Como os nativos da Ilha de Páscoa lutam para preservar 897 moais – e toda a sua cultura milenar
Há 1.400 anos, aventureiros polinésios fundaram uma civilização isolada na ilha mais remota do Pacífico, que adornaram com imensas estátuas de seus ancestrais. Agora, o povo Rapa Nui tenta defender sua independência política e suas relíquias arqueológicas.

Texto Victor Bianchin Design Caroline Aranha e Luana Pillmann Edição Bruno Vaiano
Há 1.400 anos, aventureiros polinésios fundaram uma civilização isolada na ilha mais remota do Pacífico, que adornaram com imensas estátuas de seus ancestrais, conhecidas como moais. Agora, o povo Rapa Nui luta para preservar sua cultura, sua independência política e suas relíquias arqueológicas.
o começo da primavera marcava também o início de um ritual. Os habitantes da Ilha de Páscoa subiam os 300 metros que levam ao topo de Rano Kao, uma cratera vulcânica no extremo sul da ilha, e por lá se instalavam em pequenas habitações de pedra. A vila se chamava Orongo e foi construída no século 16 com propósitos estritamente cerimoniais – ninguém morava por lá. Ali, os ilhéus passavam semanas realizando eventos e festividades em preparação para a cerimônia do tangata manu (“homem-pássaro”).
Quando chegava a hora, os líderes das principais tribos da ilha, ou então representantes que eles haviam escolhido, desciam um paredão rochoso até o mar. De lá, nadavam cerca de 1,4 quilômetro nas águas azuis e geladas do Pacífico até a ilhota vizinha de Motu Nui. Alguns sucumbiam ao barranco, outros à água, outros aos tubarões. A aptidão física se misturava com a sorte ou, na visão de alguns, a preferência divina.
Quem chegava a Motu Nui estava em terra sagrada. Diz a lenda que, ao voltar de uma terceira ilha, na época chamada de Motu Motiru Hiva (hoje, a Ilha de Sala y Gomez, um naco de terra desabitado ao leste da Ilha de Páscoa), o deus Make-Make, criador de todas as coisas, parou em Motu Nui trazendo pássaros, os quais lá deixou para que procriassem em segurança. O plano divino deu certo: embora as andorinhas (Onychoprion fuscatus) não sejam nativas da região, centenas delas aparecem por lá todo setembro para deixar seus ovos.
Uma vez em Motu Nui, o objetivo dos chefes tribais é justamente encontrar um desses orbes. Eles se espreitavam pelas mais de 20 cavernas de Motu Nui esperando as andorinhas – até hoje, as paredes dessas alcovas preservam petróglifos, a escrita ancestral do povo Rapa Nui. O primeiro a nadar de volta, escalar as rochas e alcançar Orongo com um ovo intacto era declarado homem–pássaro (ou o título ia para o chefe que ele estava representando).
O novo tangata manu era considerado tapu (sagrado). Ele depilava o corpo da cabeça aos pés, pintava o rosto de vermelho e preto e, em uma cerimônia, ganhava o ao, um remo duplo que simbolizava seu status. Sua família passava a ter privilégios econômicos, enquanto, para os demais, restava a satisfação de ver o ritual completo e a certeza de que o ano teria colheitas fartas e muitos peixes na rede. O tangata manu passava a viver em reclusão por um ano, até que o próximo tomasse seu lugar.
A última cerimônia do homem-pássaro aconteceu em 1867. Apenas 13 anos depois, a Ilha de Páscoa registrava apenas 110 habitantes. Em 1888, viria a anexação pelo Chile. As origens, o auge e a decadência dessa civilização pujante, que floresceu em uma ilha remota no coração do Pacífico, permanecem como um dos mistérios mais fascinantes da história e da arqueologia. Fomos até lá investigá-lo.
As origens
De acordo com o mito Rapa Nui, por volta do ano 600 d.C. – enquanto a Europa mergulhava na Idade Média e Maomé começava a pregar o islã –, um sacerdote polinésio vislumbrou em sonho a localização da Ilha de Páscoa. Então, o lendário Hotu Matu’a, chefe de uma sociedade ilhéu que provavelmente ficava no Arquipélago das Marquesas, na Polinésia Francesa, montou uma excursão para encontrar o lugar sagrado e assentar sua gente (a mudança, na prática, deve ter sido motivada por uma erupção vulcânica ou conflitos internos).
Hotu Matu’a enviou sete batedores para encontrar a ilha, e estes assim o fizeram. Eles voltaram com a confirmação da terra sagrada, o que fez Hotu Matu’a, sua família e seus seguidores entrarem em suas canoas e se mudarem para lá. Desembarcaram em Anakena, a única praia da ilha, pois o resto da costa é todo rochoso, e lá a família real se assentou.

