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Mulher considerada a “primeira médica da história” provavelmente nunca existiu

Ela teria vivido no Egito há 5 mil anos, mas um estudo recente afirma que tudo não passa de um caso de identidade trocada.

Por Maria Clara Rossini
18 dez 2019, 18h24 •
  • A cientista Merit Ptah viveu em 2700 a.C no Egito antigo. Ela está em livros de história, textos e já faz parte da cultura popular. É considerada a primeira médica da história e possui o título de “médica chefe” na tumba de seu filho. Um único detalhe: talvez ela nunca tenha existido – ou pelo menos não como conhecemos.

    Um estudo da Universidade do Colorado rastreou a história da cientista e descobriu uma incongruência na literatura de 80 anos atrás, em 1938. Nesse ano, a historiadora Kate Campbell Hurd-Mead publicou um livro em que menciona a história de Merit Ptah, que teria vivido em 2730 antes de cristo. A obra diz que uma imagem da cientista havia sido gravada na tumba de seu filho, um importante sacerdote da época. A tumba estaria localizada no Vale dos Reis, uma área reservada para nobres e faraós.

    Acontece que o Vale dos Reis só começou a ser utilizado por volta de 1540 a.C., quase mil anos após a morte da cientista. Além disso, ela não é representada da mesma forma que os médicos da época, seja na vestimenta ou na posição corporal. 

    Não há nenhuma outra menção à Merit Ptah como médica antes do livro de 1938. “O nome Merit Ptah existiu no Império Antigo, mas ele não aparece em nenhuma das listas dos antigos curadores egípcios”, diz o historiador Jakub Kwiecinski, que liderou o estudo.

    A cientista também não é mencionada nas listas de administradoras mulheres do Império Antigo. Mas isso não significa que não existissem médicas no Império Antigo – o título só passa para outra pessoa.

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    A provável detentora do título se chama Peseshet. Ela também viveu no Egito Antigo em 2400 antes de cristo. A descrição combina com a de Merit, mas tem alguns detalhes bem mais plausíveis. Ela foi descoberta em uma escavação em Giza, bem ao norte do Vale dos Reis. Na tumba de seu filho, ela é descrita como “supervisora das mulheres curandeiras”. 

    Ao contrário de Merit Ptah, Peseshet já havia sido mencionada em livros e artigos anteriores, mas sem o “peso” do título de ser a primeira mulher médica da história.

    O autor do estudo acredita que o livro tenha trocado as identidades por engano, e acabou dando toda a fama para a mulher errada. Merit Ptah é constantemente citada em livros e textos que defendem a participação da mulher na ciência. A confusão não tira a importância desse exemplo. “Isso mostra como esses modelos têm sido importantes para a entrada de mulheres na ciência e medicina”, disse o pesquisador.

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