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O que diz o artigo de cientistas indígenas brasileiros publicado na Science

É o primeiro texto assinado por cientistas indígenas na prestigiada revista científica, e propõe um novo olhar às propostas de preservação da Amazônia

Por Manuela Mourão
13 dez 2024, 18h00

A Amazônia tem 27% de seu território pertencente a mais de 410 grupos indígenas. Essas comunidades habitam a região há milhares de anos – mas, mesmo assim, são poucos os projetos de conservação liderados a partir da visão desses povos. Um artigo publicado ontem (12) na revista Science, escrito por grupos indígenas brasileiros, propõe novas abordagens para preservar a floresta.

O artigo é uma colaboração entre pesquisadores indígenas de vários povos da região do Alto Rio Negro, no Amazonas: os Ʉtãpinopona/Tuyuka, Yepamahsã/Tukano, Wa’î pino pona/Bará, Medzeniakonai/Baniwa e Sateré-Mawé e sugere um novo olhar para como a ciência da preservação deve andar lado a lado com as tradições indígenas milenares. 

A ciência ocidental por muito tempo negligenciou o conhecimento indígena. Foi só nos últimos 40 anos que os laços entre pesquisadores da academia e povos originários começaram a se estreitar, principalmente quando o assunto é conservação. Estudos mostram que territórios indígenas são responsáveis por preservar até um terço das terras naturais restantes, sem falar no papel de proteger espécies em extinção. 

O artigo cita o Painel Científico para a Amazônia (SPA), composto por mais de 240 cientistas de 40 países, como tendo realizado “realizou a maior avaliação científica da região até o momento, em diálogo com comunidades indígenas e outras comunidades locais”. “Em linha com a Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, a SPA estabeleceu estratégias para garantir que a região se torne ecologicamente saudável, socialmente justa, culturalmente inclusiva e economicamente viável”, escrevem os autores.

Contudo, apesar de abordagens mais inclusivas como essa, ainda predomina uma visão utilitarista da natureza, que transforma ecossistemas nativos em terras agrícolas e industriais. 30% da madeira amazônica, por exemplo, é explorada de forma ilegal.

“Estratégias de conservação baseadas nas visões ocidentais, como as áreas estritamente protegidas, frequentemente excluem ou deslocam povos indígenas de seus territórios, tratando a biodiversidade apenas como um conjunto de recursos a ser gerido”, pontua o artigo.

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Quando a legislação de conservação proíbe o uso de espécies ou locais culturalmente importantes, isso isola os povos indígenas de seus territórios, criando uma “armadilha do conhecimento” que limita o engajamento dos indígenas com o ambiente e reduz a eficácia das estratégias de conservação a longo prazo.

O que fazer, então?

Os pesquisadores definem que as práticas das comunidades ao longo do ano seguem os ritmos da Terra para manter o equilíbrio do mundo, interagindo com três domínios habitados por diferentes espécies: o aéreo (clima e constelações), o terrestre (solo e floresta) e o aquático (que inclui o subaquático). 

Nessa visão, os humanos ocupam o domínio terrestre e desenvolvem relações sociais e ecológicas com todos os participantes do ecossistema, incluindo “outros-humanos”, animais, plantas, montanhas e rios. Os “outros-humanos” (ou waimahsã, em Tukano) possuem as mesmas qualidades dos humanos, mas são divindades espirituais, só vistas por xamãs ou em sonhos, e habitam todos os domínios, protegendo os locais onde todos os seres vivem.

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Por isso, a manutenção das relações entre todos os participantes do ecossistema é essencial para a saúde do sistema terrestre. 

Embora os ecossistemas amazônicos sejam frequentemente vistos como estáticos, os povos indígenas desenvolvem inovações e explorações sustentáveis por meio de transformações contínuas para a sobrevivência. Por exemplo, os caminhos usados por grupos em atividades diárias, como caça, são os mesmos usados pelos animais, pelo vento e pela água.

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Outros exemplos citados no artigo são do manejo de florestas culturais, do uso da Terra Preta – um solo altamente fértil – , agroflorestas e diversificação de cultivos. Essas práticas, que não são totalmente integradas às abordagens convencionais de conservação, moldaram os ecossistemas amazônicos ao longo de milênios.

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“As comunidades científicas precisam estabelecer procedimentos para uma colaboração transdisciplinar e intercultural, integrando as práticas e conhecimentos indígenas para melhorar a pesquisa, políticas e ações de conservação”, escrevem os autores.

Como preservar?

Os cientistas apresentam três princípios indígenas para criar a ponte entre conservação e restauração. 

O primeiro é o reconhecimento de que uma rede cosmopolítica envolve relações de parentesco, comunicação e troca entre humanos e outros seres do ecossistema. Ou seja, humanos, animais, plantas e elementos naturais estão interconectados, dependem uns dos outros.

O segundo ponto envolve reconhecer as práticas indígenas e as restrições necessárias para manter essa rede em funcionamento. E por fim, os cientistas explicam que a compreensão de que as redes são circulares e seguem o ritmo da Terra deve ser levada em consideração. O estudo sugere que, dessa forma, poderiam ser evitados problemas desde o desmatamento desenfreado até as queimadas da região.

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“Os conhecimentos indígenas não são dogmáticos e devem ser levados a sério na busca por um futuro sustentável”, afirmam os autores. 

Ao adotar esses princípios, é possível promover a colaboração entre os conhecimentos ocidentais e indígenas, integrando-os em pesquisas e políticas para criar novas questões, conceitos e métodos em conservação e restauração. E, por mais que este recorte seja particularmente aplicável aos territórios indígenas, suas teorias podem ser aplicadas em diversos contextos para a preservação de ecossistemas.

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