ra uma vez um muro que dividia a Alemanha. Não era o de Berlim. No ano 9 depois de Cristo, 20 mil legionários romanos atravessaram o Rio Reno para conquistar o norte da Europa. Mas caíram em uma emboscada armada por Hermann – em português, “Armínio” –, chefe da tribo dos queruscos. Os romanos foram massacrados.
Depois da humilhação, Augusto, primeiro imperador de Roma, se convenceu de que as tribos do atual território alemão eram um caso perdido. Mandou construir uma muralha ao longo do Rio Reno para protegê-lo do que chamou de furor teutonicus (o “furor teutão”). Assim, esses guerreiros loiros comedores de batata conseguiram um privilégio raro na Antiguidade: seguir comendo suas batatas, do outro lado do muro. Nada de aula de latim.
Os romanos batizaram esse norte supostamente selvagem, além da muralha, de Germania. A origem do termo é incerta. No século 19, um linguista chamado Jacob Grimm supôs que o nome deriva da palavra celta gairmeanna, que significa “barulho” ou “grito”. Afinal, os germânicos eram vizinhos dos gauleses (o povo celta subjugado pelos romanos e famoso pelo personagem Asterix). E ninguém melhor do que um vizinho para reclamar de barulho.
Jacob Grimm nasceu em 1785 na cidade de Hesse, na parte oeste de onde hoje fica a Alemanha. Com 11 anos, ficou órfão do pai, um funcionário público de classe média. A família caiu na pobreza. Com uns 20, Jacob percebeu que era órfão de país também. Não foi só ele. Na época, todo mundo percebeu. É só prestar atenção na história da Alemanha.
Primeiro, os alemães eram grupos desconexos, unidos apenas por um nome dado pelos romanos, “germânicos” – e não por eles próprios (o nome do país em português, inclusive, vem de um desses grupos independentes, os alamanos).
Depois, os alemães deram de ser romanos: no ano 800, plena Idade Média, o líder militar Carlos Magno fundou um certo Sacro Império Romano Germânico. Na prática, aquilo era um amontoado de centenas de principados de economia agrária, mais ou menos independentes politicamente, cada um com suas leis e impostos. Aos trancos e barrancos, esse megazord feudal durou mil anos, até ser anexado e dissolvido por Napoleão, em 1806.
Pior do que ser invadido por um francês é admitir que a vida ficou melhor depois da invasão. Antes, a população vivia sob um sistema quase feudal, subjugada por nobres locais. Os franceses eram caras relativamente democráticos, e cortaram os privilégios de sangue que mantinham esse nobres há gerações no poder. Eles também cortaram umas 3 mil cabeças por lá (nós dissemos “relativamente” democráticos). Os germânicos ficaram em crise existencial, precisando de um psicólogo.
Jacob Grimm ainda não sabia, mas ele acabou sendo o psicólogo. Tinha cinco irmãos mais novos; só um deles ficou famoso: Wilhelm Grimm. Juntos, Wilhelm e Jacob escreveram um dos mais importantes dicionários da língua local, o Deutsch, pesquisaram a origem do Deutsch e brigaram para que a terra dos que falam Deutsch se tornasse um país unido e democrático – aquele que a gente hoje chama de Alemanha, e que os alemães seguem chamando de Deutschland (“terra dos que falam Deutsch”). E tudo começou com contos de fada.
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