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Terapia Gerson promete combater o câncer com dietas – mas é pura balela

13 sucos por dia, suplementos e limpeza intestinal com café. As ideias de Max Gerson persistem desde os anos 1930, apesar de não haver eficácia comprovada.

Por Manuela Mourão
Atualizado em 10 mar 2025, 10h15 - Publicado em 8 mar 2025, 19h00

Nos anos 1930, Max Gerson, um médico alemão, disse que curou sua enxaqueca com algumas técnicas caseiras. Animado com o resultado do seu experimento, o doutor seguiu com a teoria de que, caso esses métodos fossem aplicados em pacientes com tuberculose e câncer, bastava seguir à risca a terapia para superar as tais doenças. 

Após a morte de Max, em 1959, sua filha Charlotte eternizou as ideias do pai criando o Instituto Gerson, que desde 1978 trata pacientes com algum tumor maligno – tudo de acordo com as teorias do finado. O problema? Centenas de pacientes abandonam o tratamento tradicional do câncer para seguir as recomendações do Instituto que, nem nos anos 1930 e nem agora, nunca foram comprovados cientificamente como eficazes. 

Vamos supor que algum familiar ou conhecido seu faça quimioterapia. Se você ouvisse que ele desistiu das sessões para focar em um tratamento baseado em uma dieta de sucos, você morreria de preocupação e tentaria encontrar alguma razão oculta para tamanha bizarrice, certo?

Por mais esquisito que pareça, essa maracutaia é a base da Terapia Gerson. Para o médico alemão, o câncer se manifesta nos nossos corpos como resultado das toxinas que colocamos para dentro e que se acumulam em nossas células. Para isso, então, ele sugere uma cura com base em uma dieta rigorosa, suplementos alimentares e enemas de café (já vamos explicar o que é isso).

A dieta ideal para o médico deveria conter frutas e vegetais orgânicos, além de grãos integrais para garantir uma alta disposição de vitaminas, enzimas e minerais. Saladas de frutas também funcionariam como fonte de potássio – que, para o doutor, combateriam os danos causados por muito sódio nas células de tecidos enfraquecidos. 

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Os suplementos, por sua vez, ajudariam a corrigir o metabolismo celular e aumentariam a força do sistema imunológico. Já para desintoxicar o organismo, Gerson sugeria os enemas de café.

Caso você não saiba o que é um enema de café, sinta-se um sujeito de sorte. Vamos por partes. Um enema é a inserção de algum líquido através do reto. Uma limpeza a jato, que deixa intestino limpinho quando o líquido sai por onde entrou.

Alguns exames feitos em laboratórios pedem a realização de enemas, sendo comum o uso de água pura ou uma solução com sal, pois apresentam menos risco. No entanto, até mesmo com bases seguras, esse procedimento pode ter efeitos colaterais, como perturbar as bactérias intestinais e afetar o equilíbrio eletrolítico do corpo.

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Se com água os enemas já apresentam riscos, imagine com café, sabão de castela ou glicerina. Pois é exatamente o que Gerson recomendava. Segundo ele, “o processo da doença produz mais toxinas, sobrecarregando o fígado” (que já faz esse serviço) e que “os enemas dilatam os ductos biliares do fígado para que as toxinas possam ser liberadas”. Nesse caso, o café seria a melhor alternativa para desintoxicar o corpo.

A terapia Gerson exige que os detalhes do plano de tratamento sejam seguidos minuciosamente. Uma rotina normal envolve: 13 copos de suco por dia (quase um para cada hora que se passa acordado); pratos vegetarianos com alimentos 100% orgânicos; e a suplementação de sete tipos diferentes de vitaminas: potássio, solução de Lugol, coenzima Q10 injetada com vitamina B12, vitaminas A, C e B3, óleo de linhaça, enzimas pancreáticas e pepsina.

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De acordo com o Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos (NCI), não foram realizados estudos laboratoriais ou com animais sobre a terapia Gerson e sua eficácia. A maioria das informações sobre a terapia vem de estudos retrospectivos feitos pela equipe do médico alemão e seu atual instituto.

Max Gerson publicou relatos de casos de 50 pacientes, mas a análise do NCI em 1947 e 1959 concluiu que os dados não comprovavam benefícios. Outros estudos retrospectivos, como o de 1983-1984 com 38 pacientes e o de 1995 com pacientes com melanoma, não forneceram evidências suficientes para apoiar sua eficácia no tratamento do câncer.

Há relatos de efeitos colaterais, como três mortes associadas a enemas de café, que podem causar alterações na química sanguínea. A terapia Gerson não é aprovada pela FDA para tratar câncer ou outras doenças. Pacientes com câncer devem consultar seus médicos para orientações sobre dieta adequada durante o tratamento. Além disso, se afastar de tratamentos médicos tradicionais, como a quimioterapia, impulsionará o desenvolvimento do diagnóstico.

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