Pouco antes de sua morte, Hotu Matu’a dividiu o território da ilha entre seus filhos, que formaram oito tribos principais e quatro menores. Ao longo do tempo, esses clãs se uniram em dois grupos, dividindo a ilha: os Miru ocuparam o noroeste, enquanto os Hotu Iti ficaram no sudeste.
Esses desbravadores e seus descendentes seguiam as tradições de outras etnias polinésias: a ordem social era baseada em linhagens, o líder supremo era considerado divino e a subsistência era baseada na agricultura e na pesca. No topo da cadeia estava o líder (ariki mau), seguido pelos sacerdotes e xamãs (ivi atua e maori) e pelos clãs guerreiros (matatoas). Em seguida, vinham os trabalhadores (pescadores, artesãos) e o povo comum.
Era um povo politeísta, que cultuava seus antepassados com o mesmo fervor que os deuses. É daí, diga-se, que vêm os moais. Assim como muitas outras sociedades neolíticas, os povos do Pacífico gostavam de erigir grandes monumentos para homenagear seus tataravós. Eles ganhavam nomes diferentes em cada ilha, como marae, heiau e tohua. Mas foi na Ilha de Páscoa que esses tótens acabaram alçados à fama.
Os moais
A história desses gigantes começa na matéria-prima. O vulcão Rano Raraku, já inativo, era uma fonte abundante de tufo, uma rocha vulcânica formada pela compactação de cinzas e fragmentos expelidos durante erupções. Esse material era relativamente fácil de esculpir – e as tribos logo se puseram a trabalhar.
Um moai representava os ancestrais da tribo que o erigia. Era colocado em uma plataforma (ahu) especial, quase sempre na costa, bem próximo ao mar, junto a outros cabeçudos. Com raríssimas exceções, essas estátuas ficavam de costas para o mar, porque tinham função protetora: delas emanava o mana dos antepassados, uma energia vital que protegia os nativos e seus territórios.

Na crença Rapa Nui, o mana exala de pessoas ou de certos objetos mágicos, é herdável e pode ser adquirido e transmitido (por exemplo, quando um artesão se torna exímio em seu ofício).
Em vez de carregar os blocos de tufa até as plataformas (ahu) e esculpir as estátuas em seu local de repouso final, os Rapa Nui preferiam fazer todo o trabalho antes do transporte.
Eles escalavam a escarpa exterior do vulcão, esculpiam o moais na rocha e só então o separavam em definitivo. Ainda não há certeza absoluta sobre como os moais eram transportados por dezenas de quilômetros até seus destinos finais.

O arqueólogo José Miguel Ramírez Aliaga, em artigo recente, diz que não se sabe por que os Rapa Nui esculpiam os moais na parede da montanha, já que era um trabalho difícil e arriscado, em vez de cortar os blocos e talhá-los no solo. “A explicação deve ser simbólica. Talvez houvesse algo em Rano Raraku que tornava necessário fazer dessa forma, algo natural, mas incompreensível. Talvez a excepcional fertilidade do lugar fosse uma demonstração de um mana muito poderoso”, escreveu ele. (A tufa contém muito fósforo, ótimo como adubo.)
Os ahus eram, além de plataformas para os moais, também uma expressão do poder da nobreza na sociedade Rapa Nui. Ao seu redor, ficavam habitações, poços, plantações e galinheiros que a tribo utilizava em cerimônias religiosas. Era comum, com o passar do tempo, que os ahus fossem desmontados para serem expandidos, dando lugar a versões maiores e mais imponentes.
Uma guerra inventada?
No final do século 17, por volta de 1680, é possível que tenha ocorrido uma grande batalha na Ilha de Páscoa. Livros, artigos científicos mais ortodoxos e até os painéis do museu local afirmam que, por volta dessa época, as tribos Rapa Nui entraram em crise devido à falta generalizada de alimentos, causada por séculos de exploração abusiva dos recursos naturais da ilha (o que, por si só, já é uma hipótese bastante contestada). A disputa por subsistência e até episódios de canibalismo teriam culminado em uma guerra tribal na qual os moais acabaram derrubados – abater as estátuas de uma tribo rival era cortar sua fonte de mana e romper seu elo com os antepassados.
