Medieval.