O Grinch, inimigo nº1 do Natal, é um personagem autobiográfico
O monstro verde, rabugento e solitário é baseado em seu autor, Dr. Seuss, que estava de saco cheio do consumismo exacerbado da data.

Nem só de Papai Noel vivem as histórias natalinas. Afinal, alguém precisa ser o vilão que vai ameaçar a festa, como o ganancioso e avarento Ebenezer Scrooge, protagonista de Um Conto de Natal, de Charles Dickens, ou o rei Herodes, que tenta matar o bebê Jesus nos Evangelhos.
Outro nêmesis natalino é o Grinch, a criatura rabugenta, solitária e verde criada pelo autor de livros infantis Dr. Seuss. O livro Como o Grinch Roubou o Natal foi lançado em 1957, e desde então o monstrengo passou por várias versões em desenhos animados, filmes e até virou musical da Broadway. Talvez seja um dos personagens mais famosos do UEN (Universo Expandido do Natal, que nós da Super acabamos de nomear).
Theodor Seuss Geisel, mais conhecido como Dr. Seuss, foi o autor de mais de 60 livros infantis, cuidando do texto (geralmente cheio de rimas) e das ilustrações. Algumas dessas obras viraram clássicos da literatura infantil, com tradução para diversas línguas e milhões de cópias vendidas.
Antes de se dedicar à literatura infantil, Seuss foi um cartunista político. Ele fez charges para revistas como a Vanity Fair e a Life. Seus livros infantis eram engraçados e fantasiosos, mas não abandonavam a política e a ideia de educar as crianças. O Lorax, por exemplo, é uma fábula ambientalista. E o Grinch surgiu como uma crítica ao consumismo americano, baseado em uma pessoa que estava de saco cheio do jeito que o Natal estava sendo banalizado na cultura dos Estados Unidos: o próprio Seuss.
Grinch, herói da contracultura
A inspiração para a criatura rabugenta, com um coração duas vezes menor que o normal, veio do próprio Dr. Seuss. Em uma entrevista à revista Redbook em 1957, Seuss contou que, ao escovar o dente na manhã depois do Natal, ele se olhou no espelho e viu o Grinch. “Alguma coisa tinha dado errado com o Natal, eu percebi, ou mais provavelmente comigo”, explicou o autor. Escrever a história foi um jeito de reacender o espírito natalino para Seuss.
O motivo do desencanto era a comercialização do Natal. Seu livro infantil é uma crítica do consumismo na época do Natal e do materialismo da sociedade norte-americana. Como Seuss escreveu no livro, o Natal “não é vendido em loja”. O que os personagens que celebram o Natal (os Quem) estão comemorando ali é a união.
Não era só isso que estava deixando Seuss chateado no Natal. Sua esposa, Helen Palmer Geisel, teve um pequeno AVC (acidente vascular cerebral) em abril de 1957; ela já sofria com diversos problemas médicos antes disso. Mesmo assim, ela atuou como editora não-oficial do livro que apresentou Grinch ao mundo.
No livro, o Grinch reclama de como ele conseguiu aguentar o barulho dos Quem por 53 anos. Quando o livro foi publicado, o autor também tinha 53 anos. Sua enteada, Lark Dimond-Cates, chegou a dizer que, em seus dias bons, Seuss parecia com o Gato da Cartola, outro de seus personagens famosos. Quando acordava com o pé esquerdo, era o próprio Grinch.
Em 1957, vale dizer, o Grinch nem era verde. Ele só ganhou essa cor em 1966, quando foi lançada a primeira animação com o personagem. Seuss era contra Hollywood e tinha um pé atrás com a indústria de entretenimento como um todo, mas acabou sendo convencido por um velho amigo a topar o programa para a televisão. Depois disso, o Grinch virou celebridade e parte da cultura natalina mundial – e mais um produto para aumentar o consumismo natalino, apesar de suas origens.