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Como “O Brutalista” revitalizou um tipo de filmagem esquecido desde os anos 1960

Avô do IMAX e queridinho de Hitchcock, o VistaVision durou pouco tempo por ser muito caro. Saiba como o método foi usado no filme indicado ao Oscar – e por que ele fez toda a diferença.

Por Eduardo Lima
Atualizado em 18 fev 2025, 18h44 - Publicado em 18 fev 2025, 18h00

O Brutalista é um filme grandioso: são 3 horas e 35 minutos (esse tempo inclui um intervalo de 15 minutos que divide a história ao meio), trilha sonora épica e uma narrativa que tem como centro a construção de um prédio gigante, projetado pelo sobrevivente do Holocausto e arquiteto brutalista fictício László Tóth.

Para realizar sua visão grandiloquente, o diretor norte-americano Brady Corbet, de 36 anos, demorou sete anos para fazer o filme – e ressuscitou uma técnica que não era usada para gravar um longa-metragem completo desde 1961.

O novo filme de Corbet foi filmado em VistaVision, uma técnica de filmagem analógica criada em 1954 por engenheiros da Paramount Pictures e praticamente aposentada menos de dez anos depois. O método ainda foi usado para fazer algumas poucas cenas de efeitos especiais de Star Wars, em 1977, mas O Brutalista é o primeiro longa-metragem a ser gravado inteiramente com esse processo fotográfico desde o início dos anos 1960.

Agora, o VistaVision está voltando de verdade: o próximo filme de um dos principais diretores de cinema dos Estados Unidos, Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie Nights, Sangue Negro) foi gravado inteiramente com essa técnica. A nova obra de Anderson, que é estrelada por Leonardo DiCaprio, tem lançamento previsto para agosto de 2025.

Mas por que O Brutalista foi feito com essa técnica analógica e anacrônica? É só preciosismo de Corbet ou o método faz sentido para o filme?

Breve história do VistaVision

VistaVision foi uma técnica que surgiu em resposta ao CinemaScope, processo de filmagem desenvolvido pela 20th Century Fox (hoje 20th Century Studios) para fazer filmes widescreen (com proporção 16:9, mais amplo na horizontal). Mais de 80 filmes usaram VistaVision durante o curto período em que a técnica foi usada, a maioria deles da própria Paramount.

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Entre as obras mais famosas filmadas em VistaVision estão a versão cinematográfica dos Dez Mandamentos, dirigida por Cecil B. DeMille em 1956, a comédia musical romântica Funny Face, dirigida por Stanley Donen e protagonizada por Audrey Hepburn, e Um Corpo que Cai e Intriga Internacional, clássicos de Alfred Hitchcock – VistaVision, aliás, era o formato de filmagem favorito dele.

Depois que a Paramount parou de usar o técnica por causa do alto custo de produção um longa-metragem em VistaVision precisava do dobro de rolo de filme , ela vendeu as câmeras modificadas. Por isso, alguns filmes clássicos do cinema japonês, como In the Realm of the Senses de 1976, acabaram usando a técnica de forma extraoficial. Depois disso, o método seria usado para efeitos especiais em blockbusters e, mais tarde, inspiraria a criação do IMAX.

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Hoje, a maioria dos filmes é gravada usando câmeras digitais, sem passar pelos processos analógicos e custosos que definiram a produção cinematográfica até o começo dos anos 2000 (Star Wars: Episódio II Ataque dos Clones, de 2002, foi o primeiro filme a ser gravado inteiramente com câmeras digitais). Mesmo assim, alguns diretores ainda preferem trabalhar com filme analógico, que tem uma beleza própria bem difícil de emular com câmeras digitais.

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Apesar do orçamento apertado de O Brutalista (US$ 9,6 milhões, nem 10% do que normalmente custa um filme de estúdios grandes de Hollywood), Corbet fez questão de usar câmeras analógicas. Para isso, ele chamou o diretor de fotografia Lol Crawley, que também cuidou da filmagem de seus outros dois filmes.

De acordo com Crawley em um vídeo da revista Variety, ao fotografar arquitetura é preciso buscar o mínimo de distorção possível. Para isso, lentes retilíneas são o ideal. Por isso, Corbet pensou em usar VistaVision, que usa filmes de 35mm, mas, ao invés de posicioná-los verticalmente como na maioria das câmeras de cinema –, dispõe a película de forma horizontal, e assim consegue mais espaço no filme para a imagem. Os filmes gravados dessa forma tinham tela ampla e resolução excelente.

O outro jeito de conseguir tela ampla e alta resolução seria usar lentes de ângulo aberto, mas aí as linhas retas da arquitetura em estilo brutalista (daí o nome do filme) iriam para o espaço. “Quanto mais aberto o ângulo, mais distorcidas vão ficando as bordas e linhas da imagem”, explicou o fotógrafo Gustavo Oliveira à Super. É o que acontece, por exemplo, quando usamos a câmera frontal do celular para fazer uma selfie com a lente 0,5 e a testa da pessoa fica gigante.

Já que o rolo de filme do VistaVision tem uma área maior, o espectador pode aproveitar um campo de visão mais amplo que o normal. Assim, é possível enxergar um prédio gigante de uma tacada só, sem distorção de imagem. Dá para ter uma noção do resultado de tudo isso no trailer:

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A primeira vez que Crawley usou o formato foi em Star Wars: Episódio I A Ameaça Fantasma (1999), quando ele era um assistente técnico de filmagem. A câmera era da Industrial Light & Magic (ILM), a empresa de efeitos especiais fundada por George Lucas nos anos 1970 que continuou usando o VistaVision para algumas cenas específicas depois que as câmeras adaptadas para o formato foram descontinuadas.

Tudo isso é muito legal, mas será que faz diferença, mesmo? No início de fevereiro, assisti a O Brutalista em uma sessão antecipada para a imprensa e posso garantir que o VistaVision é impressionante.

As cenas com pouca iluminação cercam o espectador, e a escala do filme é irresistível. Vale destacar uma passagem por uma mina de mármore na Itália, em que os registros das montanhas e cavernas lapidadas pelos trabalhadores são de tirar o fôlego.

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O espectador consegue perceber a textura analógica, mas a alta resolução do VistaVision deixa as imagens pouco granuladas. Para mim, as 3 horas e 35 minutos passaram voando: fui completamente cativado pelas imagens na tela, mesmo nos momentos em que a história não fazia jus à fotografia.

Fica a dica: vale a pena assistir O Brutalista na sala de cinema com a maior tela disponível na sua cidade. O filme chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (20).

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