O problema é que análises mais recentes não revelam indícios sólidos a favor dessa versão dos acontecimentos. “Encontramos poucos, se é que há, correlatos arqueológicos comuns [da guerra], como trauma esquelético letal em grande escala, fortificações ou produção sistemática de armas letais”, afirmam os pesquisadores Robert J. DiNapoli, Carl P. Lipo e Terry L. Hunt, que escreveram em 2021 um importante artigo no Journal of Pacific Archaeology desmistificando esse mito secular. Nem mesmo os exploradores europeus, que começaram a chegar a partir do século 18, foram unânimes em apontar costumes violentos entre os nativos, conforme é possível ler em anotações preservadas.
Essa narrativa de canibalismo e guerra tem suas raízes em duas fontes: um missionário católico que chegou no século 19 para converter os Rapa Nui, conhecido apenas como Roussel, e o pintor francês Pierre Loti, que ouviu os relatos de violência sobre uma ilha diferente, Rapa Iti, e provavelmente confundiu as duas. Loti, inclusive, pintou gravuras retratando nativos derrubando os moais. “Os relatos especulativos de Roussel e Loti foram tratados como fatos históricos e continuamente reiterados por visitantes europeus posteriores, tendo sido erroneamente aceitos por acadêmicos contemporâneos”, escreve o trio de pesquisadores.
À mercê de exploradores
É fato que os moais caíram na época da suposta guerra. Os motivos reais mais prováveis foram o desgaste natural das plataformas e terremotos, mas é certo que houve também uma mudança cultural: os Rapa Nui perderam o interesse em erguer estátuas e passaram a se concentrar em rituais de fertilidade, como a cerimônia do homem-pássaro.
O conflito real estava a caminho: a Ilha de Páscoa foi “descoberta” por um capitão neerlandês chamado Jacob Rog- geveen, que a avistou em um domingo de Páscoa, dia 5 de abril de 1722. Depois dele, vieram espanhóis, franceses, britânicos, americanos e peruanos. Com eles, o caos: muitos nativos foram escravizados e levados para trabalhar fora da ilha. Os americanos, por exemplo, obrigavam os Rapa Nui a atuar na caça de focas. Já os peruanos traficaram 2 mil Rapa Nui para minerar guano (excremento de aves e morcegos) na costa do Peru.

Os forasteiros também trouxeram doenças, como varíola e tuberculose, contra as quais os Rapa Nui, isolados por séculos, não tinham defesas naturais. A violência dos colonizadores quase resultou na extinção dos nativos: em 1880, só havia sobrado 110 deles.
Pouco antes disso, em 1868, marinheiros britânicos a bordo de um navio de guerra, o Topaze, roubaram um dos moais – o único que havia em Orongo, a vila do começo desta reportagem – e o levaram para a Inglaterra para dar de presente à Rainha Vitória. Os Rapa Nui apelidaram esse moai de Hoahakananai’a (“amigo roubado”). Ele está até hoje no Museu Britânico, em Londres.
A civilização Rapa Nui só não acabou porque, em 1888, Atamu Tekena, o ariki mau (rei) da época, assinou o Acordo de Vontades, que cedeu a soberania e o território Rapa Nui ao Chile. Nessa época, a ilha estava arrasada, com a população nativa reduzida, os moais derrubados e a atividade econômica resumida a criar ovelhas para uma empresa chilena.
O Acordo protegeu a ilha do tráfico humano, mas criou diversos outros problemas. O Chile tinha zero interesse na importância histórica do local e manteve o território como um grande pasto, com a empresa responsável oprimindo os nativos e tomando suas terras. Pior que isso, na década de 1930, o governo chileno tentou vender a ilha para os EUA, Reino Unido, Japão e até a Alemanha nazista, numa tentativa de fazer caixa para aumentar seu poder bélico.
Em meados do século 20, a situação se estabilizou: o Chile criou um Parque Nacional em 1935 que reunia a maioria dos locais históricos, começou os trabalhos de restauração arqueológica na década de 1950 e iniciou o turismo na década de 1960, quando o aeroporto foi construído. Aliás, a ilha é tão pequena que a pista do Aeroporto Internacional Mataveri a atravessa de uma extremidade a outra. Em 1967, a ilha foi declarada parte da província litorânea de Valparaíso e passou a ter um governante local, eleito democraticamente.
A renovação da sociedade Rapa Nui trouxe também um forte sentimento separatista. Até hoje, grupos nativos tentam conseguir, por meios legais, mais autonomia, a devolução de terras ainda em poder do estado chileno e, em última instância, sua independência.
Os esforços de conservação
Os moais também são ameaçados pela degradação natural de sua matéria-prima. “As constantes exposições ao Sol, ao vento, à umidade e à chuva causam um desgaste progressivo na superfície dos moais, fazendo com que os detalhes esculpidos se deteriorem e, em alguns casos, se tornem menos visíveis”, afirma Gabriela Attalah, arqueóloga e curadora do Museo Antropologico P. Sebastian Englert (Mapse), o único da ilha. “Além disso, a umidade e as variações de temperatura podem provocar fissuras e fraturas na estrutura dos moais, enfraquecendo-os com o tempo.”
