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Como as focas usam os bigodes para localizar presas muito distantes

Esses animais conseguem usar seus bigodes diferentões para localizar os rastros deixados na água por presas

Por Bela Lobato 24 mar 2026, 12h00 •
  • I

    magine que você está em um jardim, encantando-se com a luz que atravessa as folhas, o cheiro da terra, o calor do sol e o roçar do vento na pele. Talvez ainda dê para ouvir os pássaros ou o zumbido característico de uma cigarra. 

    Essa é a vida na Terra para os humanos. Esse é o mundo que nossos sentidos nos permitem conhecer. O biólogo e filósofo Jakob von Uexküll (1864-1944) chamava isso de umwelt.

    Mas há outros mundos, outros umwelts. Naquelas mesmas plantas, as abelhas enxergam sinais ultravioleta nas flores, indicando o melhor lugar para pousar e obter pólen. Algumas aves percebem o campo magnético da Terra e sabem se localizar com precisão, como se navegassem numa malha invisível de batalha-naval.

    Certos insetos podem saber que a cigarra está por perto pela vibração das superfícies. As formigas seguem ordens em uma rígida hierarquia e infinitas trilhas a partir das informações obtidas pelos feromônios que deixam umas para as outras. É um sinalizador potente: 1 miligrama de feromônio da formiga-cortadeira-do-texas bem espalhado seria suficiente para guiá-las em três voltas ao redor da Terra (1). 

    No mesmo jardim, pode ser ainda que o focinho de um cachorro encontre pistas úteis sobre dieta, fertilidade, capacidade física e estresse de outros cães das redondezas.

    Para saber que essas coisas – comprimentos de luz que não enxergamos, vibrações mínimas, feromônios – existem, nós precisamos de instrumentos. Eles funcionam como tradutores: falta nos humanos o órgão para sentir as ondas magnéticas, mas você pode entendê-las se forem convertidas em um número ou um desenho no seu campo de visão. 

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    Nossa visão, aliás, é uma das melhores e mais elaboradas dentre todas as espécies. Nós amamos enxergar: transformamos quase tudo em coisas que podem ser entendidas com os olhos. É o caso desta matéria (e de todas as outras da revista). 

    Sendo assim, ajuste os seus olhos para, nas próximas linhas, imaginar outros mundos.

    Este texto é parte da reportagem “Já é sensação”, da edição 485 da Super. Confira os outros textos aqui.


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    s olhos dos mamíferos evoluíram para enxergar no ar, e são quase inúteis para encontrar comida submersa. Mesmo assim, algumas espécies se adaptaram para “enxergar” com os ouvidos, usando a ecolocalização – caso dos cetáceos, que até desenvolveram um vocabulário específico.

    Já outros mamíferos aquáticos, como as focas-comuns, foram por outro caminho. Em milhões de anos de evolução, prevaleceu nelas uma adaptação engenhosa do tato.

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    O tato é um sentido mecânico. Na maior parte das vezes, ele nos informa sobre quando estamos tocando em algo. Conseguimos discernir temperatura, pressão, vibração, dureza – mas é preciso que a coisa esteja lá. 

    Pode parecer óbvio, mas essa é uma limitação humana. Nossos órgãos são incapazes de sentir o toque de algo ausente. Mas não significa que isso seja impossível.

    Imagine que você está à beira de uma estrada movimentada, com os olhos, ouvidos e nariz tapados. Você sente, pelo tato, o vento e a vibração de um caminhão que passa zunindo, e talvez saiba dizer para que lado ele foi.

    O caminhão passa por você e, alguns metros depois, seu tato já não revela mais nada sobre a posição dele – se freou, virou, deu meia-volta, saiu voando. Se ele tivesse passado devagar, talvez nem a existência dele você notaria. 

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    Um mamífero no mar tem que resolver um quebra-cabeça como esse todos os dias. Afinal, além da visão, a audição e o olfato dos mamíferos também não funcionam nada bem na água.

    Ilustração multicolorida de uma foca.
    (Tayrine Cruz/Superinteressante)

    Nos anos 2000, a equipe do pesquisador Guido Dehnhardt descobriu como as focas fazem para contornar esse problema: ele começou treinando duas focas machos, Henry e Nick, para seguirem um pequeno submarino. Quando eles já estavam craques, seus olhos e ouvidos eram tapados. O submarino dava uma voltinha na água e eles eram soltos minutos depois, com a missão de achá-lo.

    Rapidamente, Henry e Nick encontravam o rastro do submarino e o seguiam, como se presos a uma corda. Eles não estavam só indo na direção geral do submarino, mas acompanhavam o trajeto com precisão. Se ele tivesse feito curvas ou subidas, as focas repetiam os movimentos até o destino final.

    Quando um peixe nada, o impulso das suas barbatanas cria um pequeno redemoinho na água. Mesmo para um peixe pequeno, esse rastro pode durar mais de 30 segundos. É isso que as focas detectam, com muita sensibilidade.

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    Por que amamos bichinhos? A ciência da fofura

    O segredo dessa capacidade está bem debaixo do nariz (das focas): os bigodes. Assim como nos gatos, os bigodes delas não são apenas pelos. São órgãos sensoriais, chamados vibrissas. 

    Na base de cada vibrissa há um órgão especializado, com muito sangue e terminações nervosas. É lá que o estímulo tátil se transforma em sinais neurais. Nos experimentos, quando as vibrissas eram tapadas com um plástico, as focas perdiam os submarinos.

    Os bigodes das focas-comuns são diferentões, especializados: levemente achatados e cobertos de pequenas protuberâncias. Se fossem cilíndricos, como os de leões-marinhos, vibrariam muito com o movimento do próprio animal – o que tornaria difícil diferenciar as ondulações causadas por si próprio das de outros bichos. 

    O formato e a distribuição dos bigodes das focas fazem com que elas detectem os redemoinhos e suas nuances com muito mais detalhes para calcular o sentido da trilha. Assim, elas conseguem localizar presas que estejam a até 180 metros de distância. 

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    Fontes livro Um mundo imenso, de Ed Yong; artigos “Identification of the trail pheromone of a leaf-cutting ant, Atta texana”;  “Hydrodynamic trail-following in harbor seals (Phoca vitulina)” e “Harbor seal vibrissa morphology suppresses vortex-induced vibrations”.

     

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