“Vinagre de Maçã”: entenda a fraude real que inspirou minissérie da Netflix
Belle Gibson existiu mesmo, mas nem tudo aconteceu do jeitinho que foi encenado. Saiba o que é verdade e o que foi adaptado.

A mais nova minissérie da Netflix, Vinagre de Maçã, produzida pela roteirista australiana Samantha Strauss, conta a história de duas garotas que, no início dos anos 2000, alegaram que tinham curado seus cânceres por meio de práticas holísticas, como uma alimentação orgânica, dietas de sucos, enemas de café e suplementos naturais.
Nos seis episódios, a frase de abertura deixa claro que aquela obra é “uma história real baseada em uma mentira” e que “a produção é inspirada em fatos. Alguns personagens e eventos foram criados ou ficcionalizados.” Mas será que tudo da série aconteceu daquele jeito mesmo?
Sim e não. A história é, de fato, real – e ocorreu em uma linha do tempo curta, entre 2009 e 2015. Uma das duas garotas envolvidas no caso é a personagem principal, Belle Gibson, uma australiana de 20 anos, que, em 2013, estourou na internet após compartilhar com seus seguidores que tinha superado um câncer terminal no cérebro. Os médicos haviam lhe garantido apenas entre seis semanas a quatro meses de vida.
Tal superação teria vindo a partir de uma mudança radical em sua dieta, optando apenas por alimentos orgânicos e uma cura natural, longe da radioterapia e quimioterapia – na época, Gibson disse ter desistido de ambos os tratamentos depois de dois meses, com o objetivo de embarcar em sua jornada da “cura natural”.
Era tudo mentira. Gibson nunca recebeu o diagnóstico de câncer no cérebro – e nem o de sangue, baço, cérebro, útero e fígado que ela relatou mais tarde. Porém, na época, seus 200 mil seguidores (e uma boa parte do globo que acompanhou a história indiretamente) acreditaram no que a jovem tinha para dizer.
Belle Gibson, que na trama é interpretada por Kaitlyn Dever, lançou um aplicativo de bem-estar cheio de receitas, que mais tarde se tornaram livro, ambos chamados The Whole Pantry (algo como A Despensa Saudável – nesse caso, “whole” é usado não no sentido de “todo”, mas como uma abreviação de “wholesome”).
Em 2013, a revista Elle Australia chamou Gibson de “a mulher mais inspiradora que você conheceu este ano”. Em 2014, outra revista, a Cosmopolitan, premiou a influenciadora como “Mulher Divertida e Destemida”. O The Whole Pantry foi eleito como o “Melhor Novo Aplicativo de Comida e Bebida” da Apple – na época, a empresa tech listou o aplicativo como essencial para o recém-lançado Apple Watch.
Gibson fechou um contrato com a editora Penguin por um livro com suas receitas e que contasse também sobre sua jornada. A obra, que mais tarde saiu de circulação, narrava como ela teria se fortalecido “para salvar minha própria vida por meio da nutrição, paciência, determinação e amor – além de tratamentos com vitaminas, Ayurveda, terapia craniossacral e muitos outros métodos”.
Por alguns anos, Belle, uma jovem bonita e cheia de vida, serviu de esperança e inspiração para que inúmeras pessoas seguissem os caminhos da terapia natural contra o câncer. Uma das personagens da série, Lucy (Tilda Cobham-Hervey), que luta com seu próprio diagnóstico, é fictícia, mas representa perfeitamente os efeitos e riscos que a mentira de Gibson surtiram em pessoas que realmente tinham a doença.
Na história, Lucy viaja para a Amazônia peruana em busca de um retiro de bem-estar recomendado por Belle. Por lá, o tratamento supostamente ajudaria contra o câncer. Mas, no fim das contas, Lucy foi parar no meio de um ritual de Ayahuasca (uma importante cerimônia religiosa e que está sendo estudada para ajudar pacientes com depressão, mas que não tem nenhum efeito conhecido contra células cancerígenas).
A outra garota que aparece em Vinagre de Maçã é Milla Blake (Alycia Debnam-Carey), dona e escritora do blog Wellness Warrior, que bombou junto com a conta de Gibson. Na série, a blogueira foi diagnosticada com sarcoma epitelioide distal em seu braço. A recomendação médica era amputar o membro, mas Blake, no início dos seus 20 anos, busca por alternativas.
A trama de Milla é inspirada na história de Jessica Ainscough, que assim como na série acreditava em terapias pseudocientíficas. Uma delas era a Terapia Gerson, desenvolvida por Max B. Gerson, que tinha como teoria que “o câncer se desenvolve quando há alterações no metabolismo celular devido ao acúmulo de substâncias tóxicas no corpo”. O tratamento proposto por Gerson sugeria que pacientes diagnosticados embarcassem em “uma dieta orgânica à base de plantas, sucos crus, enemas de café e suplementos naturais”.
Assim como Blake, Ainscough também morreu por negligenciar os tratamentos médicos.
A série mostra uma fixação de Gibson por Milla. Na vida real, as duas interagiram algumas vezes, mas não o suficiente para que a relação fosse classificada como uma rivalidade (ainda que Gibson realmente tenha ido ao velório de Jessica).
Para o site Today, Alycia Debnam-Carey, que interpretou Milla, disse que o papel foi criado como um personagem próprio. “Isso foi o mais interessante. Pudemos fortalecê-la para que ela pudesse enfrentar Belle de igual para igual.”
Assim como na série, o início do fim das mentiras de Gibson também se deu na mão de dois jornalistas: Beau Donelly e Nick Toscano, que, em 2017, escreveram o livro The Woman Who Fooled the World (“A Mulher que Enganou o Mundo”). A série se baseou na publicação.
Uma ex-amiga de Gibson, na série retratada pela personagem Chanelle (Aisha Dee), suspeitava das histórias de câncer e resolveu confrontar a colega. Belle não conseguiu apresentar provas de seu diagnóstico.
Diante da recusa de Gibson em admitir a mentira, a amiga levou o caso à imprensa. Embora fosse uma alegação difícil de comprovar, a publicação de um artigo sobre fraude envolvendo doações de caridade que nunca aconteceram fez com que a atenção fosse voltada para Gibson, e dúvidas sobre sua saúde surgiram.
Após o escândalo, Gibson tentou se defender, mas não conseguiu provar suas alegações. Ela perdeu contratos com a editora Penguin e a Apple. Deu poucas declarações, em que reforçava que nunca havia mentido. Em 2015, em uma entrevista à Australia’s Women’s Weekly, ela finalmente admitiu que nunca teve câncer, mas não se desculpou pelas lorotas.
Em 2017, a justiça australiana a considerou culpada de enganar o público e exigiu o pagamento de 410 mil dólares canadenses. Porém, a dívida cresceu com juros e penalidades, e hoje passa dos 500 mil – o equivalente a R$ 1,8 milhão. Gibson ainda não pagou a multa.