Não é só: a constante exposição à umidade, à chuva e à salinidade do mar criam um ambiente ideal para líquens e microflora nos poros e na superfície das esculturas. Outro agravante são as marés, que se tornam cada vez mais intensas graças ao aquecimento global – como a maioria dos moais está na orla, eles são especialmente vulneráveis. Para completar o pacote, a ilha está sujeita a terremotos e tsunamis. O tremor de Valdívia em 1960, o mais forte da história registrada, gerou ondas que destruíram o centro cerimonial de Ahu Tongariki e deslocaram as estátuas mais de 200 metros terra adentro.

Em 1970, foi realizado o primeiro diagnóstico sobre o estado de conservação dos moais, revelando que estavam em condições muito precárias. Criou-se, então, um protocolo de restauração e manutenção da tufa, que envolve remoção de líquens, impermeabilização e aplicação de substâncias tóxicas para bactérias, fungos e outras ameaças. Idealmente, ele precisaria ser repetido a cada cinco anos. Mas, principalmente por falta de mobilização política, a maior parte das estátuas espera sentada por sua primeira vez no spa. A maior parte dos moais – cerca de 800 dos 897 conhecidos – precisa de alguma manutenção.
A responsabilidade recai sobre várias mãos. Da parte do Chile, o Conselho de Monumentos Nacionais deve cuidar do Parque Nacional, que engloba 43% do território da ilha e a maioria dos ahus e moais. Da parte dos Rapa Nui, a administração é feita pela Comunidade Indígena Ma’u Henua desde 2018 e pela Corporação Nacional Florestal do Chile (CONAF). Os Ma’u Henua cobram ingressos para visitação do parque, e os recursos arrecadados são reinvestidos na administração e em projetos de conservação. Turistas que visitam a ilha só podem acessar os monumentos se tiverem ingresso.
Além disso, o dinheiro também vem de ONGs, iniciativas governamentais esporádicas e convênios com instituições estrangeiras, como universidades. Desde 1995, o Parque Nacional Rapa Nui também é um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco, o que possibilita financiamento internacional. Em 1992, o governo japonês contribuiu para a restauração completa de um ahu chamado Tongariki, um longo e delicado processo que terminou em 1996 e resultou no que é, hoje, o sítio arqueológico mais imponente da ilha.
Por que os Rapa Nui abandonaram tantos moais na pedreira?
Ninguém sabe ao certo. Talvez tenha sido pela dificuldade de movê-los ou pela falta de recursos (troncos, essencialmente) para o transporte. É possível também que os que estão na pedreira de Rano Raraku tenham sido feitos para ficar lá. Mas há um mistério: “A impressão que se obtém no local é que, por alguma razão, esse gigantesco trabalho foi interrompido abruptamente. As ferramentas deixadas sugerem que os trabalhadores poderiam voltar a qualquer momento”, explica o estudioso Carlos Schulz. Não voltaram.
O amigo roubado
Em janeiro deste ano, a Ilha de Páscoa recebeu de volta mais de 600 itens históricos que haviam sido levados na década de 1950 e estavam abrigados no Museu Kon-Tiki, da Noruega. Tratava-se de restos mortais de ancestrais nativos, retirados em uma época em que os ilhéus não tinham como impedir o ato. A devolução foi um processo marcado por manifestações espirituais: antes da transferência, ainda na Noruega, o Mau Hatu, conselho de anciãos da ilha, passou uma noite dormindo ao lado dos itens para restabelecer o contato com os espíritos a quem eles pertencem.
Além da importância mística, o acontecimento representa uma vitória diplomática para os Rapa Nui, que vêm tentando reaver artefatos de sua cultura espalhados pelo mundo. O item mais importante, claro, é o amigo roubado em Londres. Uma campanha recente nas redes sociais trouxe de volta o debate sobre sua devolução – o Museu Britânico, no ano passado, se limitou a dizer que “acolheu bem o debate”.
Para os Rapa Nui, a repatriação desses itens representa um momento de “renascimento” (nas palavras de uma revista local), já que o sentimento anticolonialista vem crescendo exponencialmente nos últimos anos. As estátuas simbolizam uma cultura invadida, violada e conspurcada – e que só agora consegue retomar as rédeas de sua própria história. Mantê-las saudáveis é devolver o mana que, por tanto tempo, emprestaram ao pedaço de terra mais isolado do mundo.