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Governo decide permitir que joguem veneno em cima de nossas cabeças

Por Denis Russo Burgierman
13 jul 2016, 23h57 • Atualizado em 4 set 2024, 11h23
  • iStock | filipefrazao
    iStock | filipefrazao

    Os fabricantes de agrotóxicos fizeram lobby, a Câmara dos Deputados votou, o presidente em exorcismo Michel Temer sancionou e o Diário Oficial publicou, no final do mês passado. Ficou decidido que o governo brasileiro permitirá que se jogue inseticida de aviões sobre as cidades, para controlar a população do Aedes aegypti e, com isso, conter epidemias como a zika e a dengue, que certamente voltarão a se espalhar no próximo verão. Mesmo com todos os pareceres técnicos indicando que não é uma boa ideia. Com isso, o excesso de contaminação por agrotóxicos, que já é um problema sério nas zonas rurais do Brasil, pode passar a afetar também as populações urbanas.

    “É um grande retrocesso”, diz a pesquisadora Larissa Mies Bombardi, especialista em geografia agrária na USP, que está se preparando para publicar um atlas dos agrotóxicos no Brasil em setembro. “Enquanto a União Europeia já baniu a pulverização aérea inclusive nas zonas rurais, no Brasil estamos falando em legalizar em zonas urbanas.”

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    Larissa diz que a situação dos agrotóxicos no Brasil já era assustadora mesmo antes da nova lei. “Houve 2.181 intoxicações por agrotóxicos de crianças e adolescentes entre 2007 e 2014 no país. Além disso, 342 bebês de até 1 ano de idade foram intoxicados”, diz ela, frisando que esses números provavelmente estão imensamente subdimensionados (estima-se que a subnotificação no Brasil seja tão gigante que o número real seja 50 vezes maior). “Quando comparamos o mapa do agronegócio no Brasil com o mapa dessas intoxicações, fica óbvia a correlação. Os casos acontecem nas mesma regiões onde ocorre agricultura de larga escala, com farto uso de agrotóxicos e técnicas como a dispersão aérea”, diz.

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    Os dois mapas do Atlas dos Agrotóxicos deixam claro que há uma correlação entre uso de agrotóxicos e casos de intoxicação.
    Os dois mapas do Atlas dos Agrotóxicos deixam claro que há uma correlação entre uso de agrotóxicos e casos de intoxicação.

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    O problema é que a dispersão aérea é tremendamente imprecisa. Venenos atirados de um avião estão sujeitos a se espalhar de maneira imprevisível. Tanto que se recomenda que jamais se adote a técnica a menos do que 500 metros de um rio ou de uma habitação – recomendação impossível de ser cumprida numa cidade. Ainda mais se o objetivo for matar o Aedes aegypti, um inseto que vive dentro das casas de seres humanos.

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    Os venenos usados para controlar o aedes contêm várias substâncias bastante nocivas para a saúde, como o larvicida pyriproxyfen, o inseticida e acaricida malationa e o inseticida fenitrotiona, que já são utilizados na agricultura. As crianças brasileiras já são submetidas a taxas altas demais dessas substâncias: o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo e tem pouquíssimo controle sobre os efeitos disso e a dispersão das substâncias na natureza. Atirá-las do céu só vai piorar o problema.

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    É claro que é importante e urgente controlar a população do aedes e conter as epidemias. Mas essa urgência não pode virar justificativa para colocar a população toda em risco. “Usa-se o discurso da defesa das crianças, que correm risco com a zika, para justificar a mudança na lei. Mas o agrotóxico pode ser tão nefasto à infância quanto as doenças em si”, diz a geógrafa.

    A verdade é que pulverizar inseticida no país inteiro é uma tentativa de tomar um atalho para resolver uma emergência na saúde pública. “Quando na verdade sabemos que o problema é outro: falta de saneamento básico”, afirma. Quer que o aedes não infeste o país? Só tem um jeito: urbanizar, levar água encanada e esgoto tratado para todas as periferias superpopulosas do Brasil. Enquanto isso não for feito – e é viável fazer se houver um projeto nacional nessa direção – os mosquitos terão no Brasil um hábitat perfeito para se reproduzirem.

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