O museu das obras perdidas: quem tem interesse em roubar arte?
Apenas 10% das pinturas e esculturas roubadas pelo mundo são recuperadas. Entenda como os assaltos a museus acontecem – e as dificuldades de investigação
24 de fevereiro de 2006, sexta-feira de Carnaval. O cantor Gilberto Gil, que na época era também ministro da Cultura, comandava o trio elétrico Expresso 2222, em Salvador, diante de um sem-fim de gente que comemorava o feriado mais aguardado do Brasil.
Quem vê as fotos de Cybershot de um Gil sorridente ao lado de seu convidado especial, Bono Vox, do U2, não imagina a gravidade da ligação que chegava no celular do cantor baiano.
“Eu tenho uma coisa ruim para te falar em pleno Carnaval”, disse José do Nascimento, então diretor do Departamento de Museus do Ministério da Cultura. Foi assim que ele noticiou o roubo de um quadro de Monet, um de Salvador Dalí, um de Matisse, e duas obras de Picasso do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. O valor estimado das obras na época era de US$ 10 milhões. É, até hoje, o maior roubo de arte da história do Brasil.
Em meio aos foliões, Gil ligou para o ministro da Justiça e acionou a Polícia Federal. O Carnaval atrapalhou as primeiras respostas ao crime – sinal de que a data não foi escolhida ao acaso. Os ladrões se aproveitaram de um dia em que o museu estava vazio, as ruas estavam bloqueadas pelos blocos e as fantasias eram tão variadas que ninguém acharia estranho ver um rapaz com um Monet debaixo do braço. Os assaltantes saíram ilesos.
Os quadros permanecem perdidos, como é o caso de 90% das obras roubadas em todo o mundo (1). “Sempre que isso ocorre dá uma dor no coração, porque a gente parte do pressuposto que a recuperação não vai ocorrer”, diz Guilherme Udo, especialista em mediação cultural e professor da Faculdade Belas Artes.
Se todas as obras de arte desaparecidas estivessem em um único museu, ele seria, sem dúvida, um dos mais prestigiados do mundo. Haveria 551 Picassos, 43 Van Goghs, 174 Rembrandts e 209 Renoirs (2), além do famoso O Concerto, de Vermeer, Natividade, de Caravaggio, e milhares de outras obras.
Em 2025, houve algumas adições notórias ao museu fictício: joias da Coroa francesa roubadas do Louvre, em outubro; oito obras de Matisse e cinco de Candido Portinari levadas da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, em dezembro. Assim como na Chácara do Céu, ambas as ações contaram com falhas nos sistemas de segurança das instituições.
A Polícia Internacional (Interpol), que recebe denúncias de instituições culturais de diversos países (3), tem 57 mil obras roubadas em sua base de dados. Já o Art Loss Register, mais focado no mercado privado, contabiliza 700 mil itens. O maior banco de dados de arte e artefatos roubados é o dos Carabineiros, da Itália – 1,3 milhão de itens do mundo todo, disponíveis para consulta (4).
A realidade dos roubos a museus é bem mais comum e menos glamourosa do que aparece em filmes. Vamos entender por que esse tipo de crime tem motivações, interesses e cifras incomparáveis a qualquer outro.
Anatomia de um assalto
Não existem muitos dados sobre como ocorrem os crimes fora dos filmes de ação. Uma pesquisa recente da Universidade de Cambridge (5) tentou descobrir o que há em comum entre os casos da vida real. Os pesquisadores compararam 40 grandes roubos de obras de arte ocorridos entre 1990 e 2022.
A maior parte deles envolve algum tipo de violência ou dano ao patrimônio. Eles podem ser como o da Chácara do Céu, em que os ladrões rendem os seguranças e visitantes antes de sair com as obras (20,5% dos casos). Ou como o do Museu de História da Arte de Viena em 2003, quando o assaltante simplesmente quebrou o vidro protetor e saiu correndo com a escultura Saliera, que só foi recuperada três anos depois. Essa estratégia foi usada em 28,2% dos casos.
Em 5,1% dos roubos analisados, os assaltantes se fantasiam ou fingem ser autoridades para ganhar a confiança dos seguranças. Foi o que aconteceu no Museu Isabella Gardner, em Boston (EUA), considerado o maior roubo de arte já registrado.
