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Formigas se comunicam beijando na boca

Um formigueiro é mais agitado que uma balada - e o contato bucal das formigas pode ser a chave para entender como elas organizam as colônias.

Por Ana Carolina Leonardi Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
2 dez 2016, 18h56 • Atualizado em 2 dez 2016, 19h14
  • Colônias de formiga são enormes micaretas. Elas fazem transmissões boca a boca o tempo todo, com todas as primas e filhotes da colônia. Esses beijos são chamados de trofalaxia e não são muito românticos: através deles, as formigas transmitem comida regurgitada para alimentar umas às outras. Mas uma pesquisa recente mostrou que esse beijo-vômito tem funções muito maiores que a alimentação.

    Teste de paternidade
    Os pesquisadores desconfiaram que os beijos babados das formigas iam além da alimentação quando viram que a primeira coisa que uma formiga isolada do ninho faz quando encontra outra formiga é tascar-lhe um beijão. Através do boca-a-boca, algumas substâncias contidas no fluido funcionam como uma “certidão” da colônia de origem da formiga – tanto que o comportamento dos indivíduos depois do beijão é diferente quando se trata de formigas parentes ou de colônias diferentes.

    Engenharia genética
    No filme Gattaca, os pais podem escolher dar um up no DNA dos seus filhos, otimizando genes de altura, de inteligência e de saúde. As formigas fazem tudo isso através beijando seus recém-nascidos – e a hierarquia da colônia também é formada por esse processo.

    Funciona assim: a baba do beijo formigueiro carrega proteínas que regulam o crescimento e o chamado “hormônio juvenil”, essencial para o desenvolvimento de larvas.

    O hormônio juvenil é conhecido por prever o destino das formigas. Aquelas que têm uma dosagem menor dele se tornam pequenas operárias. Com maiores dosagens, elas vão crescendo até se transformar em soldados ou até rainhas. Os cientistas sabem disso porque isolaram o hormônio em laboratório e testaram doses diferentes nas formigas.

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    O que a nova pesquisa mostra, no fim das contas, é o seguinte: num formigueiro real, pode ser que esse hormônio seja transmitido pela boca das formigas adultas para as larvas. Assim, a dosagem hormonal seria determinada pelo formigueiro enquanto comunidade – e o equilíbrio hierárquico entre formigas de diferentes castas seria administrado e gerido pelo beijo-vômito.

    Dessa forma, os pesquisadores acreditam que o boca a boca das formigas tenha uma função de comunicação parecida com a do leite nos mamíferos – nos humanos, a amamentação também carrega uma série de hormônios que ajudam a firmar a conexão entre mãe e filhote (caso da ocitocina).

    Outra curiosidade que surge a partir do estudo diz respeito a outros fluidos corporais. Se o regurgitado da trofalaxia, que já tinha uma finalidade estabelecida há anos, era muito mais rico do que a ciência imaginava, é possível que existam funções paralelas para fluidos como a saliva, por exemplo – o que ajudaria a explicar cientificamente porque os humanos gostam tanto de se beijar.

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