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Como foi escolhida a trilha sonora de “Ainda Estou Aqui”?

O editor do filme, Affonso Gonçalves, contou os bastidores da escolha das músicas em entrevista à Super. Confira.

Por Eduardo Lima
23 jan 2025, 19h00

Desde que estreou nos cinemas brasileiros, em novembro de 2024, Ainda Estou Aqui virou uma febre. O filme ainda não saiu das salas de cinema, e sua trilha sonora definitivamente não saiu dos fones dos espectadores: uma playlist com todas as músicas foi salva por 38 mil contas no Spotify, e a canção É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo entrou na parada de músicas virais do serviço de streaming, dois anos depois da morte de seu intérprete, Erasmo Carlos.

A trilha sonora de Ainda Estou Aqui também conta com músicas clássicas da Tropicália de Tom Zé, Gal Costa e Os Mutantes, hits de Tim Maia e Roberto Carlos e canções de clássicos internacionais da época como o casal Jane Birkin e Serge Gainsbourg.

Além das músicas, o filme tem uma trilha instrumental original composta pelo australiano Warren Ellis, parte da banda de rock Nick Cave and the Bad Seeds.

Escolher uma trilha sonora não é só fazer uma playlist. As músicas precisam encaixar na cena, ter letras que façam sentido – várias se relacionam diretamente com o roteiro em Ainda Estou Aqui – e conversar emocionalmente com o filme. A trilha do longa foi cuidadosamente escolhida a oito mãos pelo editor Affonso Gonçalves, pelos roteiristas Heitor Lorega e Murilo Hauser, e pelo diretor Walter Salles.

Gonçalves, que trabalha recorrentemente como editor em filmes dos diretores Todd Haynes e Jim Jarmusch, conversou com a Super para explicar o processo de escolha da trilha sonora de Ainda Estou Aqui.

Nos bastidores da trilha sonora

Algumas canções foram escolhidas para fazer parte de Ainda Estou Aqui antes mesmo do filme começar a ser gravado. No roteiro de Lorega e Hauser, algumas músicas já tinham sido sugeridas, como Jimmy, Renda-Se, do Tom Zé e Je t’aime moi non plus, de Jane Birkin e Serge Gainsbourg.

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Outra ideia que veio dos roteiristas foi usar canções de Roberto Carlos, artista com um relacionamento complexo com a ditadura militar. Ele ajudou a compor músicas de protesto, como a brilhante É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, visitou Caetano Veloso no exílio (para quem escreveu como homenagem Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos), e era adorado pelos tropicalistas perseguidos. Mesmo assim, ele também recebeu honrarias militares e cantou nas Olimpíadas do Exército.

“Tanto os roteiristas como o Walter resolveram usar o Roberto também por essa contradição”, explica Gonçalves. “Eles ouviam porque era o que tocava no rádio na época”, como dá para perceber em cenas onde o rádio é ligado e a voz do cantor aparece imediatamente.

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Outro momento que já tinha a trilha sonora mais ou menos delimitada no roteiro é a cena em que as crianças estão dançando e Rubens Paiva (interpretado por Selton Mello) troca o disco e coloca Take Me Back To Piauí, do compositor e humorista Juca Chaves, para tocar. Isso já estava no roteiro, mas Gonçalves e Salles tentaram algumas músicas para mostrar o “contraste de gerações” entre os filhos e os pais. Depois de testar até David Bowie, eles escolheram Alexander, da banda Ten Years After, que não está disponível nos serviços de streaming.

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“A grande sorte”, diz Gonçalves, “é que 1971 foi um grande ano para a música brasileira”. Foi possível respeitar a linha do tempo do filme (a primeira parte de Ainda Estou Aqui, durante a ditadura, se passa entre 1970 e 1971), sem escolhas anacrônicas, e pensar no que as pessoas estariam escutando naquele momento.

“Não só as músicas contam um pouco da história daquela época, mas te dão um entendimento dos personagens”, explica Gonçalves. “A Veroca [interpretada por Valentina Herszage] ouve Gal, ela escolhe Os Mutantes para tocar no Super-8 dela em Londres, a Zezé [interpretada por Pri Helena] ouve rádio que toca MPB, Tim Maia, Roberto Carlos […] Você acaba conhecendo um pouco mais de cada um deles através do gosto musical.”

A canção que tem o lugar de maior destaque no filme é o clássico de Erasmo Carlos É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, uma das favoritas de Gonçalves do primeiro álbum do Tremendão. A música toca no começo do filme, ajudando a contar o que estava acontecendo no país na época, e nos créditos.

Voltar com a música no fim de Ainda Estou Aqui, enquanto imagens vazias da casa normalmente cheia de vida e risada dos Paiva passam pela tela, é uma forma de reforçar o tema da memória e lembrar a audiência “do tempo em que os sonhos da família, uma casa pra eles, ainda eram possíveis”, segundo Gonçalves.

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Há uma única música do século 21 na trilha sonora: a peça instrumental The Fight, que foi composta pelo islandês Jóhann Jóhannsson para a trilha sonora do filme Personal Effects, de 2009. Ela é um resquício da trilha temporária do filme: Gonçalves editou Ainda Estou Aqui com uma trilha sonora provisória, usando composições de Jóhannsson e de Warren Ellis para ter uma ideia inicial de como seria o filme com música.

A música de Jóhannsson combinou tanto com a cena da família saindo do Rio de Janeiro e mudando para São Paulo que eles decidiram mantê-la. O compositor islandês, famoso por trilhas sonoras como de A Teoria de Tudo A Chegada, faleceu em 2018, então a escolha natural para compor a trilha original para o filme foi o outro nome presente no corte provisório: Warren Ellis, que imediatamente disse sim depois de assistir ao filme.

“Foi um processo longo porque Warren mora em Paris, eu em Los Angeles e Walter no Rio”, explicou Gonçalves. “Quando ele começou a compor a trilha, o Walter e eu estávamos finalizando o filme em LA, eventualmente o Walter foi para Paris e terminou a trilha lá com o Warren.” A obra final, segundo o editor, “eleva o filme” e “te coloca perto dos personagens”.

Ainda Estou Aqui foi indicado aos prêmios de Melhor Filme Internacional, Melhor Atriz e Melhor Filme no Oscar de 2025. Ainda dá tempo de assistir ao filme nos cinemas – e sempre é tempo de ouvir essa trilha sonora de novo.

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