Em 18 de março de 1990, dois homens vestidos de policiais tocaram a campainha do museu, alegando se tratar de uma reclamação de barulho. Ao entrarem no prédio, os policiais de mentira trancaram os seguranças no sótão e iniciaram o roubo. Foram levadas 13 obras de Rembrandt, Vermeer, Degas e outros – um total estimado em US$ 500 milhões na época (US$ 1,4 bilhão em valores atuais).
As obras nunca foram recuperadas. As molduras que ornavam as pinturas permanecem expostas, vazias, na sala do museu. É uma lembrança de que aquelas imagens estão fora do olhar público há mais de 30 anos.
A forma mais popular de roubar uma obra é agir furtivamente (38,5% dos casos). Mapear as câmeras nos dias anteriores, identificar falhas de segurança e assaltar de madrugada, sem disparar alarmes. Em 1994, ladrões usaram uma escada para entrar na Galeria Nacional de Oslo pela janela e levar uma das versões de O Grito (Edvard Munch produziu cinco ao longo da vida). No dia seguinte a administração encontrou um bilhete no local onde ficava a obra, com o recado: “Obrigado pela segurança falha”.
Segundo os autores do estudo, não é necessário uma estratégia complexa para executar um roubo a museu. Os ladrões tendem a usar força bruta para burlar os sistemas de segurança, como ferramentas e armas de fogo. Para completar, nenhum dos guardas presentes nos assaltos analisados estava armado. Em 90% dos casos, a equipe de segurança só consegue agir depois da ação, e não durante.
Esse é um dilema comum a museus: enquanto as instituições devem proteger o patrimônio, elas também devem garantir o acesso seguro de milhares de pessoas às obras. Ou seja: não dá para trancafiar as obras num cofre secreto, longe de assaltantes (mas também do público) nem sair atirando para todos os lados durante um assalto.
“Eu gosto de acreditar que a Mona Lisa está em um bunker a 1 quilômetro debaixo da terra, e o que está no Louvre é uma cópia fiel”, brinca Udo. “Mas sabemos que isso não é verdade.”
Porém dá para melhorar os sistemas de proteção. O roubo ao Louvre em 2025 expôs falhas graves na segurança do museu mais visitado do mundo, como a falta de câmeras na janela pela qual os ladrões entraram e em outras áreas do local.
As brechas não são um problema de hoje: em 2014, um relatório (6) apontou que a senha para o acesso ao sistema de vigilância do Louvre era… “Louvre”.
Se problemas como esses ocorrem em lugares prestigiados como o museu francês, dá para imaginar a situação de instituições menores. “Para a segurança é preciso investimento. E, dentro do contexto brasileiro, a cultura é deixada de lado. O caso da Biblioteca Mário de Andrade escancara um pouco isso”, diz Udo.
Na manhã do dia 7 de dezembro de 2025, dois homens entraram na biblioteca pública no centro de São Paulo e renderam um segurança e um casal de visitantes. Embora estivesse abrigando uma exposição de arte, não havia câmeras na biblioteca. A busca está sendo feita com base nas filmagens do Smart Sampa, programa de segurança pública que possui 40 mil câmeras espalhadas pela cidade.
Mas, afinal: para onde vão as obras roubadas?
Bancando o Sherlock
O primeiro passo para resolver um roubo de arte é notificar as obras perdidas à Interpol. É comum que elas saiam do país onde ocorreu o assalto, então aeroportos, portos marítimos e pontos de controle de fronteiras devem estar cientes do crime.
Segundo Robert Wittman, ex-agente do FBI e um dos maiores especialistas em roubos de arte do mundo, os investigadores do caso devem aprender tudo sobre as obras roubadas: movimento artístico em que elas se inserem, técnicas utilizadas, possíveis colecionadores interessados etc. Além de auxiliar a investigação, esse conhecimento permite discernir a obra verdadeira de uma cópia quando chegar o momento de recuperá-la.
Não é algo trivial. Por volta de 1999, o quadro Odalisca com Calças Vermelhas, de Matisse, foi roubado e substituído por uma cópia no Museu de Arte Contemporânea de Caracas, na Venezuela. Ninguém percebeu. O crime só foi descoberto em 2002, quando um negociante de arte tentou vender o original a uma galeria em Miami.
Também é importante conhecer o histórico do vaivém da obra. Um quadro pouco conhecido que foi roubado mais de uma vez (ou que tenha sido alvo de diversas tentativas de assalto) pode sugerir que há um ou mais colecionadores interessados, encomendando os crimes. José do Nascimento, que é mestre em Antropologia Social pela UFRGS, descreve esse tipo de roubo como “ególatra, um crime do desejo”.
Há também os assaltantes que levam obras pela adrenalina da coisa. É o caso de Vjeran Tomic e outros ladrões excêntricos que roubaram dezenas de obras ao longo dos anos, sem intenção primária de revendê-las. Tomic recebeu o apelido de “Homem-Aranha francês”, graças à habilidade de escalar prédios para entrar em apartamentos.
A cena do milionário ou cleptomaníaco que fica em casa admirando a obra roubada, no entanto, representa apenas uma fração dos assaltos. Edgar Tijhuis, pesquisador da Associação para Pesquisa de Crimes contra a Arte (ARCA), fez um levantamento de 50 roubos de arte já solucionados entre 1960 e 2003 (7). Segundo a análise, a maior parte das obras é usada como moeda de troca para outros crimes, como tráfico de drogas ou de armas.
“Um Picasso compra quantos diamantes sujos? Ou quantos quilos de fentanil? É esse tipo de conversão”, diz Cristina Tardáguila, autora do livro A Arte do Descaso, que investiga o assalto ao Museu da Chácarado Céu, em 2006. Ela participou de uma conferência da ARCA em 2013 para entender o contexto em que esses crimes ocorrem.
O valor de moeda explica a dificuldade de encontrar as obras roubadas. Mesmo quando os ladrões são pegos, muitas vezes as obras permanecem desaparecidas. “Elas circulam muito rápido. É como ir atrás de uma nota de 100 dólares marcada com uma estrelinha – você não vai achá-la”, diz Tardáguila.
Ela conta ainda que, entre os pesquisadores de arte, há uma teoria de que as obras roubadas estejam sendo usadas como garantia para pegar empréstimos em bancos. Segundo a pesquisa de Tijhuis, 18 obras roubadas na Casa Russborough em 1986, na Irlanda, possivelmente foram usadas para esse fim.
Um fenômeno curioso acontece com as obras surrupiadas: seu valor é baixíssimo no mercado clandestino. Quando são vendidas ilegalmente, estima-se que as obras custem menos de 10% de seu valor no mercado “limpo”. O motivo é evidente: quem compra participa do crime como receptador, e jamais poderá vender ou exibir a obra às claras.
Mais comum é que os assaltantes peçam um resgate à própria instituição de arte. Isso ocorreu com O Grito em 1994. Alguns dias após o roubo, os ladrões pediram US$ 1 milhão para devolvê-lo à Galeria Nacional de Oslo. Após terem o pedido negado, tentaram vender para um suposto representante do Museu Getty, em Los Angeles, por um valor semelhante. Quem apareceu para pegar o quadro foi a polícia, e os ladrões foram presos.
Caso fosse vendido no mercado formal, O Grito passaria dos US$ 120 milhões (8). Por que, então, o museu não aceitou pagar a bagatela de US$ 1 milhão?
A recomendação dos maiores especialistas em crimes de arte é jamais pagar pelo resgate. Essa atitude legitimaria o assalto e colocaria um valor em obras que, em muitos casos, são inestimáveis. O crime não pode compensar.
A realidade, porém, é que ele compensa na maioria das vezes (lembre-se: só 10% das obras roubadas são encontradas). Seja circulando como moeda, penduradas num quarto escuro ou até mesmo destruídas, o destino dessas obras ainda é um mistério. E os maiores lesados não são museus nem galerias – e sim a própria população, que perde o acesso às evidências palpáveis da história e da cultura humanas.
Em fevereiro de 2026, o roubo ao Museu da Chácara do Céu completa 20 anos. O marco não é só simbólico: este é o ano em que o crime prescreve. Isso significa que o Estado perde o direito de punir os autores do assalto, pois não houve uma denúncia eficaz em até duas décadas após o ocorrido. Os ladrões nunca foram identificados – e as cinco vítimas do maior roubo de arte brasileiro seguem sem esperança de voltar para casa.
Referências: (1) artigo “The art of stolen art”; (2) Cálculo feito por Edward Dolnick em 2007, no livro “O Grito Roubado”; (3) Stolen Work of Arts Database; (4) Carabinieri del Comando Tutela Patrimonio Culturale; (5) artigo “The Science of Art Theft: Using Data to Identify Criminal Patterns, 1990–2022”; (6) Agência Nacional Francesa de Cibersegurança (ANSSI), segundo informações obtidas pelo jornal Libération; (7) artigo “Who are stealing all those paintings?”; (8) Com base no leilão de uma das quatro versões de “O grito”, em 2012.





